08 de julho de 2026
Geral

Trânsito brasileiro é uma tragédia sem fim

(*) B. Requena
| Tempo de leitura: 4 min

Há alguns meses, através de propaganda institucional, o governo fez veicular pela imprensa, principalmente e de maneira até exaustiva, pela TV, uma produção com vários itens que apresentava relatos de pessoas sobre graves acidentes de trânsito ocorridos com pessoas da família. Concluída aquela série, iniciou outra, por sinal, muito bem idealizada e até com uma certa dose de humor, mas com alto poder de comunicação. Nem preciso detalhar aqui o sujeito careca flagrando pai deixando filho menor dirigir, criança querendo viajar no banco da frente, jovens saindo em viagem de passeio em veículo sem segurança.

Antecedendo e coincidindo com o feriadão da Páscoa, vimos nas emissoras o educativo que há algumas décadas alguns teóricos equivocadamente qualificariam de impróprio. O anúncio, se não me falha a memória, diz mais ou menos assim: Você vai ver agora um acidente em alta velocidade. Pedaços de vidro e de metal se deslocarão também em alta velocidade... Tudo isto é ouvido enquanto se vê um belo bebê viajando no veículo em que o pai faz uma ultrapassagem em local proibido.

Ao contrário das leis que alguns, de maneira absurda, alegam não ter tomado conhecimento de seu texto, até quem menos vê televisão com toda certeza chegou a assistir dezenas de vezes todos esses anúncios de campanha institucional. E a repetição, que deveria provocar positiva lavagem cerebral nos motoristas, agora tem seus efeitos colocados em dúvida. Os estudos sobre se os resultados foram positivos ou não, não são da área que pretendo analisar aqui. Acredito e muito em sua eficácia, o que leva a crer que a cifra de 17 mortes registradas pela Polícia Rodoviária de nossa região, durante o feriado prolongado, não fosse a campanha, não fosse o novo Código de Trânsito, não fosse o excelente trabalho de fiscalização, acompanhamento, patrulhamento da PR, poderia ser de 170 mortes.

Comparando os anúncios com a realidade, constatamos que no último fim de semana o pai acabou deixando o garoto menor de idade dirigir, o jovem pegou no volante bêbado ou continuou não usando cinto de segurança, os garotos saíram pelas rodovias sem passar no borracheiro, o motociclista preferiu deixar de lado o capacete e o pai do bebê acreditou que de frente, na curva ou na lombada não vinha em sua direção uma carreta pesada.

O novo Código Nacional de Trânsito, que chegou com todo rigor anunciando a perda de pontos por infração cometida, a cassação da CNH e outras penalidades, corre o risco, dia após dia, de se transformar em letra morta. Nos últimos meses vimos até caso de parlamentar dos mais conhecidos no Congresso Nacional ameaçado de perder a CNH. Como é certeza absoluta que isto jamais acontecerá, os outros milhares de ameaçados querem também se beneficiar, neste caso de uma isonomia que, ao contrário do que deveria, segue o mau e não o bom exemplo.

No Japão, durante o reveillon de 1999, tive a oportunidade de testemunhar como que parentes e amigos saíam de casa, durante a madrugada, após a passagem do ano, para buscar familiares e colegas de trabalho que se encontravam em festas às quais foram dirigindo seus próprios veículos mas que não se atreviam a voltar para casa após ingerir qualquer tipo de bebida alcoólica, sob pena de perder (mesmo!) a Carteira de Habilitação ou ir parar na cadeia. E este procedimento não se trata de um caso ou outro. Ali é a regra geral!

Viajando de Tóquio a Hiroshima numa van dirigida por um motorista brasileiro (só poderia!) de origem nipônica, por várias vezes o advertimos de que estava excedendo na velocidade. De repente, um veículo moderno, mas sem qualquer sinal de que se tratava de patrulheiros, emparelhou com o nosso, tomou a dianteira e, no vitro traseiro começaram a aparecer frases luminosas em japonês exigindo que parasse. E aquilo que no Brasil poderia se configurar numa rápida bronca, numa multa que o amigo ou o vizinho quebraria uma semana depois, foi uma parada de 40 minutos com pesadíssima multa, advertência, conselhos e sabatina para ver se o condutor poderia seguir viagem.

No Brasil, é lamentável que, além das pessoas ditas normais mas que dirigem de maneira irresponsável, há também os delinqüentes procurados pela Justiça, que já cometeram todo tipo de crime, não estão presos e conduzem veículos com os mesmos direitos e condições de igualdade que o cidadão consciente que vai à frente ou ao seu lado. E a lei? Ora, a lei! - como disse um ex-presidente da República.

(*) B. Requena é editor de Internacional do JC