Dizia-se, nos meses que antecederam ao lançamento do Plano Real, quando o ex e atual ministro argentino, o todo-poderoso Domingo Cavallo, estudava a adoção da paridade cambial entre o peso e o dólar, que as experiências feitas na economia de nosso vizinho serviriam de laboratório para os brasileiros. Em outras palavras, parodiando o efeito Orloff (aquele do eu sou você amanhã), o Brasil faria tempos depois o que a Argentina havia feito antes. Tal prática, segundo as autoridades econômicas da época, permitiria ao nosso País copiar apenas as medidas que tivessem dado certo lá, na Argentina. Uma espécie de risco zero.
E, de fato, assim aconteceu, quando, em julho de 1994, o governo anunciou a nova moeda brasileira, o real, que valia exatamente um dólar. Durante os 12 meses que se seguiram ao anúncio do novo padrão monetário, que veio em conjunto com as demais medidas de estabilização do Plano Real, os brasileiros curtiram certa sensação de euforia, causada pela valorização média de 30% da nossa divisa em relação do dólar. Foi esse um período ao longo do qual, como diria Nélson Rodrigues, o brasileiro jogou no lixo o seu arraigado complexo de vira-lata.
Naquela época, a mídia costumava dar enorme destaque a tudo o que acontecia na Argentina, tentando, dessa forma, antecipar e acostumar os brasileiros às medidas que poderiam ser tomadas algum tempo depois. E assim brasileiros e argentinos caminharam mais ou menos juntos, não raro aos trancos e barrancos, embriagados pelo sucesso do efeito Orloff. Mas, em janeiro de 1999, a desvalorização do real encerrou um período de cinco anos, ao longo dos quais o intercâmbio comercial e os negócios entre Brasil e Argentina e os demais parceiros do Mercosul expandiram-se num ritmo sem precedentes.
A crise que se seguiu à desvalorização da moeda levou o Brasil a recorrer ao FMI que, em troca da ajuda financeira, avaliada em US$ 40 bilhões, exigiu prioridade absoluta para o ajuste fiscal, o que foi feito em dois anos, às custas de enormes sacrifícios para o setor produtivo, a classe média e os trabalhadores.
Por sua vez, a Argentina insistiu em manter a paridade e a conversibilidade entre o peso e o dólar, apesar dos seguidos déficits na balança comercial e da baixa produtividade industrial. O resultado foi uma crise de tal ordem que nem mesmo a ajuda financeira do FMI, combinada com a de bancos privados americanos, europeus e nipônicos, conseguiu debelar.
Sem carisma, o presidente De la Rúa apostou suas fichas em López Murphy, um liberal ortodoxo, um Chicago boy, que receitou um remédio tão forte que se fosse tomado mataria o doente. Por isso mesmo, e talvez pelo azar embutido no próprio nome (uma das leis de Murphy diz que, se houver a menor chance de algo dar errado, com certeza, ele dará), renunciou menos de duas semanas após ter assumido o cargo.
Em seu lugar, voltou Domingo Cavallo, que pediu ao Parlamento argentino a rápida aprovação de medidas excepcionais para pôr a casa em ordem. Dentre elas, pasme, leitor, está a CPMF! É o efeito Orloff ao contrário. Ou seja, a Argentina será amanhã o que o Brasil é hoje. Ironias à parte, só podemos desejar e torcer pelo sucesso das medidas propostas por Domingo Cavallo. Quanto mais cedo a Argentina sair da crise, melhor para nós.
(*) Miguel Ignatios é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM). E-mail: presidencia@advbfbm.org.br