08 de julho de 2026
Geral

O defensor da língua portuguesa

Fabiano Alcantara
| Tempo de leitura: 4 min

Há 12 anos, professor coordena a Noite de Poesia, reunião mensal para discutir a literatura luso-brasileira

Filho de uma família tradicional de Bauru, o professor Antônio João Fraga Padilha é um obstinado defensor da língua portuguesa. Aos cinco anos, queria aprender a ler e não sossegou enquanto não conseguiu sentar-se à mesa com os adultos para ler jornais e revistas.

Anos depois, descobriu Monteiro Lobato, aprofundou os estudos e começou a alfabetizar adultos.

Em 1957, seu caminho encontrou o de Celina Lourdes Alves Neves. A célebre dona da escola Progresso chamou o professor para dar aulas no estabelecimento. Começaram as reuniões de discussão sobre esperanto e língua portuguesa e elas ficaram cada vez mais freqüentes. O grupo passava anos estudando obras como Os Lusíadas e Os Sertões. Em uma destas reuniões, que anos depois passaram a se chamar Noites de Poesia, a Academia Bauruense de Letras foi fundada. Convidado para ocupar uma cadeira, Antônio João recusou. Não tenho veleidades literárias, nem nada publicado. Leia a entrevista que o professor concedeu, em sua casa, na última quinta-feira.

Jornal da Cidade - O que motivou o senhor a formar um grupo para discutir literatura?Antônio João Fraga Padilha - O amor ao Brasil, ao povo brasileiro, à literatura luso-brasileira. Amor desinteressado. Amor, não profissão. Nada de profissionalismo. O amor de ter conhecimentos, de transmitir, de trazer gente para participar destas reuniões, para tomar conhecimento do que nós chamamos de espírito de brasilidade, que é o que está faltando aí.

JC - Como foi formado o grupo?Antônio João - Eu trabalhei na escola Progresso com a dona Celina, desde 1957 até agosto do ano passado, quando ela faleceu. E a dona Celina sempre gostou muito de cultura, sempre teve teatro amador na escola, gostava de fazer reuniões com amigos para discutir sobre assuntos muitos sérios, incluindo aí a literatura luso-brasileira.

De vez em quando, nós nos reuníamos para pegar um determinado livro e ler de fio a pavio fazendo pesquisas. Marcava toda semana uma reunião, a escola fechava depois das 22 horas, então, nós reuníamos aquele grupo de pessoa sempre heterogêneo. Presente sempre, dona Celina e eu.

O que nós estudamos primeiro foi a vida do condestável português Dom Nuno Álvares Pereira. Depois vieram outras obras e nós tivemos a idéia de estudar Os Lusíadas e também Os Sertões. Na época, este grupo chamava-se Reuniões Culturais.

JC - Quanto tempo vocês ficavam estudando os livros?Antônio João - Para estudar Os Sertões, de Euclides da Cunha, foram 90 reuniões, de abril de 1981 a janeiro de 1984. Aí nós resolvemos completar este trabalho com Oração aos Moços, de Rui Barbosa. Dissecamos o livro em dez reuniões.

Então, nós passamos a nos reunir praticamente toda semana e, em junho de 89, começamos a realizar uma noite de poesia bilíngue, em esperanto e português. A Dona Celina fundou o grupo e eu coordenava, como faço até hoje, uma vez por mês aqui na minha casa.

JC - O senhor é professor de esperanto, português, história, geografia e cultura geral. Como conseguiu uma formação tão abrangente? Antônio João - Eu sou autodidata porque quando eu estudei, de 1932 a 1946, existiam poucas faculdades e somente nas capitais. Raras cidades do Interior tinham faculdades. O meu currículo escolar é grupo escolar, ginásio, escola normal, curso colegial clássico. O que eu estudava no ginásio e no colégio hoje em dia não se ensina nas faculdades. Nós estudávamos latim, filosofia, educação moral e cívica e os católicos tinham aula de religião Católica.

Quando você saía do ginasial sabia, pelo menos, se expressar em português, ler, escrever, razoavelmente. Hoje em dia, nós vemos universitários formados que não conhecem o português. Isso é lamentável. Muitos deles sabem inglês, francês, outras línguas, mas não sabem português...

JC - O português é uma língua difícil? Antônio João - Não existe língua difícil, o aluno é que é difícil. Todas as línguas são fáceis. Se o aluno dedicar-se ao estudo, matéria nenhuma é difícil. Ele tem que ler, estudar e pesquisar. O português é uma língua fácil e difícil como todas as línguas do mundo.

JC - Quais são os autores mais recorrentes nas reuniões? Antônio João - São variados.

JC - O que o senhor costuma ler nos encontros?Antônio João - Eu sempre trago os poemas de Ricardo Gonçalves, que é um grande poeta da língua portuguesa e está esquecido. Seu único livro Ipês precisa ser reeditado. Tem coisas lindíssimas. Eu também gosto de Paulo Setúbal, Cecília Meireles, Florbela Espanca, Antero de Quental, Camões, Fernando Pessoa, Castro Alves, Manuel Bandeira, Carlos Drumond de Andrade. Nas reuniões, que eu faço a abertura e o fechamento sempre, eu também cito os nossos patronos que são Lázaro Ludovico Zamenhof, Ricardo Mendes Gonçalves, Paulo de Oliveira Setúbal e Benedito Luiz Rodrigues de Abreu.