O deputado Ulysses Guimarães, com sua sólida experiência política, dizia que o poder era algo rejuvenescedor, afrodisíaco, capaz de levar os seus detentores ao orgasmo. O poder, na verdade, é capaz de muito mais. É capaz de permitir realizações fantásticas em prol da sociedade. Mas é também capaz de corromper, inflar egos e, males dos males, isolar os seus inquilinos da sociedade, tornando-os cegos e surdos.
Talvez esteja aqui no isolamento que o poder, em geral, produz o grande problema. Por conveniência ou incompetência, quem o detém, quase sempre, se cerca de uma gente vassala, que só lhe mostra e diz o que lhe interessa ver e ouvir. Daí a se distanciar do mundo real é um passo curto. Isso acontece com empresários, prefeitos, governadores, deputados, senadores e, evidentemente, com o presidente da República. Fernando Henrique não foge à regra. Quem o vê e o ouve, em cadeia nacional de rádio e televisão, tem a impressão de que há muito tempo ele não põe os pés na senzala, se é que algum dia ele pisou além da casa grande.
É inegável que nos últimos anos, como demonstram dados do IBGE, houve uma melhora em diversos indicadores sociais: caíram os índices de mortalidade infantil e de analfabetismo; aumentaram o número de domicílios com água e esgoto, o tempo de estudo dos adolescentes e a expectativa de vida. É inegável também que a estabilidade da moeda é uma conquista da qual ninguém, em sã consciência, pretende abrir mão. Igualmente inegável é o fato de que hoje o Brasil, do ponto de vista político e econômico, é um país muito melhor do que há 20 anos.
O problema é que o Brasil continua sendo o que sempre foi: um país profundamente injusto, desigual. Estudo recém-divulgado pelo IBGE mostra que a concentração de riquezas continua a mesma de dez anos atrás. Os 50% mais pobres detêm apenas 14% da renda quase a mesma fatia (13,1%) que está nas mãos de 1% dos mais ricos da população. A exemplo do que acontecia no início da década passada, os brancos continuam ganhando mais que os negros e pardos, assim como as mulheres recebem menos que os homens. Continuam igual as diferenças regionais, qualquer que seja o indicador que se adote. A chance de uma criança nordestina, por exemplo, morrer antes de completar cinco anos de idade é de 124 por mil. No Sul, é de 18,5 por mil.
Parece não haver mais dúvidas de que o crescimento econômico e a estabilidade da moeda, embora necessários, são instrumentos insuficientes para eliminar o imenso fosso que separa ricos e miseráveis. Convém estar atento ao fato de que a miséria não é a principal causa da violência urbana, que tem na desigualdade extremada uma de suas maiores motivações. É preciso, portanto, que o presidente e os iluminados que o cercam desçam do pedestal e reconheçam, com humildade, que não dispõem de nenhuma estratégia consistente para combater a desigualdade e que, sendo assim, precisam deixar de lado os números que lhes convêm e agir com urgência.
Do contrário, o orgasmo a que se referia o doutor Ulysses Guimarães será reduzido, pelo poder das urnas, a uma mera ejaculação precoce.