09 de julho de 2026
Geral

Citações muito preocupantes

(*) Jorge Boaventura
| Tempo de leitura: 3 min

Há bem poucos dias, publicava a imprensa a exoneração das altas funções que exercia no Ministério das Relações Exteriores, do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. Logo em seguida, a imprensa divulgou extenso artigo do atual titular daquela pasta, embaixador Celso Lafer, acerca das razões que o teriam levado a determinar a referida exoneração. Segundo o ministro, elas não teriam relação com as opiniões manifestadas pelo exonerado acerca das inconveniências, para o nosso País, caso venhamos a adotar - como tudo indica que, inexoravelmente, virá a acontecer - a decisão de concordar com a Alca, sigla designativa da Aliança de Livre Comércio das Américas. Não,s. excia. o sr. ministro, como bom e convicto democrata, respeita as opiniões pessoais de qualquer cidadão. Apenas entende que, nas funções que ocupava o embaixador Guimarães no Itamarati, torná-las públicas, prejudicava a credibilidade da condução da nossa política externa, descrédito prejudicial, segundo s. excia., aos interesses dos nossos interesses nacionais.

É verdade que um observador maldoso poderia interpretar o zelo patriótico do sr. ministro, como algo diferente. Como, por exemplo, de que não fossem os que nos estão impondo a Alca, imaginar que nós não lhes atenderemos aos desejos e interesses com docilidade total. Esta é, porém, uma interpretação maldosa.

Resta, entretanto, uma preocupação, que não sabemos se maldosa ou pertinente. À consciência e à inteligência do leitor caberá julgá-lo.

Trata-se da citação feita, além da de Norberto Bobio, de mais dois outros autores: Hannah Arendt e Kant. O sr. ministro os citou, supomos, na certeza de que a maioria esmagadora, senão a totalidade dos leitores, conhece o significado das obras dos dois eminentes pensadores. Nós, porém, menos generosos, admitimos que talvez alguns poucos não o conheçam. Afinal, nem todos somos obrigados a conhecer o pensamento de Immanuel Kant, nem o mais recente, dos que configuram o chamado grupo ou escola de Frankfurt. Deste grupo faz parte a brilhante pensadora Hannah Arendt, que viveu com Martin Heiddeger, havendo quem suponha que exerceu influência poderosa sobre aquele discípulo de Nietzsche, para quem Deus está morto. Heiddeger, amargo existencialista, teve trajetória bastante polêmica, tendo servido o seu pensamento tanto aos interesses do nazismo quanto, depois, aos das forças de ocupação da Europa. No que tange a Hannah Arendt, uma tese central do seu pensamento consiste na afirmação de que a crença na existência de valores morais eternos e universais, gera personalidades autoritárias, razão pela qual o cristianismo, por exemplo, doutrinariamente, conduz a regimes despóticos ou de alguma maneira, contrários à liberdade. Nós diríamos que, de fato, o cristianismo, como o judaísmo, como de resto outras tendências religiosas, assentam na admissão daqueles valores. Aí estão, entre outros, os exemplos dos Mandamentos inscritos nas Tábuas da Lei, entregues a Moisés no monte Sinai. E entendemos que o pensamento de Hannah Arendt assenta, como uma luva, ao liberalismo ou ao neoliberalismo globalizante. Daí, e o leitor julgará se com ou sem razão, avaliarmos como preocupantes as citações do sr. ministro. E isso para não falar de Kant que em sua Crítica da Razão Pura, afirmou que a humanidade não precisava de nada além de sua própria razão. É a nossa previsão de que a Alca vem aí. Os nossos empresários que se cuidem.

(*) Jorge BoaventuraHome-page: www.jorgeboaventura.jor.brE-mail: boaventura@jorgeboaventura.jor.br