09 de julho de 2026
Geral

Fidelidade à profissão; à empresa, não

(*) Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Todo mundo sabe ou já ouviu algum comentário sobre o que é dowsinzing. Originalmente, a palavra foi usada para designar o corte de pessoal no nível médio da empresa, fazendo um achatamento na pirâmide hierárquica. Cortavam-se gerentes para diminuir custos e aproximar a diretoria da base operacional. Como o conceito era fazer a mesma coisa com menos gente o processo se generalizou passando a ser entendido também como corte de pessoal. E nunca se cortaram tantos empregos como nestes últimos anos. Inclusive o Japão, famoso até pouco tempo pelo emprego vitalício, está passando o facão sem dó nem piedade. A situação se agravou mais com a onda de fusões e aquisições. A combinação de fusões e aquisições de empresas com o uso cada vez mais intensivo de tecnologia avançada, na batalha da competitividade, e os sustos que o mercado financeiro vem pregando nos últimos tempos estão produzindo fortes mudanças no mercado de trabalho. Como conseqüência, o emprego com carteira assinada vem diminuindo e estão aumentando o trabalho autônomo e o trabalho informal.

Nem todas as pessoas que perdem o emprego têm condições de trabalhar como autônomo ou de montar um negócio próprio. Para montar um negócio é preciso que a pessoa possua aptidão para negócios, pois do contrário, além de ficar sem o emprego põe a perder a poupança, que acumulou com sacrifício, ou o fundo de garantia que recebeu ao ser despedido. Para trabalhar como autônoma, a pessoa precisa possuir uma profissão, técnica ou liberal, e saber vender o seu trabalho, o que ainda encontra resistência porque há séculos que o costume dominante é trabalhar como empregado. Os que não possuem qualificação e ou não sabem vender o seu trabalho ficam marginalizados. Por uns tempos se valem do seguro-desemprego ou da ajuda de parentes e depois caem no desespero ou no desânimo, transformando-se num dependente social.

Pouco resolve culpar o governo ou as empresas. O governo é reflexo da própria sociedade. Hoje criticamos este governo e amanhã criticaremos o outro que nós mesmos elegeremos. Também não adianta censurar as empresas pela insensibilidade com que botam na rua os seus empregados. A empresa não é instituição de caridade. Quem monta uma empresa, monta para ganhar dinheiro e se surge uma ameaça de perder em vez de ganhar, ninguém pode esperar que ela quebre tentando amparar seus empregados. E não estamos falando de empresas trambiqueiras, estas nem merecem consideração. Essa é a situação real e tanto corre risco de ir para a rua o mau como o bom empregado. Falando aos bons a recomendação é que sejam fiéis à sua profissão e não à empresa. Ser fiel à empresa de nada adianta porque quando ela resolve cortar, corta mesmo. Agora, com a profissão é diferente. Sendo fiel a ela o trabalhador a leva consigo para onde for. O trabalhador fiel à profissão é eficiente no cumprimento de suas obrigações com a empresa, está em constante processo de atualização e desenvolvimento e pauta a sua conduta por rígidos princípios morais. Enquanto estiver na empresa ela só terá a ganhar com ele mas, encontrando uma melhor oportunidade, ele não deve vacilar em deixá-la, da mesma forma que ela não vacila em despedi-lo quando julga conveniente. Mesmo assim, por ser fiel à profissão, a sua saída é feita da forma mais correta possível, de modo que a própria empresa entenderá o seu ato e não se negará a recomendá-lo quando for solicitada. A riqueza do trabalhador, de qualquer nível, é a sua capacidade de trabalho e a sua integridade moral. É a isso que ele deve ser fiel.

(*) Pedro Grava Zanotelli é professor e diretor da Faculdade de Ciências Econômicas de Bauru, da ITE E-mail: pegrazan@techno.com.br