09 de julho de 2026
Geral

Empresários criticam sistema de cotas de consumo de energia

Redação
| Tempo de leitura: 7 min

O sistema de cotas de consumo, que foi anunciado pelo ministro de Minas e Energia, José Jorge, como o mais provável a ser colocado em prática pelo governo, dentro das medidas de racionamento de energia elétrica, para tentar minimizar a situação no País, está sendo severamente criticado por representantes do setor industrial e por consumidores residenciais. Em Bauru, empresários e membros do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) definem a proposta como absurda e altamente prejudicial ao setor e ao crescimento econômico do Brasil.

Se for transformado em definitivo, o sistema prevê que o consumo nas residências brasileiras seja diminuído em 20%, conforme a média dos últimos 12 meses. Para as indústrias, a redução deverá ficar entre 12% e 15% do consumo médio. Quem não respeitar as regras arcará com uma multa pesada, já que o excedente utilizado será tarifado em dobro. Ou seja, se uma residência que tem consumo médio de 200 quilowatts-hora (Kw/h) não reduzí-lo para 160 Kw/h (20%), o consumo que ultrapassar essa cota será cobrado com uma multa de 100%. Porém, o plano ainda não está totalmente definido.

Para o empresário Caio Coube, trata-se de uma opção muito ruim, já que a nação necessita de desenvolvimento e de geração de riquezas, através da atividade industrial. A restrição no consumo de energia seria totalmente prejudicial ao setor e a todo o desenvolvimento que ele pode gerar no País. Essa restrição no consumo de energia limita totalmente o nível de atividades dentro de uma indústria e, conseqüentemente, o faturamento das empresas e a possibilidade de serem criados novos postos de trabalho. Enfim, é uma alternativa muito ruim para o setor e para o País, porque queremos e precisamos justamente do contrário, ou seja, de mais geração de atividade econômica, mais produção e de mais oportunidades de emprego, analisa.

De acordo com Coube, da Tilibra, o maior fabricante de cadernos do Brasil, é muito difícil, para uma indústria, fazer uma redução no consumo de energia em patamares de 12% a 15%, principalmente, num curto espaço de tempo. É difícil arcar com essa margem de redução, porque as indústrias não trabalham com desperdício de energia. A operação industrial ocorre dentro da necessidade, dentro do nível de demanda que precisa ser atingido. Ninguém fabrica para deixar em estoque. Corrigir essa defasagem do setor elétrico no País é uma missão extremamente difícil a curto prazo, porque demanda investimentos pesados do setor público e a construção de mais usinas hidrelétricas, por exemplo. Essa estratégia de restrição do consumo é muito prejudicial, afirma Coube.

De acordo com o empresário, até agosto a fábrica de materiais escolares dirigida por ele não estará operando com sua capacidade total. Porém, a partir de setembro é exatamente isso que deve ocorrer, nessa e em outras linhas de produção da empresa. A partir de setembro, se tivermos que diminuir o consumo de energia elétrica será um fator restritivo enorme, com reflexos de muito prejuízo. Espero que outras alternativas sejam criadas para evitar isso, observa.

Junji Nagasawa, da Mezzani, que atua no ramo alimentício, diz que qualquer forma de racionamento de energia elétrica é prejudicial ao setor industrial. Qualquer estratégia de racionamento é muito prejudicial ao setor, principalmente a de reduzir em 12% o consumo. É terrível, para uma indústria fazer isso. Mas, continuamos aguardando as definições das regras desse jogo, observa.

De acordo com o empresário, ciente dos problemas que já eram previstos, há anos, em relação ao sistema de geração de energia elétrica no País, ele resolveu se preparar para o pior. Há dois anos, Nagasawa começou a investir na geração própria de energia para a sua indústria de alimentos e, atualmente, possui geradores internos movidos a diesel instalados em sua empresa. Há dois anos, percebi a dimensão do problema e me preparei para enfrentar tempos difíceis. Mas, de qualquer maneira, acredito que um corte no consumo de energia é uma medida muito drástica, afirma.

Consumidores ficam indignados

A provável situação de ter que reduzir o consumo de energia elétrica em 20% dentro de casa, sob pena de multa, está deixando consumidores residenciais indignados. Margareth Sonderman, que mora em um apartamento com uma de suas filhas, diz que a idéia de obrigar os consumidores a reduzirem o consumo de energia elétrica em 20% é absurda.

Eu acho essa proposta absurda. Mais uma vez, a bomba está estourando nas nossas mãos, mas a população não tem nada a ver com isso. O governo é que tinha a responsabilidade de ter assumido e enfrentado esse problema antes de deixar chegar a um ponto tão crítico. Além de sermos obrigados a engolir os aumentos de tarifa, ainda corremos o risco de ter que seguir um patamar de redução de consumo dentro de casa para ajudar o governo a resolver um problema que ele criou. É absurdo, reclama.

Na opinião dela, o que deveria ter sido feito, no mínimo, era ter iniciado um sistema de redução de consumo gradativo, para que a população não tivesse que, de repente, fazer uma redução pesada sob pena de ainda pagar multa. Se a redução fosse, pelo menos, gradativa, seria mais fácil. Mas, de uma hora para outra a gente ter que reduzir o consumo num determinado patamar e ainda ter que pagar multa se a meta não for atingida, é a pior medida possível. Por que o alerta não começou antes para poder ser gradativo? E por que o governo não agiu há pelo menos dois anos para evitar tudo isso? Não me conformo com essa situação, diz a consumidora.

Luiz Silva também classifica a proposta da redução de 20% para os consumidores residenciais como absurda. É um absurdo isso estar acontecendo. O governo não foca a atenção às coisas com que realmente deveria se preocupar e, por isso, chegamos a essa situação. Apesar de ainda não ser definitiva, essa medida é terrível porque não é profilática. O governo está tentando corrigir um problema que ele mesmo deixou acontecer. Deveria ter sido empregado um posicionamento profilático, por parte do governo, antes disso tudo ocorrer, observa.

Para ele, o autoritarismo dessa medida de redução é lamentável. Essa medida não tem nada de democrática, pelo contrário. Ela é autoritária e a população não terá como não cumprí-la, caso venha a se tornar definitiva. E isso é absurdo, ressalta o consumidor.

Ciesp: alerta sobre o problema é antigo

O empresário e conselheiro do Ciesp em Bauru, Domingos Malandrino, diz que o Ciesp e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) vêm alertando o governo, há cerca de dois anos, sobre o problema da falta de investimentos no setor energético brasileiro. Nós tínhamos os números do crescimento que a indústria precisava atingir e, ao mesmo tempo, avaliávamos o crescimento da produção de energia no País. Então, sabíamos dos problemas e alertamos o governo, por inúmeras vezes. O setor industrial brasileiro desenvolve corretamente o seu dever de casa e fez tudo o que devia fazer em termos de redução de custos. De forma alguma deveria ser prejudicado, agora, sendo possivelmente obrigado a reduzir em torno de 12% o consumo de energia, avalia.

Na opinião dele, essa medida vai totalmente contra o que sempre foi solicitado pelo governo às indústrias, como investimentos para ampliar a produção e a geração de empregos. Ao mesmo tempo em que nos pedem para aumentar a produção e as exportações, nos pedem para reduzir consumo de energia elétrica. Como isso é possível? Devo entrar na minha sala e usar um ventilador no lugar do ar-condicionado? Acredito que, mesmo numa média empresa, isso não faz nenhuma diferença. O que o governo deveria ter feito era investir na produção de energia, a partir do momento em que começamos a fazer os alertas sobre os problemas desse setor. Os consumidores residenciais também não devem passar por isso. É absurdo. Depois que a situação ficou sem controle, era necessário, no mínimo, ter existido um plano gradativo de redução do consumo, analisa.