O trabalhador enfrenta, talvez o pior momento da história. Além de desemprego e baixo salário, sindicato está em crise
À véspera de comemorar o 1.º de Maio, o trabalhador brasileiro enfrenta, talvez, um de seus piores momentos da história. Desempregado, subempregado, ganhando o mínimo de R$ 180,00 ou angustiado pelas pressões do cruel mercado globalizado, ele mal pode contar com aquele que sempre foi seu defensor de todas as horas: o sindicato. Vivendo uma crise generalizada, as entidades trabalhistas amargam a falta de renovação, a burocracia interna e, sem generalizar, a usurpação de dirigentes mais preocupados com vantagens e estabilidade pessoal do que com a missão de defender a categoria que representa. A Central Única dos Trabalhadores (CUT), a maior e mais antiga central sindical do Brasil, demonstra preocupação com o panorama e vem sugerindo novos modelos para minimizar os efeitos da crise. Para falar sobre essas mudanças, os problemas e a situação do trabalhador, o JC ouviu o coordenador da CUT em Bauru, Paulo Vieira Lima, 34 anos. A seguir, ele faz um retrato das relações trabalhistas-sindicais a partir da década de 90.
Jornal da Cidade - Na década de 80, o descontentamento dos trabalhadores era exteriorizado com fortes greves e grandes movimentos, o que não ocorre mais hoje. Isso deve-se às profundas mudanças na conjuntura econômica ou à falta de lideranças para organizar mobilizações?Lima - Aos dois fatores. Não vemos falta de lideranças, mas de novos quadros. Na verdade, as diretorias chegam ao final do mandato desmanteladas e o nível de formação fica defasado naquilo que hoje o mercado de trabalho exige. São poucos líderes para a atual conjuntura. Esses líderes vislumbram quase sempre a inserção na política partidária e não há renovação. O quadro é de defasagem do movimento sindical. Por outro lado, a globalização vem colocando medo nos trabalhadores. Se chamarmos um trabalhador que já esteve desempregado para uma greve, dificilmente ele irá.
JC - A maioria dos sindicatos ainda cobra contribuições compulsórias, embora a estrutura sindical tenha mudado muito. Como a CUT vê isso?Lima -A maioria dos sindicatos ainda vive disso, motivo pelo qual muitos deles não articulam ações. Descontando compulsoriamente, fica fácil trabalhar, pois se fica atrás de uma mesa delegando funções e não se vai até a base discutir os problemas. Temos hoje muitos sindicatos de gabinete, mas precisamos que as entidades tenham autonomia em função única e exclusiva das contribuições espontâneas. O trabalhador tem que pagar porque acredita que o sindicato vai lutar e defender seus direitos, não por imposição.
JC - Existe alguma proposta para mudar esse sistema?Lima - A própria central sindical, que tem um milhão de trabalhadores associados no Estado de São Paulo, tem projeto nesse sentido e vem discutindo a mudança. A idéia é extinguir a contribuição compulsória para atingirmos um modelo sindical que realmente tenha a missão de lutar pelos interesses trabalhistas e que tenha a absoluta credibilidade da classe.
JC - Com o trabalhador receoso de perder o emprego e desmobilizado, isso não seria o prenúncio do fim dos sindicatos?Lima - Não acredito, porque as entidades serão obrigadas a realmente trabalhar para ter o respaldo. Hoje tudo é dinheiro. Para uma ação na porta de fábrica, temos que pagar o combustível, temos que ter boletins informativos, temos que ter estrutura para negociar bem. Se tudo for bem feito, o trabalhador terá prazer em contribuir. Pessoalmente, eu acredito que o sindicato nunca irá desaparecer, mas terá de estar mais próximo da categoria.
JC - Qual é a tendência do sindicalismo, já que as posições radicais estão cada vez cedendo lugar para o perfil conciliador e mais amigável?Lima - Dentro da CUT temos várias tendências e cada uma se posiciona conforme aquilo que acredita e defende. A Articulação, por exemplo, é uma ala que procura conversar com o patrão. Seus integrantes não concordam mais com aqueles protestos em que caminhões de som ficam na porta de fábricas batendo contra a empresa. A Articulação tem preferido conversar antes, expor os problemas e tentar um acordo. Se o patrão nega, aí sim parte para ações mais radicais.
JC - Essa postura cutista parece ter íntima ligação com o PT, cuja ala de mesmo nome, coincidentemente, também prega posições mais moderadas...Lima - Isso não tem nada a ver, porque conseguimos discernir bem as coisas. O PT é um partido que tem suas posturas internas, a CUT, uma central sindical que defende os trabalhadores como um todo e realiza projetos para a sociedade de uma forma geral. Quem está de fora pode até achar que as coisas são meio misturadas, mas nós sabemos definir muito bem.
JC - Qual o nível de poder de negociação que o trabalhador tem hoje?Lima - O trabalhador sempre teve e sempre terá poder de negociação, mas precisa estar unido para isso. Numa empresa de cinco mil funcionários, um grupo de seis representantes não significa nada. A partir do momento em que todos estão mobilizados em torno do mesmo objetivo, a coisa muda de figura.
JC - As exigências do mercado em relação ao trabalhador mudaram muito e estão cada dia mais rigorosas. Qual o perfil ideal na visão da CUT?Lima - A Central defende que os sindicatos filiados mantenham informações constantes para orientar seus representados. Não tem nada melhor para um trabalhador de base que um boletim informativo, além do trabalho corpo-a-corpo dos dirigentes para integrá-lo à realidade do mercado.
JC - Quais são as correntes dentro da CUT hoje?Lima - Temos a Articulação, a majoritária dentro da Central e que tem buscado negociar sem radicalismos; temos o PSTU, o Trabalho, a CUT pela Base, que já têm posturas mais inflexíveis. A CUT respeita todas, até porque entende que cada uma tem o direito de trabalhar distintamente. Defendemos a livre expressão de posicionamentos e deliberamos conforme a vontade da maioria. Às vezes, calha de defendermos as mesmas posturas.
JC - É público e notório que CUT, CGT e Força Sindical nunca se bicaram, mas, recentemente, no episódio do expurgo do FGTS, houve uma união até então nunca vista. Essa ação conjunta funcionou e tende a continuar?Lima - Nós defendemos sentarmos todos juntos e traçarmos alguns cronogramas de ação. O FGTS é um assunto polêmico e a ação que corre na Justiça é da CUT, mas isso não impede que os outros participem. No entanto, nós temos ideologias diferentes e nossas propostas divergem em alguns pontos. É preciso chegarmos a um consenso, mas na mesa de negociação isso não ocorreu. Diante de uma proposta que não atendia aos interesses dos trabalhadores, entendemos por bem rejeitá-la e deixar a mesa. Não levantamos da mesa simplesmente porque não concordávamos, mas porque a proposta era de enganação.
JC - Mas essa atitude de sentar juntos à mesa novamente deve se repetir em outros assuntos? Lima - Eu acho que dependendo dos acontecimentos, poderemos voltar a conversar ou poderemos, em algum momento, entender que isso é impossível. Na verdade, cada uma tem seus objetivos e a negociação só será possível se houver um consenso entre eles.
JC - Alguns sindicatos, cito o dos Ferroviários, no caso de Bauru, estão com suas bases desmanteladas. Como eles deverão superar essa crise?Lima - Todo o movimento sindical está em crise hoje. Na medida em que postos de trabalho são fechados, é natural que os sindicatos percam, tanto em nível de base quanto de contribuição. A CUT, entretanto, vem apostando no modelo do Centro Sindical, que atualmente, em São Paulo, já agrega o SindSaúde, Sinergia e a Afuse. É um modelo que visa socializar a estrutura operacional para garantir a sobrevivência das entidades. É uma forma de nos adequarmos à conjuntura imposta.
JC - Isso tudo porque os sindicatos não estão tendo mais condições de custear suas próprias atividades?Lima - Se você tem mil sindicatos, cada um com uma máquina de xérox, é possível unir todos e organizar uma empresa gigante; se juntássemos todos os carros, teríamos uma frota considerável. A proposta da CUT é dividir entre as entidades os custos financeiros, organizando uma estrutura operacional mais ampla.
JC - Em Bauru, o modelo vai ser adotado?Lima - A estrutura solidária já funciona aqui com as subseções da Afuse, Sinergia e SindSaúde. A sede é única para todos, sendo que cada um tem espaço próprio para atender seus representados. Nossa intenção é agregarmos todos os sindicatos cutistas, até porque é o modelo operacional sugerido pela CUT.
JC - Na sua opinião, como prever a ação sindical frente à tecnologia, por exemplo, à Internet. Como fica a situação das pessoas que hoje trabalham sozinhas prestando serviços pela rede?Lima - A tendência é que esses trabalhadores se organizem um futuro não tão muito distante. Talvez, e essa é a tendência mais possível, haja a formação de um sindicato nacional exclusivo para agregar esses trabalhadores do mundo virtual.
JC - CUT e MST. Até onde as ações de um está vinculado às do outro? Lima - O Movimento Sem Terra tem sua própria autonomia e jeito de se organizar. A CUT está sempre junto e apoiando, mas não dá direção para as ações do movimento. A linha política da Central é restrita aos 17 assentamentos da Federação da Agricultura Familiar da própria CUT. Apesar da luta ser a mesma, ou seja, pela terra e pela justa reforma agrária, nós temos os nossos acampamentos, onde damos as regras, e o MST tem os dele. Nós participamos ativa e politicamente, até porque o movimento agrega trabalhadores desempregados e desprezados, mas quem traça as ações do MST é o próprio MST.
JC - Você disse há pouco que a CUT e o PT mantêm independência, mas o calendário de ações da Central é muito afinado com o do partido. Por que isso acontece?Lima - A CUT tem seu calendário próprio, mas é claro que, ao elaborá-lo, leva em conta a programação das lideranças que com ela atuam. Esses líderes podem ser tanto do PT quanto do PSTU ou PC do B. Por isso, os calendários acabam se casando com os dos partidos de esquerda preocupados com a causa do trabalhador.
JC - Com raríssimas exceções, as lideranças sindicais de Bauru são quase que vitalícias; no máximo, mudam de função dentro de uma mesma diretoria. Por que isso não muda?Lima - Essa também é uma preocupação da Central. Primeiramente, os cursos de formação sindical eram todos realizados em São Paulo, o que dificultava o acesso, mas hoje eles já estão sendo descentralizados.
JC - Mas o motivo só foi esse? Nunca ninguém demonstrou interesse em pleitear o comando desses sindicatos, ainda que com toda a dificuldade dos cursos? Ou os próprios líderes fazem questão de se manter no poder?Lima - Se não há formação, é natural que as direções sindicais não caminhem. No Sindicato dos Metalúrgicos, por exemplo, apenas três dos 20 membros da diretoria se sobressaíram durante um mandato de quatro anos. Nós apostamos na descentralização, especialmente porque o custo da formação será muito menor.
JC - Formação e reciclagem à parte, não estaria na hora de se renovar os quadros?Lima - Mas eles se renovam. A cada eleição, 50% dos quadros mudam.
JC - Mas o que se vê nas eleições são chapas únicas, hegemomia. O presidente vira secretário, o secretário, vira diretor. É essa a renovação que vemos acontecer...Lima - Se o sindicato não trabalha, não age na base, realmente fica difícil virar o quadro. A entidade fica estagnada. Há direções engajadas e voltadas para o fiel cumprimento do estatuto, como há direções interessadas exclusivamente na estabilidade e nas vantagens inerentes às funções sindicais. Aí entra a participação da categoria, que deve cobrar ações efetivas e constantes.