08 de julho de 2026
Geral

Os donos da ética

(*) Milton Flávio
| Tempo de leitura: 3 min

Ética na política. Segurança. Emprego.

A ordem talvez não seja exatamente essa. Mas não há dúvidas de que, hoje, mais do que ontem, esses são os anseios da sociedade. Ninguém suporta mais abrir os jornais todos os dias e se deparar com manchetes acusando esse ou aquele homem público de desvio de dinheiro. Angustia ligar a televisão e assistir ao noticiário, sempre recheado de crimes violentos, de barbaridades da pior espécie. É sofrível acompanhar pelo rádio as notícias sobre os índices de desemprego no país.

É preciso ter nervos de aço, estômago de avestruz ou paciência de Jó para suportar o que se lê, se vê e se ouve diariamente. É necessário ter uma capacidade de discernimento pouco comum para separar o joio do trigo, não confundir alhos com bugalhos, não se deixar levar, enfim, por generalizações cômodas do tipo: todo político é ladrão, a polícia é corrupta e o governo não faz outra coisa a não ser tramar contra a sociedade, em particular contra os pobres. Além de injustas, frases feitas não resolvem os problemas. Servem, quando muito, para decorar as falas da oposição, qualquer que seja ela.

Não é preciso dispor de pesquisas de opinião para perceber a profunda descrença e revolta da população em relação às instituições em geral e aos políticos em particular. Seria estranho, se assim não fosse. Afinal, como um cidadão comum, desempregado ou com salário aviltado, deveria reagir diante do fato de que o roubo praticado na Sudene acaba de superar o engendrado na Sudam e de que essa roubalheira toda teria surrupiado dos cofres públicos, por obra e arte de uns canalhas travestidos de parlamentares e funcionários de alto escalão, mais de R$ 4 bilhões o equivalente à metade do orçamento anual da capital paulista?

Como convencer esse mesmo cidadão de que nem todos os políticos são malandros, de que a ação deletéria de alguns não pode comprometer a imagem de uma categoria nem a credibilidade das instituições, se, logo depois, surge uma nova denúncia, já comprovada, sobre a violação do painel do Senado? Se alguns sujeitos são capazes de trair seus pares, o que não fariam para engordar seu patrimônio? Esse é o raciocínio corrente. De que adianta olhar nos olhos de seu interlocutor, apresentar propostas, discutir teses e se declarar idôneo, se um senador vai à tribuna jura inocência e, três dias depois, choramingando, admite sua culpa e insinua que já fez coisas piores? Que garantias pode ter quem o ouve de que também não está diante de um outro cínico profissional?

A falta de ética de alguns políticos, a insegurança e o desemprego têm tudo a ver. São questões indissociáveis. As crises políticas geradas pela falta de decoro ou pelo desvio de recursos públicos trazem um problema adicional, na medida em que emperram as discussões sobre temas fundamentais para o desenvolvimento do país, geração de empregos, melhor distribuição da renda nacional, maior segurança e qualidade de vida nos médios e grandes centros urbanos.

A saída não está na força, evidentemente. Até porque não há clima para isso e os generais há anos não cogitam deixar a caserna. A saída está nas mãos da classe política, que precisa punir exemplarmente e de forma rápida os que a desonram. A ética não é propriedade desse ou daquele partido político, embora todos procurem se apresentar como seus donos. A ética é obrigação de todos. Malandros e gente séria há em qualquer agremiação, como os fatos têm demonstrado.

(*) Milton Flávio é deputado estadual pelo PSDB-SP e coordenador da Frente Parlamentar do Cooperativismo Paulista