As cidades do interior do estado de São Paulo experimentam um desenvolvimento extraordinário desde a década de 90. Por aqui chegam a passos largos empresas de prestação de serviços, comércio e indústria, já que os empresários têm distribuído suas organizações pelas mais variadas regiões. A iniciativa privada busca melhor localização, estratégias de distribuição e mão-de-obra qualificada, já que as cidades paulistas têm tudo isto para oferecer. Águas de Santa Bárbara, Gavião Peixoto, São Carlos, Andradina e Pederneiras são alguns dos municípios que já estão experimentando esta realidade.
O lado contraditório desta situação é exatamente na área em que a ocorrência de tal atitude a vinda para o Interior deveria ser regra: o serviço público. Outro lado contraditório fica por conta das empresas privatizadas. Creio que apenas os economistas mais tarimbados conseguem nos dizer exatamente o motivo pelo qual os novos donos da Telefônica, CPFL, entre outras, estão apenas virtualmente no Interior. Tanto empresas públicas, quanto empresas privatizadas, ainda não entenderam que aqui no Interior a coisa é diferente. A nossa cultura de marcar a compra na caderneta no armazém ainda é rotineira; e a nossa conversa é de frente, pois encontramos o prefeito na fila do supermercado e o deputado tomando café em qualquer bar de esquina.
Mas existe uma ponta de iceberg aparecendo bem aqui no coração do Estado. Refiro-me à interiorização da Reitoria da Unesp, a universidade do Interior. Muito tempo se passou, de gestão a gestão dos ex-reitores da Universidade Estadual Paulista, até que alguém pudesse ter vontade política para ousar. Isto mesmo, só faltava vontade política para tirar da capital paulista o comando de uma das principais universidades das Américas. E não é porque o reitor Trindade e o vice-reitor Razuk são do Interior que os dois resolveram trazer a Reitoria para perto de suas casas. Muito pelo contrário. A proposta foi arduamente discutida na época da campanha vitoriosa de Trindade e Razuk para a Reitoria no final do ano passado. A visão política dos dois atuais comandantes da Unesp foi crucial para esta decisão. Decisão maior será chamar o caminhão de mudança e vir de mala e cuia para cá, pois a discussão a respeito da interiorização da Reitoria é antiga, mas nenhum ex-reitor teve peito para assumir a boléia deste caminhão de mudanças. Chegou a hora e a vez do Interior, e a disputa entre Bauru, Botucatu e Araraquara está acirrada, o que reafirma a importância deste ato que, acima de tudo, é de plena cidadania do atual comando da Unesp.
Vozes contrárias sempre estão a surgir, mas como diz um experimentado político de nossa região: viúva política existe em qualquer canto. E são estas viúvas, acostumadas a perder eleições, que choramingam pelos cantos o dissabor de ver mais um capítulo feliz de quem se saiu vitorioso nas eleições para a Reitoria, ou seja, a gestão Trindade-Razuk vai mesmo mostrando que é vitoriosa muito além das urnas eleitorais.
Isto são querelas; o mais importante é que, assim como os inteligentes empresários que fazem o caminho Capital-Interior, reitor, vice-reitor e pró-reitores da Unesp já preparam malas para trabalhar bem pertinho das salas de aula que são, a nosso ver, plena justificativa para a interiorização da Reitoria da Unesp. Afinal, qual é a sala de aula mais próxima daquele prédio perto da avenida Paulista onde está instalada a Reitoria atualmente? Em qualquer das cidades-candidatas que a Reitoria se instalar, a certeza é uma só: tem aluno, funcionário, professor, sala de aula muito perto. A alameda Santos, em São Paulo, é um gueto distante milhas e milhas da comunidade acadêmica unespiana; e o Interior está ávido para receber o tal caminhão de mudanças.
(*) Reginaldo Tech é professor dos cursos de jornalismo e relações públicas da FAAC/Unesp-Bauru