07 de julho de 2026
Geral

DESABAFO DE MÃE

Ivan Garcia Goffi
| Tempo de leitura: 2 min

Somente quem já sentiu o dom de gerar a vida poderá entender o que lhes direi. Antes, deixe que eu me apresente: sou a mãe natureza e tenho, para cada um de vocês, meus filhos, um amor incondicional. Um amor tão forte que, nesses milhares de anos em que estamos juntos, jamais deixei de prestar-lhes minhas mais sinceras bênçãos.

Contudo, vocês ignoraram meus avisos. Perceberam há décadas que a poluição que jogam em minha atmosfera poderia aquecer em demasia o Planeta, mas ignoraram meus apelos; perceberam que os esgotos infestariam meus rios com poluentes e tornaria a vida aquática impossível. O trepidar das moto-serras e as queimadas, que tanto consumiam minhas matas e danificavam meu solo poderiam tornar a terra improdutiva, mas vocês ignoraram. E as empresas que, propositadamente ou não, descarregaram óleo e outros produtos altamente tóxicos sobre a terra? Caçaram de forma doentia até que extinguissem espécies que levei milhões de anos para aprimorar.

Com muito esforço renovo minhas reservas talvez até de paciência e faço a vida brotar das cinzas, da lama pútrida e da destruição. Sou-lhes o exemplo da persistência, mas não sou notada. Quantas vezes dei sinais de que minha saúde já não era como noutros tempos, pois demoro mais a cicatrizar as feridas que vocês insistem em ferir; sequer percebem que suas falhas, às vezes, residem em atos singelos, como na senhora desatenta quando lava a calçada ou no motorista cauteloso demais com seu carro, mas que deixam a torneira aberta desnecessariamente, jogando água límpida e cristalina pela sarjeta. Não posso deixar de citar as também desnecessárias queimadas-relâmpagos de terrenos baldios, que poluem o ar de suas cidades e ajudam a aquecer a atmosfera.

Vêem agora que água e oxigênio, tão abundantes noutros tempos e tão essencial à vida terrestre, já se tornam motivo de preocupação para a humanidade. Talvez percebam que não são fontes inesgotáveis e tão facilmente recicláveis. Já se fala em racionamento de água, de energia elétrica e do temível efeito estufa. Onde chovia, há seca e, onde havia seca, há inundações. Loucura minha? Não, apenas conseqüências de seus próprios atos.

Meus filhos, por mais avisos que eu lhes desse, parece que desejaram cavar as próprias sepulturas e condenarem-se ao suicídio coletivo. Crianças! Se não existe, no universo conhecido, outro planeta com tantas bênçãos do Pai Celestial, porque essa bestial e insana conduta com tudo aquilo que lhes dei?

Ah, meus filhos, mas como toda mãe zelosa, não lhes darei as costas. Mesmo diante de sua debilidade, de sua violência e seu descaso comigo, meu amor por vocês é mais forte e, mais uma vez, serei capaz de tentar renovar a vida... mas levarei alguns milhares de anos para que tudo volte a ser como era antes. Será que vocês poderão me esperar? (Ivan Garcia Goffi - OAB/SP 165.173)