Apesar de nunca ter feito uma novela ou um trabalho em uma grande emissora, Carlos Moreno é um dos atores mais conhecidos da televisão brasileira. Ele é, há 23 anos, a estrela dos comerciais da Bombril, que fazem parte de uma das mais famosas e bem-sucedidas campanhas publicitárias do País, criada por Washington Oliveto e que entrou para o livro Guiness dos recordes por sua longevidade. Fora dos comerciais, este ator paulista, de 46 anos, é, na realidade, um especialista no palco, onde começou na adolescência. Em visita a Bauru, onde veio apresentar o seu mais recente trabalho, a peça Quixote, de sua autoria, baseada no clássico de Cervantes, Moreno falou ao JC, sobre sua carreira e seu mais famoso personagem.
Jornal da Cidade - Quando você começou sua carreira como ator?
Carlos Moreno - Comecei no teatro amador na adolescência, com 12 anos. Profissionalmente eu trabalho desde 1972, no teatro mesmo.
JC - Como você acabou na publicidade, que lhe deu o reconhecimento e a fama?
Moreno - Foi em função do meu trabalho de ator no teatro, foi até uma coincidência. Em 1978, o Washington Oliveto ainda estava na agência DPZ quando criou o personagem e a campanha da Bombril. Aí começaram a fazer teste com atores para decidir quem ia fazer o personagem. Por uma grande sorte, uma pessoa que foi fazer esse teste, sem me conhecer, ao assistir o meu espetáculo me sugeriu fazer o teste para o comercial. Fui fazer, passei e a campanha fez um grande sucesso logo de cara. Então eu fui chamado para fazer um contrato de exclusividade que vem sendo prorrogado até hoje. Mas esse trabalho de garoto-propaganda veio em função do meu trabalho como ator no teatro. É o meu personagem mais conhecido, claro, porque é inevitável. Ele é divulgado pela mídia e vai para o Brasil todo, enquanto teatro eu só fiz em São Paulo, que é um público restrito. Agora, com Quixote, é a primeira vez que eu estou viajando com um espetáculo mesmo, fazendo várias cidades, é um jeito de as pessoas saberem mais um pouco sobre o meu trabalho.
JC - Atores como Sean Connery, que viveu James Bond, e Christopher Reeve, que foi o Superman, em certo momento de suas carreiras tentaram se afastar dos personagens que os deixaram famosos para não ficarem eternamente ligados a eles. Você não se incomoda em ser lembrado sempre pelo comercial da Bombril?
Moreno - Teve um período em que me incomodou bastante, mas depois eu desencanei disso. Comecei a conversar com meus amigos atores, minhas amigas atrizes e eles me diziam: não fica preocupado com isso porque você tem uma situação que muitos de nós gostaria de ter. É verdade. Eu conheço atores e atrizes maravilhosos que, às vezes, têm que se sujeitar a fazer trabalhos que não são tão legais porque têm que pagar aluguel, têm filho para criar. Eu não fiquei milionário, como muita gente pensa, mas tenho um ganho mínimo que é um dinheiro razoável para os parâmetros publicitários e a minha sobrevivência está garantida. Isso me dá o privilégio de poder escolher os papéis que vou fazer ou me aventurar a produzir o espetáculo que quiser, como está acontecendo com o Quixote.
JC - Você está produzindo?
Moreno - Até tentei patrocínio e não consegui. Então, estou produzindo tudo e é um projeto meu, uma idéia minha. Isso para um ator no Brasil é um privilégio. Essa questão tem outro lado. A televisão te dá popularidade, independente do que você está falando ou fazendo, se você põe a cara na televisão, você é popular. Então, eu tenho uma popularidade apesar de aparecer nos intervalos dos programas. Eu faço um personagem que é muito bem cuidado, tem um texto inteligente, uma produção excelente. De repente, se eu fizer uma novela - que eu já fui apaixonado por fazer e não deu certo - pensando em me desvincular da imagem de garoto-propaganda, que retorno ela vai me dar? Popularidade eu já tenho, um personagem bom? Isso eu tenho também e nas novelas os personagens mudam de acordo com o Ibope, você não tem controle. Então, eu desencanei disso de querer mudar de imagem. É claro que eu vou pensar se receber algum convite. Mas o lugar que eu gosto mesmo, onde eu aprendo, é o teatro.
JC - Você é tímido?
Moreno - Não, eu não acho. As pessoas às vezes acham. Eu sou discreto, não sou o tipo de pessoa expansiva, que chega e vai falando. Mas eu sou do tipo que vai atrás quando quer alguma coisa.
JC - As pessoas não confundem você com o seu personagem na rua?
Moreno - Elas confundem e esperam que um aja como ele. Mas eu sou normal, têm dias que eu acordo chateado, que eu brigo...
JC - Como é a abordagem nas ruas?
Moreno - Em São Paulo é mais tranqüilo, mas no Interior eu me sinto mais querido, porque as pessoas são mais próximas, vem conversar. Em São Paulo eu levo a minha vida normal, vou ao banco, à padaria. As pessoas me encontram e vem pedir autógrafo, querem me conhecer, mas é tudo muito calmo. Nunca sofri um assédio que me impossibilitasse de ter uma vida normal.
JC - Você só pode fazer comercial da Bombril?
Moreno - Sim, tenho um contrato de exclusividade e só posso fazer outro se eles abrirem uma exceção. No ano passado fiz um comercial para a Intelig com o Toni, do Bamerindus, e fiz um para a Folha de São Paulo também. Os dois eram da W/Brasil, assim como a Bombril.
JC - Você já fez televisão?
Moreno - Já trabalhei na Cultura fazendo uns programas infantis, inclusive a primeira série do Ra-tim-bum, antes do Castelo. Era um personagem muito legal e isso me interessa fazer, porque eu gosto de estar trabalhando no teatro, no cinema ou na televisão desde que seja um personagem com o qual eu vá estar aprendendo alguma coisa como ator ou como pessoa e passando algo de bom para o espectador.
JC - Você já fez cinema também?
Moreno - Fiz um longa chamado Louca Paixão, de 1986, e fiz vários curtas. Mas os curtas quase não são vistos no Brasil porque não há mais aquela lei que obrigue a exibição. Fiz alguns trabalhos legais, premiados em festivais.
JC - Você está aberto a propostas?
Moreno - Estou. O que acontece é que no teatro eu estou meio que na minha área, sei como funciona e posso produzir, tomar a iniciativa, como estou fazendo agora. Mas em cinema e televisão eu dependo de convites, não tenho como bancar, mas se convidarem...