08 de julho de 2026
Geral

Trabalho: uma questão de mentalidade

Padre Beto (*)
| Tempo de leitura: 4 min

Quando vivemos em um país estrangeiro, os lugares turísticos deixam de ser atraentes e o cotidiano torna-se o centro das atenções, um campo de descobertas das diferenças, um momento de troca de experiências como também de conflitos culturais. Os monumentos e os pontos turísticos acabam perdendo seu fascínio, dando lugar aos costumes e ao comportamento das pessoas com quem convivemos. Não muito longe de Stuttgart, fui recebido como hóspede por uma típica família alemã, ou seja, uma família formada de poucos membros e com um poder aquisitivo de classe média. A Alemanha não possui a nossa tão conhecida pirâmide social, na qual a maioria concentra-se na sofrida base, enquanto a minoria vive no privilegiado ápice. A sociedade alemã pode ser comparada com uma cebola: uma pequena elite, uma gorda e larga classe média e uma insignificante classe baixa. Ao entrar na sala de visitas da casa, chamou-me a atenção o lindo e rústico teto de madeira que dava ao ambiente uma atmosfera aconchegante. O meu anfitrião explicou-me, com muito orgulho, que o teto fora construído por ele mesmo. Durante várias semanas ele dedicara seu tempo livre trabalhando com a madeira e construindo o teto, um trabalho que afinal não pertencia ao seu cotidiano como pequeno industrial. Para um inglês, um alemão ou um sueco, o trabalho manual é um motivo de orgulho e até mesmo um prazer. Poder construir algo, consertar um carro ou eletrodoméstico significa ter independência e domínio sobre seu mundo. Desta valorização da atividade manufatureira, surgem automaticamente o respeito pelo trabalho e a dignidade do trabalhador.

Atividade manual não está automaticamente ligada com a falta de poder aquisitivo. A valorização da força de trabalho possui como conseqüência o ótimo salário do trabalhador e o aumento da qualidade e produtividade de seu trabalho. Nos países latinos, e o Brasil é um ótimo exemplo, a mentalidade do conquistador e do senhor de engenho acabou prevalecendo: trabalho é sinal de decadência social. Status social significa poder pagar alguém para que o trabalho seja realizado. A conseqüência desta visão de mundo é a desvalorização do trabalho manual, a perda da dignidade do trabalhador e a pouca produtividade e qualidade deste.

Homo sapiens e trabalho nasceram juntos. Trabalho é um fenômeno antropológico que levou o ser humano a uma evolução de si próprio e a um aperfeiçoamento no domínio de seu mundo. Através do trabalho, ou seja, da ação consciente com o objetivo de utilizar seus frutos para a sobrevivência, o ser humano acabou transformando seu meio ambiente e aprendendo a viver neste mundo com mais liberdade e conforto. Com o trabalho, o ser humano não somente (re-)constrói seu meio ambiente, como também transforma a si mesmo, permanecendo em uma constante evolução. O trabalho, porém, não pode existir sem a companhia do sagrado descanso. A pausa, o ócio, são tão necessários para a sobrevivência e para o desenvolvimento da vida como o próprio trabalho. O descanso não significa somente um momento de ociosidade e relaxamento para recuperação das forças, mas também um momento ativo de encontro consigo mesmo, com os outros e com Deus. Portanto, trabalho e descanso são inseparáveis. A ausência de um deles provoca esclerose ou infarto, ignorância ou criminalidade.

Estas duas sagradas dimensões da vida, o trabalho e o descanso, podem ser distorcidas quando o trabalho torna-se um simples bem de troca e o trabalhador em uma peça da enorme máquina denominada economia de mercado. Nesta, o trabalho deixa de ser fonte de vida e desenvolvimento do ser humano e o descanso passa a ser perda de produtividade. Quem, na verdade, determina todas as relações é o lucro. O trabalhador é alienado do fruto de seu trabalho, ganhando em troca um salário. Diante deste sistema, onde a concorrência e o lucro determinam as regras, a única salvação para a dignidade humana é a consciência política do trabalhador e a consciência de justiça do empregador. Vários países europeus, por exemplo, percorreram, desde a Revolução Industrial, um longo caminho até que as forças sindicais e as elites conseguiram chegar a um equilíbrio entre lucro e justiça social. No Brasil, a nossa elite ainda não compreendeu que trabalhador bem pago significa aumento de qualidade e produtividade. Os trabalhadores, por sua vez, ainda não perceberam que sindicato não é coisa de demônio e nem de comunista, mas sim um instrumento normal de informação e conquista de seus direitos, como também de sua dignidade. Sem dúvida, o maior problema que possuímos no Brasil não é a situação econômica ou a corrupção política, mas a mentalidade. Não precisamos de tufões, nem precisamos de furacões. Pois todas as coisas assustadoras que eles fazem, podemos também fazer (Bertolt Brecht)

Especial para o JC Cultura (*)

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