A nação inteira acompanha, entre curiosa, estarrecida ou enojada, o que vem se passando na Comissão de Ética do Senado, na qual estão sendo investigadas as responsabilidades acerca do que é descrito como quebra do decoro parlamentar - na linguagem regimental - e verberado como crime, por alguns ou por muitas, de suas excelências excelentíssimas sem que, aparentemente predomine entre elas a opinião sobre se será decoroso ocultar do eleitorado, decisões que tomam em seu nome. Sim; porque o que se afirma e reafirma, à exaustão, é que, em uma democracia, todo o poder vem do povo e em seu nome será exercido. No decorrer dos trabalhos, uma dessas excelências, no auge da indignação porque teria sido alvo de calúnia, imputando-se-lhe um voto que não teria dado, pois o dera em sentido oposto ao que se lhe imputava, afirmou coisas como estar em um ambiente - aquele em que se tornara excelência - no qual já não seria razoável pronunciar o nome de Deus, por tratar-se de ambiente em que dominavam as intrigas, as traições, as desonestidades, aparentemente despercebida de que, o referido ambiente que era descrito mais ou menos com os qualificativos que acabamos de mencionar, era o de uma casa do povo, a mais alta de todas.
Como haverá de sentir-se o referido povo, que, obrigado a votar, como é, e lendo e ouvindo, bilhões de vezes, que o faz dentro das mais perfeitas e sacrossantas regras de organização político-administrativa, tão definitivas e tão perfeitas que, fora delas, tudo será anormal e intolerável? E, note-se, o indignado desabafo a que estamos fazendo alusão, pareceu sincero tornando-se, por isso mesmo, mais idôneo.
Àqueles pouquíssimos, que no ritmo frenético de vida a que nos obriga uma sociedade consumista dominada, claramente, pela motivação que já gerou nova expressão na linguagem do economês, o rentismo, correspondente à consideração da atividade econômica descompromissada com o seu sujeito, que é o homem de cujo trabalho ela se constitui, certamente já estarão surgindo algumas dúvidas acerca da irretocabilidade de uma ordem de coisas que, a rigor, assenta em uma contradição em termos: a de que o regime que, hoje, se tenta impor ao mundo inteiro, ainda que seja pela imposição das armas, é excelente e irretocável porque, nele, o governo é do povo, pelo povo, para o povo. Assim, como vê o leitor, assenta sobre a afirmativa de que alguma coisa pode ser, simultaneamente, governado e governante.
Não cansemos, porém, a paciência dos que nos honram com a sua leitura e, deixando o enfoque teórico, apenas entremostrado acima, pincemos do espetáculo em curso no Senado, um outro dado, a nosso ver, de máxima gravidade, decorrente de afirmação feita, categoricamente, por uma ex-diretora do Prodasen, sobre o fato de não existir nenhum programa de computador que seja inviolável. Afirmação comprovável, na prática, pela ação dos hackers, como são designados, um dos quais já teria penetrado em secretíssimos programas da Nasa e do Pentágono.
Será essa a razão pela qual, como se viu nas últimas eleições americanas, os votos são dados em cédulas, sendo eletrônica apenas a sua contagem, enquanto entre nós, ultimamente, os votos são dados em urnas eletrônicas. Será que, em matéria de informática, eles estão mais atrasados do que nós, ou será que alguém, entre nós, ainda que por toleima, está nos expondo ao risco de sermos feitos de bobos? Não parece ao leitor, esta, uma indagação mais séria do que as que se referem a quem teria violado o segredo de uma votação que, a menos segundo entendemos, não deveria, pelas razões vistas, ser secreta?