Viver é o castigo no inferno da Terra. Cansa-me a vida desde pequenino, vendo as pessoas e sua condição terrivelmente humana. Nunca apreciei o que esses tais seres humanos (Eu tb. sou - sou?) Suam tanto por conseguir: status através de casas, carros, dinheiro, poderes políticos ou empresariais (tudo é um lixo só). É sabido que no afã de conseguir escalar o poder, o sucesso tanto nos negócios quanto na política tem-se de ser o mais filho da puta possível (com exceções) ou então se é passado para trás, pisado, arrebentado pela multidão ambiciosa, enfurecida por seus desejos.
E criam leis, modos de vida de agir, cerceiam a liberdade do ser em nome de suas falcatruas bem manipuladas, estudadas e condicionadas. Coitados! Tornam-se escravos de sua própria ânsia de poder, sucesso, dinheiro e adquirem essa escravidão com o preço da própria vida. E dá-lhes úlceras, gastrites, enfartes e coisas no gênero, próprias de quem corre atrás de tais vitórias.
Cansa-me. Por isso sempre rejeitei a possibilidade de lutar por tais coisas, mesmo com chances para isso. Todo poder do presidente eu não trocaria pelo abraço carinhoso, de um sequer dos meus cachorros. Desprezo o poder que é chato, cansativo, incômodo, corrupto e cerceador.
Na realidade, sempre vivi meio dormitando entre livros, poesias e flores, enquanto a família, batalhando benesses me impedia cuidar dos cães e dos abandonados. Então nada, nada, nada me interessava, nem sexo, namoro, futebol (detesto), samba, política, religião (outro tipo de política) e jóias, propriedades e essas coisas todas, tão poucas para nosso pouco tempo.
Urge o tempo e os tais seres humanos o perdem batalhando coisas efêmeras. Não os desprezo, apenas deploro seu fanatismo, desespero, frenesi louco em busca desse falso status. E também as safenas, a depressão, as coronárias. É de se vê-los em bandos pleiteando o seu. Parecem bando de gralhas ruidosas, urubus barulhentos disputando carniça. Dá pena. Pena, apenas.
O ser humano faz tão pouco caso das grandes possibilidades que o grande Deus lhes deu... Por isso não trabalhei até os 33 anos, e nem liguei de ter ou querer nada.
Fui parasitário. Dormia e sonhava em partir deste planetão de crimes e castigos. O planeta satânico me cansa e exaspera com o que tem a oferecer, ou seja, nada. Pois a Terra é do homem, não é de Deus, nem do diabo. Não é bem assim. É o ser humano o demônio de si mesmo. E está piorando, vide o que acontece a nossa volta. Vide a mídia, o horror, a merca toda que temos de viver nessa cloaca imunda chamada Terra. E a Terra poderia ser maravilhosa não fosse a espécie humana tão daninha, tão pequena dentro da Criação. E vivem se infernando, se matando, perseguindo-se sem cessar, enquanto a ambição de poder lhes corrói como um câncer, que acabam tendo mesmo.
Só me interessei em trabalhar e ser decente quando comecei a recolher, cães, gatos, aranhas e lagartixas, e aí, bruxo, entrei no esquema de cumprir horários, agüentar gente chatíssima (com exceções) por causa do meu trabalho com os bichos. Eles precisam de alimentos, remédios, pois só meu carinho não basta.
E me vesti, escovei os dentes, tomei o remédio e fui ao médico tudo em função dos irmãos menores. Tão mais cômodo seria largar tudo, casa, objetos, documentos, ilusões à toa, e me entregar às delícias do nada, do desencanto que descansa e adormece. Longe do pessoal que não cessa a rinha das metas a qualquer preço. Largar-me sem roupas, sem desejos, sem amores (um amigo, coisa rara, ainda vale a pena) com escovas de dente, médicos receitas, obrigações, médias sociais.
Entregar-me ao nada como a volúpia de quem parte para o Nirvana mágico do adeus. Definhar, desaparecer, escapar de toda parafernália pela porta dos fundo do desencanto, gostosamente partindo.
Mas, tem os pequenos precisando de mim, tem os deserdados precisando da gotinha que levo no bico. Tem a senhora de bengala e seus quatro filhos precisando de sal, de óleo, meu Deus. Meu Deus!
Então não posso, não consigo escapar da porcaria que as pessoas fizeram deste lindo planeta. E tem os pequenos que dependem do meu sacrifício de ficar, para que tenham um pouco de vida.
Por isso troco de roupa, pingo colírio, desconto o cheque e tento sobreviver e entender porque foram colocados os pequenos na minha rota de fuga. Eu vivo aí! Que vivo o esforço de sorrir para esse demônio que cruza por nós dentes afiados. (Hesso A. Maciel - RG 4161922)