08 de julho de 2026
Geral

No escurinho do cinema

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

O racionamento de energia elétrica, a ser implantado em breve, vai impor mudanças radicais nos hábitos das pessoas e no funcionamento das empresas. Quem viveu a época dos apagões dos anos 50, tem uma vaga lembrança do quanto era agradável ir ao cinema e, de repente, ficar no escuro à espera da luz ser religada. Bom para quem tinha namorada. Os filmes sempre terminavam com o mocinho casando com a mocinha. Durante a grande crise energética do pós-guerra, o casal que não ia ao cinema, sem ter mais o que fazer, ajudava na explosão dos índices de natalidade.

Hoje, casamento caiu da moda e ninguém precisa se acobertar na sombra da noite. Vai levar vantagem o empresário que bolar algum tipo de atrativo para os novos tempos da escuridão. Sem televisão, as pessoas não vão querer ficar em casa. A preferência será por alguma atividade em local iluminado por um gerador de energia, ainda que mal. Donos de bar, academias de ginástica, boliche e mesmo de cinema, precisam tratar de garantir o seu gerador de energia. A demanda vai superar a capacidade de produção. Mesmo com essa visão romântica, a verdade é que a coisa está mais preta que uma noite sem luar. A economia brasileira precisa crescer para poder enfrentar os compromissos com as dívidas interna e externa e com o crescimento do emprego. A escassez de eletricidade surge como uma ameaça permanente durante os próximos anos. Chova ou não na quantidade desejável. Resultado de não se ter providenciado os investimentos necessários na geração de energia. O presidente FHC já está com mais de seis anos na chefia da Nação, tempo que seria suficiente para a maturação de um programa energético capaz de evitar possíveis racionamentos. Passa a ser ele, presidente, o maior responsável por este momento dramático que afetará o País.

Essa culpa torna-se ainda mais grave quando se sabe que sequer uma estratégia existe para enfrentar essa crise. O governo errou na modelagem das privatizações no setor energético, quando entregou para particulares o que já estava pronto, em vez de licitar novas concessões. Também não exigiu novos investimentos dos compradores. Resultado disso foi que ficamos sem dinheiro novo no setor e as autoridades também não fizeram nenhum esforço para motivar a instalação das termelétricas tocadas a gás boliviano. O Brasil saiu da crise dos anos 50 graças a um professor de hidráulica da USP que depois se tornou governador de São Paulo, chamado Lucas Nogueira Garcez. Liderou campanhas para ampliar o parque de geração, superdimensionando-o, inclusive, não só para atender às pressões de crescimento da demanda, mas também para criar uma margem de segurança que prevenisse os problemas de estiagem prolongadas e generalizadas. Foram feitos grandes investimentos em usinas, como Ilha Solteira e Jupiá, da Cesp. A Cemig, em Minas, como o governador JK iniciou grandes obras e já no final da década de 60 começavam os entendimentos para a construção de Itaipu. Essas providências permitiram ao Brasil um ritmo de crescimento econômico sem precedentes, nos anos 60 e 70. Infelizmente, o governo esqueceu o objetivo de qualquer política energética, que é exatamente a oferta constantemente superdimensionada em relação à demanda em cada momento, o que exige regularidade e planejamento nos investimentos. As querelas devem ficar em segundo plano, e decisões têm que ser tomadas com urgência máxima, não para evitar a crise atual - o que já é fato consumado - mas para impedir que ela se prolongue por tempo indeterminado.

Os investimentos estão atrasados e parece difícil recuperar o tempo perdido. Das 49 usinas termelétricas previstas, apenas 16 foram licitadas. Das 31 hidrelétricas que deveriam ser licitadas em 2000/2001, apenas 13 o foram. Já se anuncia que o PIB brasileiro para o corrente ano poderá ter uma redução de 1,5%, o que seria desastroso. Mesmo que se admita que FHC tenha tido um desempenho fantástico como querem os tucanos, a crise de energia, de sua responsabilidade, aniquilaria completamente seu suposto sucesso administrativo. Bom para o PT. Se não fizer grandes besteiras, quem sabe vira governo. Finalmente.