A polícia local não tem estatísticas, mas a cultura dos motoristas e passageiros brasileiros denuncia que ainda é preciso evoluir muito em termos de transporte. Os piores costumes estão ligados a procedimentos adotados com crianças
O Código Brasileiro de Trânsito, em vigor desde janeiro de 1998, já conseguiu muitos avanços no que diz respeito à redução dos acidentes automobilísticos. É bem provável que os resultados positivos tenham mais a ver com as pesadas cobranças de multa e com as severas punições do que com a almejada conscientização de condutores e passageiros. Tal suspeita repousa no fato de que algumas condutas erradas continuam sendo praticadas.
Uma delas, e talvez a mais grave, é com relação ao transporte de crianças. As regras invariavelmente estão sendo desrespeitadas e o que se vê é a vontade dos baixinhos prevalecendo num assunto que nem de longe pode ser tratado como brincadeira. E quando as crianças são pequenas demais para expor seus desejos, são os pais que negligenciam as normas de segurança ao transportá-las de forma indevida nas cadeirinhas.
De acordo com o cirurgião pediátrico Luiz Carlos Monteiro, a situação dos adultos vítimas de acidentes automobilísticos melhorou consideravelmente a partir do Código. Enquanto os grandes se apresentam em melhor estado de saúde às unidades de emergência, entretanto, os pequenos chegam em condições graves ou gravíssimas. Isso mostra que os pais ainda acreditam que seus filhos estão protegidos o bastante estando pura e simplesmente no banco de trás.
Num ambiente urbano, onde os veículos não empregam grandes velocidades, esse pensamento pode até valer quando o acidente envolve leves colisões. O problema é que numa estrada a fatalidade será quase certa se a situação for a mesma. Sem cinto de segurança, a criança quase sempre é ejetada para fora do veículo. Para protegê-la seguramente nos passeios rodoviários, portanto, nada mais ideal do que acostumá-la a usar o cinto em todas as ocasiões. Nessa hora, os pais não devem se culpar pela rigidez diante de eventuais birras.
O transporte de crianças que necessitam da cadeirinha também deixa muito a desejar. Raramente, o equipamento é colocado de forma adequada, o que significa segurança zero para seus usuários. A cadeirinha não deve ser usada apenas como um acessório para facilitar a vida dos adultos que precisam levar os filhos de cá para lá, mas como o elemento precípuo de segurança. Isso significa que não basta encaixá-la no vão do banco traseiro.
O correto é que a cadeirinha seja devidamente amarrada pelo cinto de segurança do veículo. A criança, por sua vez, também deve estar presa pelos cintos de segurança da cadeirinha, que devem ser cruzados sobre seu peito. O procedimento, que pode até ser trabalhoso para quem vive com pressa, deve ser seguido à risca mesmo que nas pequenas saídas. As estatísticas indicam que os usuários do cinto de segurança costumam se acidentar quando estão próximos de casa. Motivo? Pensam que para ir ao mercadinho da esquina não é preciso usar a proteção.
A polícia local não tem dados, mas uma blitz feita em São Paulo, numa iniciativa da Sociedade de Cirurgia Pediátrica e Polícia Rodoviária, constatou que o transporte indevido de crianças é massacrante. Durante o bloqueio, realizado no primeiro dia de um feriado prolongado, 600 veículos que tinham crianças como passageiras foram parados. De todos eles, apenas dois estavam de acordo com a mais estrita regra. Pior, ambos eram estrangeiros, o que torna evidente que a cultura brasileira ainda precisa evoluir muito em termos de segurança automobilística.