Médico afirma que, no dia-a-dia dos consultórios, é fácil perceber a relação entre o estado emocional e a saúde
O desenvolvimento emocional de todo ser humano depende diretamente de como ele é trabalhado na infância. É entre os primeiros meses de vida e os sete anos de idade que acontece a fase mais importante do amadurecimento afetivo da criança e, portanto, a base para uma auto-estima bem ou mal definida.
Nesta fase, a criança precisa ver todo o seu trabalho reconhecido e valorizado. Cada passo deve ser comemorado como uma grande vitória. As dificuldades devem ser observadas, de modo que ela receba o auxílio necessário para vencer os obstáculos, sem superproteção, nem represálias - com carinho e atenção comedidos.
É preciso despertar a força de vontade da criança para que ela tenha interesse pelo mundo e pelas coisas. Sem esse despertar, elas vão se tornar crianças nervosas, apáticas e desatentas, explicam as professoras Patrícia Prado, 39 anos, e Patrícia Alvarenga, 25 anos, da Viver Escola Waldorf de Bauru.
Segundo elas, de zero a sete anos, a criança precisa sentir que o mundo é muito bom, portanto, é preciso mostrar a elas como as coisas funcionam, as dificuldades em se chegar a um produto final e que há recompensas para tudo o que elas fazem. A partir dos sete anos, a criança passa a avaliar como o mundo é belo, então, ela começa a comparar seu trabalho com o dos colegas, começa a caprichar nas atividades, quer escolher suas roupas.
Em cada uma dessas fases, a forma como a família e os professores lidam com elas, o tratamento que lhes é dado, as atividades exigidas são fundamentais para a construção de uma base emocional e conceitual sólida e eficiente.
Na Escola Viver, todos os alunos têm aulas de música e trabalhos manuais específicos, conforme a faixa etária. Nestas aulas, o aluno aprende que tudo o que ele começa tem que ser concluído, mesmo que, para isso, ele tenha que desmanchar e refazer o mesmo trabalho várias vezes, explicam as professoras.
E todo o processo é acompanhado desde o início, realmente, segundo contam: As crianças que vão ter aulas de tricô, primeiro, vão conhecer o carneiro. Vão tosar o carneiro, lavar a lã e preparar o fio. Só quando entendem como a lã é feita é que elas passam a trabalhar com a lã industrializada. Aí, aprendem os pontos e começam a tricotar.
Da mesma forma acontece com as aulas de crochê. As crianças são ensinadas a plantar o algodão, cuidam na plantação, colhem, preparam o algodão, fazem o barbante e só no ano seguinte é que vão começar a aprender os pontos do artesanato.
Na Viver, todos os alunos têm um bom contato com a natureza, conhecem de perto os animais, ordenham a vaca para obter leite, cultivam e cuidam da horta para conseguir alimentos, vão para a cozinha e aprendem a preparar a própria comida, vão para a marcenaria e aprendem a fazer a colher de pau.
Hora certa
Nos últimos anos, tem sido comum ver pais até brigando judicialmente para conseguir matricular seus filhos na primeira série do ensino fundamental antes dos sete anos de idade. Eles acreditam que, se não o fizerem, o desenvolvimento escolar da criança estará prejudicado.
De acordo com as professoras, no entanto, esta idéia está errada. É preciso respeitar a idade e o desenvolvimento da criança. Um grande marco desse desenvolvimento é a queda do primeiro dente. Antes disso, toda a energia da criança está voltada ao crescimento físico. Usá-la para outras funções poderia comprometer o processo.
Por isso, na Viver, a criança só começa a ser alfabetizada a partir dos sete anos. E tem mais. Da 1.ª a 8.ª séries, eles não usam livros. Todo o material é passado na lousa pelo professor. O aluno tem que copiar e fazer suas próprias ilustrações. Toda criança aprende imitando alguém. Hoje, a maioria delas recebe tudo pronto. Fica um vazio no aprendizado, ressaltaram Prado e Alvarenga.
A Viver Escola Waldorf de Bauru foi criada há 14 anos na cidade e segue os fundamentos pedagógicos de Waldorf, baseados na Antroposofia - ciência que cuida do homem como um ser integral, respeitando a individualidade e a natureza do desenvolvimento humano.
Comportamento que faz a diferença
De acordo com o médico infectologista Marcelo Pesce, é inegável a associação entre comportamento e doença. Existem trabalhos bem estabelecidos mostrando que os quadros depressivos, por exemplo, afetam negativamente o sistema imunológico. Mesmo no campo da experiência pessoal, eu observo em meus pacientes que certas atitudes estão associadas a doenças ou não, disse.
Ele explicou que esta associação é mais marcante em quadros alérgicos, como crises de bronquite, asma e urticária. Mas também existe uma relação direta com problemas cardíacos, como o estresse, que aumenta os riscos de cardiopatias. É preciso trilhar o caminho oposto, mudar certos hábitos para que se possa viver melhor, sentir mais prazer. Pesce defende que as atividades artísticas são excelentes opções, pois permitem um contato diferente com o mundo - estimulam a sensibilidade. A gente vive numa sociedade artificial, onde tudo é muito pasteurizado. O homem já deixou de ter contato com a natureza. E você já começa a ver doenças infantis que são tipicamente por excesso de limpeza. A criança de hoje não pisa na terra, então, seu sistema imunológico não é desafiado no devido tempo e não amadurece - ela acaba tendo mais problemas alérgicos, por exemplo.
Para o médico, a criança precisa ter contato com o mundo, precisa pegar bicho de pé, tem que sentir o cheiro da flor, da terra, do mato, do esterco. É fundamental para o desenvolvimento.
No campo emocional, o infectologista recomenda que os pais conversem mais com os filhos, ao invés de se manterem inertes diante da TV. É preciso contar histórias para que as crianças possam imaginar. Antes da TV, cada criança criava uma imagem de Cinderela, exercitando suas faculdades imaginativas e criativas. Hoje, as referências vêm prontas. É preciso resgatar o contato direto (...) Acho que o maior crime que a gente comete é contra as crianças. Quando passa essa idade, já marcou a pessoa, já existem traumas que vão ficar pelo resto da vida.
Mas Pesce mostrou-se otimista, salientando que muitas pessoas já estão mudando seu modo de pensar. A prova disso é a própria adoção da Antroposofia, o crescimento da homeopatia, a busca pela espiritualidade e o reconhecimento, já presente, da necessidade de se fazer essa abordagem do ser humano como um ser integral.