07 de julho de 2026
Geral

Bem-estar depende de seis práticas

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 9 min

A auto-estima saudável está intimamente relacionada com sentimentos e outros fatores internos

Existem seis práticas essenciais para se construir uma auto-estima elevada, necessária para todas as pessoas:

1 A prática de viver conscientemente. Aqui se inclui o respeito pelos fatos; participar intensamente daquilo que fazemos enquanto o fazemos (por exemplo, se nosso cliente, supervisor, funcionário, fornecedor ou colega está falando conosco, ouvir atentamente durante o encontro); buscar e estar totalmente aberto a qualquer informação, conhecimento ou feedback que afirme nossos interesses, valores, metas e planos; e buscar compreender não apenas o mundo a nossa volta, mas também nosso mundo interior, para não agir inconscientemente em virtude de nossa cegueira.

2 A prática da auto-aceitação. É a disposição de admitir, experimentar e assumir a responsabilidade por nossos pensamentos, sentimentos e ações, sem fugir, negar ou refutar, e sem se repudiar, permitindo-nos avaliar nossos conceitos, vivenciar nossas emoções e analisar nossas ações sem necessariamente apreciá-las, aprová-las ou justificá-las. A aceitação do eu como ele é evitará que nos comportemos como se estivéssemos sendo julgados; desse modo, não estaremos sempre na defensiva e conseguiremos ouvir críticas ou idéias diferentes sem nos tornarmos hostis ou competitivos.

3 A prática do senso de responsabilidade. O senso de responsabilidade consiste em perceber que somos os autores de nossas escolhas e ações; que cada um de nós é responsável pela própria vida, pelo próprio bem-estar e pela realização de nossas metas; que, se precisarmos da cooperação de outras pessoas para atingir nossos objetivos, devemos oferecer um valor em troca; e que a pergunta não é De quem é a culpa?, mas sempre O que precisa ser feito?

4 A prática da auto-afirmação. Afirmar a si mesmo significa ser autêntico nas relações interpessoais; respeitar os próprios valores e as outras pessoas em contextos sociais; recusar-se a camuflar a realidade de quem somos ou do que gostamos para evitar a desaprovação do outro; é estar disposto a defender a si mesmo e suas idéias da maneira apropriada em circunstâncias apropriadas.

5 A prática de viver objetivamente. Consiste em estabelecer nossos objetivos ou planos de curto e longo prazo e as providências necessárias para concretizá-los, organizar o comportamento em função desses objetivos, monitorar as ações para garantir que está no caminho certo e prestar atenção ao resultado para saber se precisaremos voltar à estaca zero e quando teremos de fazê-lo.

6 A prática da integridade pessoal. É como viver coerentemente com nossos conhecimentos, palavras e atos; é dizer a verdade, honrar nossos compromissos e servir de exemplo dos valores que declaramos admirar; é tratar os outros de maneira justa e benevolente. Quando traímos nossos valores, traímos nossas próprias mentes e a auto-estima é inevitavelmente prejudicada.

Fontes interiores

A auto-estima saudável está intimamente relacionada com racionalismo, realismo, intuição, criatividade, independência, flexibilidade, capacidade de enfrentar os desafios, disponibilidade para admitir (e corrigir) erros, benevolência e cooperação. Se entendermos de fato o que é a auto-estima, a lógica dessas correlações torna-se bastante clara.

Racionalismo Esta relacionado ao funcionamento do lado esquerdo do cérebro, ao exercício da razão. É o exercício da função integradora da consciência, que leva a pessoa a agir com bom-senso. O indivíduo racionalista busca respeitar os fatos. Seu guia é a lei da não-contradição - nada pode ser verdadeiro e não-verdadeiro (A e não A), ao mesmo tempo e relacionado com a mesma coisa.

A pessoa que exerce esta habilidade busca sempre a verdade dos fatos, refletindo sobre os mesmos, de modo a não cair em contradição, respeitando a integridade das coisas, mesmo que ela tenha que mudar de opinião se for comprovado que a verdade é diferente ao que ela pensava antes. Está relacionado com o realismo.

Realismo - Neste contexto, o termo significa simplesmente o respeito pelos fatos, o reconhecimento de que o que é é, e o que não é não é. Ninguém pode se sentir competente para lidar com os desafios da vida se não levar a sério a distinção entre o real e o irreal; ignorar essa distinção é bastante prejudicial. A auto-estima elevada é intrinsecamente orientada pela realidade.

Nos testes, indivíduos com baixa auto-estima tendem a subestimar ou superestimar suas capacidades; indivíduos com auto-estima elevada tendem a avaliar suas capacidades de maneira realista.

Este mecanismo de subestimar ou superestimar a própria capacidade tem a ver com os mecanismos psicológicos chamados de complexos de inferioridade e de superioridade, que, na realidade, são extremos de um mesmo processo. O indivíduo tenta, muitas vezes, fugir da baixa auto-estima (inferioridade) superestimando a sua capacidade, através de uma falsa auto-estima (superioridade). Quando a pessoa prima por uma auto-estima elevada ela faz uma análise realista de si mesma sem se subestimar ou superestimar.

Intuição - Está relacionada com o lado direito do cérebro, com o uso adequado das emoções. Com muita freqüência - em especial, por exemplo, ao tomar decisões complexas -, o número de variáveis que precisam ser processadas e integradas é muito maior do que a mente consciente pode abarcar. Integrações complexas e super-rápidas podem ocorrer abaixo do limiar da percepção consciente e apresentar-se como intuições.

A mente pode, então, rastrear dados para sustentar as evidências ou contrapor a elas. Homens e mulheres, cujo contexto é em geral altamente consciente e experiente, valem-se confiantes dessas integrações subconscientes, pois o grande número de suas vitórias ensinou-lhes que, fazendo isso, na maioria das vezes acertam mais do que erram.

Como essa função intuitiva com freqüência permite que dêem saltos inesperados que o pensamento comum só efetua bem mais devagar, eles vivenciam a intuição como o ponto central de seus processos; executivos de alto nível às vezes creditam a intuição muitas de suas realizações.

A mente que aprendeu a confiar em si mesma tem mais probabilidade de confiar nesse processo (e de empregá-lo com eficácia, testando-o de maneira condizente com a realidade) do que aquela que não aprendeu. Isso é igualmente válido no mundo dos negócios, dos esportes, das ciências e das artes - nas atividades humanas mais complexas.

A intuição é importante fator de auto-estima apenas na medida em que expressa um alta sensibilidade aos sinais interiores e uma apropriada consideração pelos mesmos. Está relacionada com o próximo item a criatividade.

Criatividade - Pessoas criativas ouvem seus sinais interiores, as suas intuições, e confiam neles mais do que a média. Têm a mente menos subserviente ao sistema de crenças dos outros, pelo menos no que diz respeito à sua área de criatividade. São mais auto-suficientes. Podem aprender com os outros ou inspirar-se neles. Mas valorizam os próprios pensamentos e as próprias percepções mais que a média das pessoas.

Alguns estudos revelam que as pessoas criativas têm muito mais probabilidade de anotar idéias interessantes; passam o tempo alimentando-as e cultivando-as; investem energia na exploração das mesmas. Elas valorizam sua produção mental.

As pessoas com baixa auto-estima tendem a desconsiderar o que sua mente produz. Isso não significa que nunca tenham boas idéias. Mas não as valorizam, não as consideram potencialmente importantes, e em geral nem sequer se lembram delas por muito tempo - é raro as concretizarem. Na verdade, têm a seguinte atitude: Se a idéia é minha, como pode ser boa?.

Independência - A prática de pensar por si mesmo é um corolário natural - tanto causa como conseqüência - da auto-estima saudável. Também o é a prática de assumir toda a responsabilidade pela própria existência - pela consecução de seus objetivos e pela conquista da felicidade.

Flexibilidade - Ser flexível é ser capaz de reagir às mudanças sem apegos inadequados ao passado. O apego ao passado diante de circunstâncias novas e mutáveis é, em si, produto da insegurança, da falta de autoconfiança.

A rigidez é, em geral, a reação da pessoa que não confia em si mesma para lidar com o novo, ou dominar o desconhecido - ou que apenas se tornou complacente ou até mesmo relapsa. A flexibilidade, em contraste, é a conseqüência natural da auto-estima. A pessoa que confia em si mesma é capaz de reagir com rapidez ao novo porque está disponível para enxergar.

Capacidade para enfrentar mudanças - É uma conseqüência da flexibilidade. A pessoa com uma boa auto-estima não considera a mudança algo assustador, pelas razões descritas no parágrafo anterior. A auto-estima flui com a realidade; a indecisão íntima luta contra ela. A auto-estima acelera o tempo de reação; a indecisão íntima retarda-o.

Disponibilidade para admitir (e corrigir) erros - Uma característica básica da auto-estima saudável é uma forte orientação pela realidade. Os fatos são prioritários em relação às crenças. A verdade tem muito mais valor do que estar certo. A consciência é percebida como mais desejável do que a autoproteção inconsciente. Se a autoconfiança estiver vinculada ao respeito pela realidade, corrigir um erro será mais valorizado do que fingir que ele não foi cometido.

A pessoa com auto-estima saudável não se envergonha de dizer, quando a ocasião exige, Eu estava errado. Negações e uma postura defensiva são características da insegurança, da culpa, do sentimento de inadequação e da vergonha. É a baixa auto-estima que vive a simples admissão de um erro como humilhação e até mesmo como autocondenação.

Benevolência e cooperação - Estudiosos do desenvolvimento infantil sabem que uma criança tratada com respeito tende a internalizar esse respeito e depois a tratar os outros da mesma maneira - em contraste com uma criança que sofreu abusos, internalizou o desrespeito por si mesma e cresceu reagindo aos outros com medo e ódio. Se estou centrado em mim mesmo, se estou seguro de meus limites, confiante em meu direito de dizer sim e não quando quero, a benevolência será a conseqüência natural. Não tenho por que ter medo dos outros, nem preciso me proteger atrás das muralhas da hostilidade.

Se estou seguro de meu direito de existir, se confio que pertenço a mim mesmo, se não me sinto ameaçado pela certeza e pela autoconfiança dos outros, então a cooperação com eles para obtermos resultados comuns tenderá a ser desenvolvida com espontaneidade. Condutas como essas atendem claramente a meus interesses, satisfazem uma variedade de necessidades e não são obstruídas pelo medo, ou pela autodesconfiança.

É muito mais provável encontrarmos empatia e compaixão, tanto quanto benevolência e cooperação, em pessoas com auto-estima elevada do que nas de baixa auto-estima; meu relacionamento com os outros tende a espelhar e refletir meu relacionamento comigo mesmo.

Ao comentar a máxima ama ao teu próximo como a ti mesmo, o filósofo Eric Hoffer observa que o problema é que as pessoas fazem exatamente o contrário disso: elas odeiam os outros como odeiam a si mesmas. Os criminosos deste mundo, no sentido literal e figurado, não são pessoas que mantêm um relacionamento íntimo e afetivo com seu eu interior.