11 de julho de 2026
Geral

O que um dia foi patrimônio público, hoje apodrece no pátio de Triagem Paulista, em Bauru. A próxima parada para as 25 locomotivas elétricas será um leilão.

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 4 min

Um lote de 25 locomotivas elétricas GE apodrecem no pátio de Triagem Paulista, à espera do mortal maçarico

A privatização da Fepasa (Ferrovia Paulista S/A) dá mais um golpe mortal na memória da ex-Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Um lote de 25 locomotivas elétricas, fabricadas pela norte-americana General Electric (GE) entre 1940 e 1970, apodrece no pátio ferroviário de Triagem Paulista, à espera da realização do leilão que vai levá-los ao encontro do maçarico. Se estivessem em perfeitas condições de operação, os equipamentos valeriam cerca de R$ 20 milhões.

Pintadas originalmente na cor verde e depois azul, as elétricas da antiga Paulista partem para a sepultura levando um vermelho com listras brancas. O edital de venda da sucata já foi preparado pela Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA), atual proprietária desse monte de ferro retorcido e enferrujado, que carrega nas suas tintas meio século da mais bem sucedida história ferroviária do País.

A tração elétrica foi desativada pelas Ferrovias Bandeirantes S/A (Ferroban) em janeiro do ano passado, quando o grupo passou a administrar cerca de cinco mil quilômetros de ferrovias no Estado de São Paulo. Alegando alto custo de manutenção, a operadora optou pela tração diesel-elétrica, cujo combustível vem de uma fonte não renovável de energia (petróleo) e ainda produz poluição das boas.

As locomotivas elétricas GE da Paulista puxavam trens de passageiros e de cargas no trecho Bauru-Jundiaí, entre outros. A companhia comprou o primeiro lote dessas máquinas no início da década de 40, para dar impulso ao projeto de eletrificação de sua malha ferroviária. Foram adquiridas 21 locomotivas, que entraram em tráfego gradativamente entre fevereiro de 1940 e fevereiro de 1947. Ficaram conhecidadas como as V-8.

A numeração original de identificação começava na casa 370 e terminava em 391. Pesando 165 mil quilos, tinha capacidade para tracionar até 1.000 toneladas. Sua velocidade máxima era de 145 km/h, mas nas linhas da ex-Paulista tinham permissão para atingir, com segurança, até 120km/h, como no trecho Bauru-Pederneiras, um retão de 30 quilômetros. Na média, rodavam a 90 km/h.

Guerra Fria

Embora a Companhia Paulista começasse a dar seus primeiros sinais de decadência, sua diretoria insistia na modernização da frota do material rodante (locomotivas e vagões), numa disputa cega e injusta com o transporte rodoviário, elegantemente apoiado pelo Governo Federal.

Mesmo assim, no início dos anos 50, a Paulista aproveitou um negócio da china, oferecido pela General Electric dos Estados Unidos. O governo da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) encomendou, à GE, um lote de cinco locomotivas elétricas para equipar a Ferrovia Transiberiana, cujos trilhos partiam de Moscou e rasgavam a fria planície siberiana em direção a Vladivostok, no extremo Leste do país.

Os anos 50 sinalizavam o recrudescimento da Guerra Fria entre as duas maiores potências mundiais. Pressionada pela Casa Branca, a diretoria da GE foi obrigada a desfazer o negócio com a Rússia antes mesmo de entregar as máquinas ao cliente, aderindo ao boicote comercial que começava a se desenhar em direção aos países da cortina de ferro.

Desfeita a encomenda, a General Electric iniciou um processo de oferta dos equipamentos às principais companhias ferroviárias do mundo capitalista, em busca de eliminar seus prejuízos. E encontrou na Paulista o interesse que precisava para se desfazer do encalhe comercial. O lote de cinco locomotivas chegou ao Brasil no início de 1951. Elas entraram em tráfego entre junho e agosto do mesmo ano, recebendo numeração de 450 a 454.

Pesando 165 toneladas, esparramados em 27 metros de comprimento, eram consideradas um monstro entre os ferroviários, que as apelidaram de russas, em alusão ao entrave político e ideológico que proibiu a GE de vendê-las à URSS. Fundidos nos seus eixos, eram visíveis o símbolo máximo do regime comunista: a foice e o martelo.

Wanderléia e V-8

Outros dois modelos de locomotivas elétricas GE também ganharam fama entre os ferroviários. Um deles foi apelidado de V-8. A parte frontal da máquina lembrava muito a frente dos veículos Ford V-8, cujos pára-brisas eram quadrados e separados ao meio por uma coluninha de aço.

O último lote de máquinas elétricas GE adquirida pela Paulista foi fabricado no Brasil, nas oficinas da empresa, instaladas em Campinas. Eram dez locomotivas de frente reta e quadrada, numeradas de 350 a 359. Entraram em operação em maio de 1967 e ganharam dos ferroviários o apelido carinhoso e sensual de Wanderléia, cantora da Jovem Guarda que ganhou fama pelas minissaias que usava.

Esse modelo de máquina possuía rodas enormes e altas, sem carenagem, que ficavam à mostra. Daí a alusão à minissaia da cantora, que fazia questão de mostrar o belo par de pernas que possuía. As Wanderléias encerraram o ciclo de aquisição de locomotivas elétricas por parte da ex-Paulista, ferrovia que ficou conhecida em todo o Brasil pela qualidade dos serviços prestados e, principalmente, pela pontualidade de seus trens de passageiros, que circulavam por boa parte do Estado rigorosamente no horário.