08 de julho de 2026
Geral

Problemas atingem lado psíquico-emocional

Redação
| Tempo de leitura: 3 min

Viver com qualidade também requer equilíbrio emocional e psíquico, fator nem sempre presente quando se vive à beira de uma imensa erosão ou com o medo constante de ver os bens levados pela chuva

Qual o motivo de um conselho de psicologia participar de uma plenária popular que visa soluções para enchentes, erosões e buracos de rua? Aparentemente, nenhum. Numa análise mais cuidadosa, entretanto, fica fácil concluir que a relação entre uma coisa e outra tem muito mais afinidade do que se pode imaginar. Ninguém deve estranhar ou julgar inoportuna, portanto, a presença de representantes da seção-Bauru do Conselho Regional de Psicologia (CRP) nessa discussão.

Comprometida com ações voltadas à melhoria da qualidade de vida dos bauruenses, a diretoria da entidade tem notícias pouco animadoras sobre os efeitos da precária infra-estrutura do município. A parcela da população que amarga as conseqüências das chuvas e outros problemas urbanos adoece a cada novo e trágico episódio. A doença pode se manifestar fisicamente, mas geralmente repousa em razões psicossomáticas. Quase sempre, porém, o mal permanece latente, externando-se em sentimentos de medo, perda, indignação e inconformismo.

Os prejuízos materiais que todos os anos vitimam bauruenses na época das chuvas geram, na maioria das vezes, um desequilíbrio emocional mais do que justificado. A perda dos móveis, dos objetos pessoais, dos bens como um todo, tem o peso do retrocesso de uma vida inteira. A vítima perde o referencial e fica numa situação de fragilidade por não ter a quem recorrer. O mesmo acontece com que vive na beira de erosões. O sentimento dessas pessoas é de perda e receio constantes, pois sabem que o problema que enfrentam é tratado com descaso ou, no máximo, com um não podemos fazer nada. São pessoas financeiramente desprivilegiadas que já lutam contra o desemprego e exclusão social e que, além de tudo isso, ainda têm de enfrentar o caos urbano, agrava a psicóloga Débora Cristina Fonseca, sub-coordenadora do CRP de Bauru.

Os problemas psíquico-emocionais gerados pela tensão e medo, ainda que estes tenham época marcada para se manifestar, acabam tendo reflexo nos serviços públicos de saúde psicológica, que já sofrem com a demanda reprimida de pacientes. Sem o devido atendimento, essas pessoas experimentam algo ainda pior: a culpa. Quando não têm a quem recorrer, as vítimas são obrigadas a buscar soluções sozinhas, o que provoca um sentimento de culpa inesgotável. Se sentem culpadas por não terem melhores condições financeiras, por morarem em bairros carentes de infra-estrutura e por aí em diante, situou. Por fim, acabam procurando um médico, que lhes receita um calmante, ou seja, a causa do estresse continua sem solução, complementou a psicóloga.

De acordo com Débora, o envolvimento do Conselho Regional de Psicologia se faz necessário pelo simples fato de que qualidade de vida também inclui fatores emocionais. Viver sem angústias faz parte da vida com qualidade, ensina. A entidade também pretende brigar pela manutenção de pontos de lazer, fundamentais, frisa a psicóloga, para garantir a saúde mental e física dos cidadãos. A proposta de se levantar um paredão no Parque Vitória Régia, por exemplo, não agradou o CRP. Tememos que, quando alagado pelas águas das chuvas, o gramado do Vitória Régia fique contaminado e impróprio para o lazer. Isso é muito preocupante, uma vez que já são poucas as áreas verdes de convivência na cidade, justificou.