08 de julho de 2026
Geral

Consciência está vencendo preconceito

Fabiano Alcantara
| Tempo de leitura: 9 min

Para presidente do CAd/E, Graziela Nishiyama, preconceito contra os deficientes está diminuindo através da conscientização

Formada em psicologia para lidar com seus próprios grilos, Graziela Yoshie Nishiyama tornou-se uma das maiores ativistas da causa do deficiente em Bauru após tomar consciência do potencial que estava sendo desperdiçado.

Segundo ela, o deficiente costuma ser mais produtivo no ambiente de trabalho que os ditos normais. O motivo seriam as pressões da sociedade, que provocam a superação do deficiente como forma de provar, até para si mesmo, que ele é capaz.

Entusiasta dos esportes para deficientes, ela foi uma das organizadores dos Jogos Paraolímpicos, no ano passado, ela anuncia, como presidente do Centro de Apoio aos D/Eficientes (CAd/E), que a instituição está investindo na formação de uma equipe de basquetebol. Na entrevista, que ela concedeu à reportagem do Jornal da Cidade em sua casa, Graziela estava acompanhada pelo diretor esportivo do CAd/E, Alcino Sanches Júnior. Na conversa, eles comentaram o que está sendo feito para acabar com o preconceito, o que está permitindo aos deficientes participar de forma mais efetiva da vida social e das dificuldades enfrentadas, tanto na entidade, quanto na vida privada.

Jornal da Cidade - O CAd/E existe desde 1996, o que motivou você a buscar esse tipo de organização?

Graziela Yoshie Nishiyama - Nós sentíamos a falta de uma entidade que lutasse pelos direitos dos portadores de deficiência. Queríamos acabar com a falta de união.

Jornal da Cidade - Como funciona a entidade?

Graziela - Ela presta serviço para a comunidade através de assessorias a empresas, escolas, tanto em relação à sensibilidade, quanto ao trabalho de conscientização, de palestras...

Alcino Sanches Júnior - Hoje, também, inserindo a parte desportiva para os portadores de deficiência. O que tem uma importância muito grande. Às vezes, o portador de deficiência fica em casa, naquela maresia. Então, nós temos o esporte, tentamos innserir o esporte não só para a sociedade, mas para o deficiente também, para ele se reintegrar à sociedade.

Jornal da Cidade - Vocês formaram um time de basquete?

Júnior - De início imediato, o nosso projeto é o basquete, que é o esporte mais fácil, que seria mais acessível a todos.

Graziela - Que é um esporte em grupo, chama mais atenção e desperta mais interesse das pessoas. Mas nós vamos trabalhar com outras modalidades esportivas.

Uma outra coisa também é que o CAd/E, através de uma parceria com o Ministério do Trabalho, ele coordena o Balcão de Empregos, que, por sinal, completa um ano hoje (17, quinta-feira). Este projeto voltado para os portadores de deficiência foi uma das nossas conquistas e já levou 20 pessoas para o mercado de trabalho.

Jornal da Cidade - O deficiente ainda tem muita dificuldade de entrar no mercado de trabalho.

Graziela - É difícil, devido ao preconceito. Mesmo pela falta de conhecimento de como é o portador de deficiência. Qual é o grau de limitação de cada um.

Existem vários tipos de deficiência, dentro de cada deficiência tem um grau. Existe o deficiente visual leve, moderado, grave. O auditivo também, leve, moderado e grave, e o físico, que anda de bengala, muleta, cadeira de rodas. A tendência das pessoas é generalizar.

Quando se fala em um portador de deficiência, imaginam aquele mais limitado mesmo, mais dependente, aquela pessoa totalmente incapaz e não é assim.

Através de um trabalho de conscientização, nós temos discutido com as empresas, que toda pessoa tem uma limitação, que muitas vezes não é visível, e o portador de deficiência ele tem uma deficiência visível, mas que não o impede de executar um trabalho. Muitas vezes ele é muito mais capaz que uma pessoa dita normal.

Jornal da Cidade - A tendência do preconceito da sociedade é ir diminuindo?

Graziela - O que eu percebo é que ele vem diminuindo através de informação, de conhecimento. Agora, ainda existe, mas é mais mascarado que antigamente, quando o deficiente era condenado à morte. Depois ele foi segregado a instituições. Não existia um convívio com a família. Hoje em dia não, ele procura ter uma vida mais integrada, mas nem toda família tem uma estrutura e uma orientação adequada para que o deficiente participe da sociedade como cidadão.

Jornal da Cidade - O trabalho é um fator crucial para a integração?

Graziela - É. O trabalho é importante para todo mundo porque é onde a pessoa vai adquirir a auto-estima, uma maior independência e realmente se sentir capaz. É quando a pessoa pode superar a sua limitação e mostrar que é capaz.

Na maioria das vezes, o deficiente se sobressai. Ele acaba se exigindo porque existe uma cobrança da sociedade.

Quando o deficiente não faz nada ele é visto como coitadinho, quando ele vai e faz alguma coisa ele é tido como um super-herói. Ou então, quando ele reivindica seus direitos, quando ele começa a encontrar obstáculos e ele vai à luta, denunciando, ele é visto como revoltado. São três barreiras encontradas.

Jornal da Cidade - E como vocês reagem?

Graziela - Muitos acabam assumindo o papel. Mas, nós buscamos separar as coisas, não usar a deficiência para justificar as nossas falhas enquanto pessoas.

Júnior - Existem portadores de deficiência que conhecem a sua situação, mas vão à luta, como qualquer outra pessoa. Eles querem o espaço deles.

Graziela - Voltando naquela questão do trabalho, quando o deficiente encontra uma oportunidade de trabalho, ele, pela cobrança da sociedade, para provar para as pessoas e para si mesmo que ele é capaz, ele acaba se sobressaindo. Ele acaba sendo mais produtivo que outra pessoa.

Jornal da Cidade - Para chegar nesse estágio, o apoio da família é necessário?

Graziela - Fundamental, é a base de tudo. Por isso que o trabalho precisa começar primeiramente com a família, depois com o deficiente e depois com a sociedade.

Jornal da Cidade - Por que existem dificuldades de entendimento entre o CAd/E e o Comude (Conselho Municipal da Pessoa Portadora de Deficiência)?

Graziela - Na verdade, o Comude e o CAd/E trabalham pelo mesmo objetivo, mas com metas diferentes. Porque o CAd/E é uma entidade e o Comude um conselho. São metas diferentes.

Jornal da Cidade - Uma das grandes dificuldades dos deficientes é deslocar-se pelo espaço público. Em Bauru, está havendo alguma evolução neste sentido?

Graziela - Nós já fizemos trabalhos com a faculdade de arquitetura para conscientizar os futuros profissionais, para que tomem cuidado na hora de elaborar um projeto, se lembrem do deficiente.

Júnior - Este é um assunto importante. Como é que um deficiente vai ao banco hoje? Como é que vai ao cinema?

Jornal da Cidade - O problema está sendo discutido no projeto de revitalização do Centro?

Graziela - Eu participei dessas discussões e quando eu vi que eles estavam mais preocupados com a urbanização, com o paisagismo, eu fiquei indignada. Eu parei. Eu dei um depoimento lá, que antes de se preocupar com a beleza da cidade, eles tinham que se preocupar com as pessoas, depois com as coisas materiais.

O CAd/E tem um projeto, que inclusive foi entregue no ano passado para os candidatos a prefeito, relacionado a todas as áreas. Educação, saúde, transporte, lazer e esporte.

Jornal da Cidade - Depois dos casos de confinamento e até morte, no passado, hoje o deficiente deve ser visto apenas como uma pessoa diferente?

Graziela - A tendência hoje é de que a própria família cuide, de estar desenvolvendo um trabalho como qualquer criança. De freqüentar escola, praticar esporte, freqüentar cinema, restaurante, clube, casar, ter filhos, ter uma família. Tudo isso ainda é visto com espanto por algumas pessoas. Mas também não se pode exigir que a sociedade mude, se o deficiente não começar a participar das atividades como toda pessoa.

Jornal da Cidade - Por que você acha que o esporte pode ser uma saída para a integração do deficiente?Graziela - O esporte ajuda o emocional do deficiente, o trabalho fica mais rápido. Pela integração, de estar percebendo que ele é capaz, que ele pode...

Jornal da Cidade - A troca de experiências entre os deficientes é um fator que ajuda no psicológico?

Graziela - A troca de experiências é enriquecedora porque muitas vezes um dá força para o outro. A pessoa pensa muitas vezes que o seu problema é o maior e o pior de todos. E conversando a pessoa vai perceber que o problema não é tão grande, que existem pessoas em pior situação. Todo mundo acaba repensando e dá mais valor à vida.

Jornal da Cidade - As pessoas ficam mais tolerantes?

Graziela - Depende. Quando se está naquele período de aceitação, existe muita revolta. Perde a fé em Deus, não quer ver ninguém, acha que a vida é uma droga, que a vida acabou. Depois que passa esta fase, que ela consegue enxergar de uma outra forma, com certeza, ela valoriza muito mais a vida e as pequenas coisas.

Jornal da Cidade - Aquela história do o que não me mata, me fortalece.

Graziela - Com certeza.

Jornal da Cidade - A pessoa que torna-se deficiente tem mais dificuldades que as que nascem assim?

Graziela - Tem. Imagina, de uma hora para outra, ela deixa de andar, por exemplo, tem que mudar totalmente a vida. Tem que se adaptar. Uma pessoa que sofre um acidente e perde uma perna ou fica tetraplégico. Mesmo cego. É um período de adaptação muito difícil.

Quem já nasce, como no meu caso, é mais fácil. Desde criança já vai aprendendo a lidar com a sua própria limitação.

Jornal da Cidade - A infância é um período difícil para quem é deficiente?

Graziela - Mais quando começa a freqüentar a escola. Porque encontra outras crianças, diferente do que a gente está acostumada. As crianças ficam olhando, tirando sarro.

Um dos problemas é em relação aos pais da crianças, que não deixa chegar perto, tem medo de que pegue a doença. Assim, este período de adaptação na escola é mais difícil, para todas as crianças, até para as que não são deficientes.

Fora isso, a adolescência, que é uma fase crítica para todo mundo. Então, as fases críticas de uma pessoas normal é mais difícil para o deficiente ter que lidar com esta crise e com a sua própria deficiência.

Jornal da Cidade - Existe alguma estimativa sobre quantos deficientes existem em Bauru?

Graziela - É difícil, o último censo feito foi em 1996 e mesmo assim ele dava um total de 4 mil portadores de deficientes, quando nós sabemos que existem 9 mil só com deficiência auditiva. Então, não tem como.

A estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de que 10% da população mundial tenha algum tipo de deficiência. O que acontece é que muitos ficam em uma cama, sem nenhum tipo de tratamento. E é muito por falta de orientação, falta de orientação médica, de tratamento mesmo.

É triste uma pessoa que está em uma cama, mas que poderia, com a ajuda de uma equipe, ir para uma cadeira de rodas, ir para escola, estudar, trabalhar. Mas, por falta de tratamento adequado, ela fica confinada na cama.

Serviço

Quem quiser ajudar o CAd/E com material esportivo para o time de basquetebol pode ligar para o telefone (14) 227-5710.