Pesquisadora acredita que a fragmentação do conhecimento é responsável pela degradação do meio ambiente
A visão holística do meio ambiente pode ser a saída para a salvação da Terra? Maria Alzira Loureiro, pesquisadora e professora universitária da Unip, acredita que sim. Para ela, que defende a percepção do mundo como um todo, as universidades e pesquisas atuais produzem conceitos fragmentados que geram a degradação do meio ambiente e das sociedades atuais.
Maria Alzira propõe que as culturas ocidentais adotem a visão holística do mundo - característica de tradições orientais - como uma forma de produzir o desenvolvimento sustentável do planeta. A visão holística é a percepção do mundo como um todo. É uma visão própria das culturas orientais, que são milenares, esclarece.
As teorias de Newton e de Descartes, de acordo com a pesquisadora, teriam contribuído para a fragmentação do modo de ver o mundo, nas culturas ocidentais, que se caracterizam pela especialização. A física de Newton e as teorias de Descartes criaram um modo fragmentado de ver o mundo. Newton achava que o mundo era como uma máquina, que o sistema universal era como um relógio. Descartes separa, fragmenta os conhecimentos. Com isso, cria-se a especialidade, a especialização dos profissionais. Cada um sabendo quase tudo do quase nada. Isso faz com que a pessoa não tenha uma visão do todo, enfatiza.
A crise mundial e a desarmonia da sociedade e do meio ambiente seria uma conseqüência da visão fragmentada do mundo e da divergência de opiniões, de acordo com a teoria holística.
Meio ambiente
Maria Alzira esclarece que, na percepção separatista, o homem não faz parte do meio ambiente, que seria o entorno dos seres humanos. Quando você pergunta para alguém o que é meio ambiente, normalmente as pessoas falam que são as florestas, o mar, a natureza, os vegetais etc. Mas não incluem nessa natureza o próprio ser humano. Quando perguntamos sobre meio ambiente, fala-se em tudo isso que está à nossa volta. Essa visão é uma visão separatista. É a percepção fragmentada, salienta.
Portanto, a proposta holística consistiria em entender homens, vegetais, animais e minerais como um todo único. As plantas, os outros animais, assim como a sociedade humana, nada mais seriam que órgãos externos do corpo físico do homem. Ou seja, eles seriam compostos por tudo aquilo que está fora do organismo humano, como a areia, os rios, a água, os animais, os passarinhos e o próprio ser humano. A visão holística faz com que a pessoa entenda que tudo é uma coisa só. O animal não vive sem a planta e a planta não vive sem o animal. Na verdade, tudo depende de tudo neste planeta. Nós somos feitos da mesma matéria. No nosso corpo físico, nós temos a representação de toda a matéria que compõe a parte da biosfera, afirma a professora universitária.
Transdisciplinaridade
A visão holística transdisciplinar propõe a junção das ciências, da arte e da espiritualidade, de acordo com Maria Alzira. Atualmente, no próprio Ministério da Educação e da Cultura (MEC), cada área do conhecimento é separada. Se você entra nas faculdades, há departamentos separados. Dentro de cada departamento, há fragmentação em disciplinas, critica.
Até mesmo as religiões, conforme explica a pesquisadora, apontariam para a separação do todo sugerido na percepção holística. Dentro das religiões, há também uma fragmentação. As grandes religiões separam-se umas das outras, quando a essência é uma só. Isso torna-se uma torre de babel - cada um falando numa linguagem diferente sobre a mesma coisa, observa.
A sugestão deixada por Maria Alzira é de que o conhecimento, assim como o mundo, seja entendido como um todo. Temos que juntar tudo para ter o conhecimento do todo. Não adianta o matemático ficar de um lado, o físico de outro, o professor de História de outro, o psicólogo de outro etc. Nas universidades, estão sendo produzidos conceitos também fragmentados, baseados nos argumentos fragmentados. Isso foi levando a uma degradação do meio ambiente, a uma destruição da personalidade de cada um, tirando a alegria do ser humano e criando doenças e desarmonia, agrava.
Ecologia
A aplicação dos conceitos holísticos na ecologia é bastante objetiva, de acordo com Maria Alzira. Para estudar a ecologia, nós não podemos separar o ser humano do seu entorno. Nós estamos aprisionados neste planeta e não temos para onde ir. Se não tomarmos cuidado com a Terra, estaremos condenados à morte. Nós não estamos neste planeta, nós somos este planeta, pontua.
A professora ressalta que, se o ser humano não se transformar profundamente, ele não conseguirá mudar seus hábitos para colocar-se no lugar dos outros e ser solidário, objetivando o bem da humanidade. Cuidar dos outros é cuidar de si. Nós fomos educados pela competição, pela ganância. Cada um quer ter mais, cada um quer competir com os outros. Essa cultura da individualidade, característica da época da Revolução Industrial, faz com que o meio ambiente entre em crise. O ser humano torna-se um objeto, uma peça para o desenvolvimento, e não o sujeito, disse.