O chorinho do bebê na hora em que seu calcanhar é espetado chega a rasgar o coração da mãe. Mas a dorzinha momentânea é a única maneira de identificar se a criança é ou não portadora de algumas doenças que podem, se não tratadas precocemente, levar a sérios problemas físicos e mentais. Um chorinho que pode estar salvando a vida de seu filho.
O teste do pezinho, como ficou conhecido, é um exame feito a partir da coleta de algumas gotas de sangue que são retiradas do calcanhar do bebê poucos dias depois do nascimento. O teste permite identificar mais de 30 tipos de doenças chamadas erros inatos do metabolismo. É quando a criança nasce com alguma deficiência na produção de enzimas - substâncias que regulam o funcionamento do organismo. Estima-se que uma em cada 5 mil crianças nasça com alteração em alguma destas enzimas reguladoras.
As alterações vão impedir ou prejudicar o desenvolvimento de algum órgão ou sistema do organismo do bebê e podem levar a sérias lesões, principalmente no crescimento físico e no amadurecimento neuropsicomotor da criança. Ou seja, ela poderá ter graves seqüelas físicas, retardo mental severo ou mesmo morrer por complicações orgânicas.
Silenciosas
A maioria destas doenças apresenta sinais e sintomas facilmente identificáveis pelos médicos. Mas há duas delas que podem passar completamente despercebidas durante meses. São a fenilcetonúria e o hipotireoidismo congênito. Por serem silenciosas, a Lei Federal obriga todos os hospitais a realizarem o teste do pezinho para essas duas doenças gratuitamente. Para identificar as outras doenças, a única opção ainda é pagar pelo exame.
A fenilcetonúria é uma deficiência do organismo em que o aminoácido fenilalanina (substância presente em todas as proteínas) não é metabolizado. Com isso, a fenilalanina fica acumulada no sistema nervoso da criança. Quando detectada tardiamente ou não tratada adequadamente, ocasiona um atraso irreversível no desenvolvimento mental da criança. No entanto, se descoberta nos primeiros dias de vida do bebê, pode ser tratada com a introdução de uma dieta especial. A criança fica proibida de comer vários alimentos pelo resto da vida, mas terá um desenvolvimento normal.
Já o hipotireoidismo congênito é uma deficiência na produção do hormônio da tireóide. A tireóide é uma glândula que comanda todo o metabolismo do organismo. Quando funciona mal, torna o funcionamento dos órgãos muito lento, atrasando o crescimento e desenvolvimento da criança. Da mesma forma que a fenilcetonúria, quando descoberta precocemente, o bebê passa a receber um medicamento que equilibra e normaliza esse funcionamento.
Os especialistas entrevistados ressaltaram que o desenvolvimento da criança no primeiro ano de vida é extremamente rápido e qualquer deficiência trará graves conseqüências. Por isso, eles foram unânimes em afirmar que, se o tratamento para estas doenças não for iniciado logo no primeiro mês de vida do bebê, as seqüelas serão inevitáveis. E, depois destas seqüelas estarem instaladas, mesmo que o tratamento seja iniciado e paralise a evolução do problema, as seqüelas não poderão ser recuperadas.
A única forma de garantir que o desenvolvimento do bebê seja normal é fazer o diagnóstico precoce. Esse diagnóstico só pode ser feito através do teste do pezinho.
O teste
O exame do pezinho deve ser realizado entre o terceiro e o sétimo dia de vida do bebê. Se o parto correu bem e ele teve alta do hospital antes disso, a mãe deve levá-lo a um posto de coleta e solicitar o teste, que é gratuito e obrigatório, por lei (leia no boxe). Em Bauru, ele pode ser realizado no Laboratório do Teste do Pezinho da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae).
De acordo com a bioquímica responsável pelo Laboratório, Karla Panice Pedro, a coleta deve ser feita a partir do terceiro dia para que o organismo tenha tempo de apresentar as deficiências. No caso da fenilcetonúria, por exemplo, a fenilalanina é encontrada em abundância no leite materno. Então, a criança mama normalmente durante dois dias. Se ela tiver alguma alteração no metabolismo desta substância, isso já poderá ser percebido no sangue coletado a partir do terceiro dia de vida. O mesmo acontece com a falta do hormônio de tireóide, que torna o metabolismo lento já nos primeiros dias.
A coleta é feita em poucos minutos. A mãe, ou uma enfermeira, segura o bebê como se ele fosse arrotar, ou seja, de pé, com as costas voltadas para quem vai colher o sangue. Segundo a equipe da Apae/Bauru, esta posição favorece o aumento do fluxo sangüíneo para os pés da criança, tornando a retirada do sangue mais fácil e rápida.
Então, é feita uma massagem no pé do bebê para estimular ainda mais o fluxo. O pezinho é desinfetado e é feito um furinho com uma lanceta descartável. É o momento em que o bebê chora, partindo o coração da mamãe. Alguns lugares fazem a punção com agulhas, que são mais baratas. Mas a lanceta tem um formato que impede que haja uma penetração maior que a necessária, protegendo outras estruturas do pé, como os nervos, ressaltam membros da equipe.
Uma massagem faz com que o sangue saia por aquele furinho. Um papel especial vai absorvendo o sangue. Este papel, juntamente com a ficha da criança, é encaminhado ao laboratório. Em Bauru, quando é feito pela Apae, o resultado sai em aproximadamente sete dias.
Se o resultado apontar alguma alteração, é feita uma nova coleta e um novo exame. Se a alteração persistir, faz-se mais um exame a partir do soro sangüíneo. Isso, até confirmar realmente o problema, demora cerca de 20-30 dias. Só então é iniciado o tratamento. Por isso, é especialmente importante fazer o exame ainda na primeira semana de vida do bebê. Se a criança fizer o primeiro exame no terceiro mês de vida, um tratamento só seria iniciado no quarto mês. Sabemos que, a partir do terceiro mês, as doenças já deixaram seqüelas, explicou a pediatra Marisdalva Viegas Stump.
Legislação
Em 14 de novembro de 1983, o Governo do Estado de São Paulo aprovou uma Lei Estadual obrigando maternidades e hospitais a oferecer o teste do pezinho para todos os recém-nascidos. A determinação desencadeou uma mobilização em outros estados, até que, em 13 de julho de 1990, o teste tornou-se nacionalmente obrigatório pela Lei Federal 8069, instituída por meio do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Os hospitais e demais estabelecimentos de atenção à saúde de gestantes, públicos e particulares, são obrigados a (...) proceder a exames visando ao diagnóstico e terapêutica de anormalidades no metabolismo do recém-nascido, bem como prestar orientação aos pais - Artigo 10.º, inciso III do ECA.
Com isso, o Sistema Único de Saúde (SUS) passou a ser obrigado a oferecer, a todas as crianças, o exame do pezinho para diagnóstico da fenilcetonúria e do hipotireoidismo congênito.
O teste também é capaz de identificar outras 30 doenças, aproximadamente. No entanto, as demais deficiências apresentam sintomas, de modo que o pediatra pode percebê-las. A obrigatoriedade para fenilcetonúria e hipotireoidismo deve-se, exatamente, à ausência de sintomas iniciais. Elas agem silenciosamente, deixando graves e irreversíveis seqüelas.