08 de julho de 2026
Geral

Discriminados pelo endereço

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 8 min

Junto com a condição sócio-econômica-cultural, o endereço de um cidadão tanto pode ser motivo de satisfações quanto de frustrações. Infelizmente, ainda hoje muitas pessoas são vistas pelo que têm, pelo que sabem ou por onde residem e não pelo seu valor enquanto ser humano. Por mais que barreiras discriminatórias tenham sido superadas, os exemplos de pessoas injustiçadas por preconceitos de toda ordem podem ser encontrados amiúde.

Comunidades lutam contra a segregação

Apesar de recriminados pela sociedade, bairros taxados de violentos têm muito a se orgulhar de seus moradores, que brigam incansavelmente para conquistar a mais que justa dignidade

Só mesmo quem mora nos bairros mais recriminados de Bauru sabe dos problemas enfrentados no cotidiano. A imensa maioria que trabalha incansavelmente em busca de uma vida melhor é confundida sem cerimônias com pessoas de má índole e violentas, mas nada melhor que um dia após o outro para derrubar preconceitos e famas injustos. Os moradores do Parque Jaraguá e do Núcleo Fortunato Rocha Lima são, inegavelmente, os que sofrem a maior discriminação: os primeiros porque estão no bairro tido como o coração da criminalidade, os segundos porque conseguiram superar a crítica condição de favelados.

Para falar da problemática do Jaraguá, nada melhor do que Aparecida Brito Caleda, a Cidinha, líder comunitária várias vezes presidente da associação de moradores do bairro e um dos ícones da Zona Noroeste da cidade. No Jaraguá há 38 anos, ela bate no peito para externar o orgulho de morar no local e não suporta atitudes contrárias a essa. Quando eu era menina, as colegas de escola mentiam que moravam na Nova Esperança. Eu nunca escondi meu endereço e sempre que podia desmentia elas. Eu tenho é muito orgulho desse bairro, onde tenho, junto com minha família, um respeito enorme. E foi por causa da luta em prol do bairro que eu me tornei respeitada na cidade, envaidece-se.

Mas nem tudo sempre foi flores na vida da azulona (referência ao codinome do bairro azulão do morro). Quando entrou para o movimento popular, há mais de 15 anos, ela passou por momentos de revolta e lançou críticas à imprensa, que, segundo ela, contribuiu muito para reforçar o estigma negativo até hoje existente. Quando eu via alguma coisa ruim escrita ou ouvia alguém dizendo que no Jaraguá só morava bandido, saía brigando mesmo. É claro que temos problemas, mas o povo honesto não pode pagar pelos outros que não são, não é mesmo?, ponderou. As coisas no Parque Jaraguá (infra-estrutura) melhoraram bastante nos últimos anos, inclusive os índices de criminalidade, mas os efeitos negativos teimam em assombrar os moradores. Cidinha lamenta, por exemplo, a recusa de pizzarias do Centro no atendimento de pedidos - pizza só se for de algum estabelecimento daquela região - e a falta de empregos. É difícil alguém aceitar currículo de morador do Jaraguá, afirma.

Com o passar do tempo, Cidinha acha que o preconceito da sociedade bauruense em relação ao Jaraguá vai acabar. O vaticínio tem a ver com algumas conquistas do bairro nos últimos anos, particularmente com a Escola de Samba Azulão do Morro, que de bloco galgou rapidamente a condição de escola e vem fazendo bonito no Carnaval. A escola é nosso grande orgulho, porque é uma conquista única que eleva o nome do bairro de uma maneira muito positiva. É uma alegria que só cabe a nós, porque não recebemos qualquer tipo de assistência pública que valorize o bairro, disse, em tom de protesto, adiantando que o samba-enredo da escola para 2002 vai falar justamente desse esquecimento do poder municipal.

Mais sofridos do que a população do Jaraguá são os moradores do Núcleo Fortunato Rocha Lima, criado há mais de seis anos para erradicar as favelas da cidade. Estes, realmente, estão à margem da assistência do poder público. Sem asfalto, sem escritura dos imóveis regularizada e estigmatizado pela condição de favela de concreto, o bairro concentra um grande número de desempregados - estima-se 40% dos aproximados 2.000 habitantes - e sofrem com a marginalização.

Ninguém dá emprego para morador do Fortunato, não. A maioria que mora aqui e que trabalha conseguiu serviço mentindo o endereço. A situação é triste mesmo. No começo, os problemas existiam sim, mas hoje as coisas estão bem mais tranqüilas. O problema é que a fama ficou e isso só tem servido para afundar o bairro. O abandono do poder público está facilitando a ocupação irregular de uma área vizinha, onde uma nova favela está nascendo. Nós viemos para cá em busca de qualidade de vida, mas as coisas estão piorando, reclama Ivani de Oliveira Pires, presidente da Associação de Moradores do Fortunato.

No momento, a entidade de bairro tenta junto ao Ministério Público uma ação para impedir a ocupação indevida da gleba e, conseqüentemente, uma maior atenção da administração municipal, o nosso último recurso, tão grande é a nossa descrença. Ivani planeja começar a mudar a imagem do núcleo a partir de programas de lazer - o forró que existia aos fins-de-semana chegou a reduzir a criminalidade em 90% - e projetos de ensino profissionalizante destinado aos maiores de 14 anos. Não queremos ganhar roupa e cesta básica, mas ter condição de trabalhar, salienta a líder comunitária.

Para isso, entretanto, é necessário a oferta de empregos. De acordo com Ivani, as portas se fecham para os moradores do Fortunato. A única firma que não faz questão de contratar a gente é o Mondelli. Em casa de família, só quem mente o endereço consegue serviço. Graças a Deus, uma empresa (Equipe) se sensibilizou com a nossa situação e empregou umas 17 moradoras para fazer serviços gerais. Nós até que tentamos oferecer cursos de culinária e artesanato para as mulheres do bairro, mas quem é que tem cabeça para freqüentar um negócio desses com o filho pequeno e marido desempregado em casa passando fome?, questionou.

Dentre os questionáveis juízos de valores da sociedade, o endereço menos privilegiado talvez seja o mais velado deles, embora poucos admitam sua ocorrência. Quem habita os bairros mais periféricos e, conseqüentemente mais pobres, porém, conta que sofre ao bater às portas em busca de emprego e até ao solicitar serviços de entrega domiciliar ou de transporte. Conseguir um táxi ou mototáxi à noite para o Parque Jaraguá, Pousada da Esperança ou Núcleo Fortunato Rocha Lima, por exemplo, só com muita sorte e para quem realmente mora no bairro; visitantes nem pensar. Que tal pedir aquela pizza famosa do Centro? Sem chance. Esse é mais um dos raros prazeres tolhidos dos moradores dos bairros tidos como perigosos.

Algumas empresas de mototáxi consultadas não negam que descartem passageiros com destino ao Parque Jaraguá e, principalmente, ao Fortunato Rocha Lima (Desfavelamento). Elas alegam que atendem Bauru inteira durante o dia, mas se resguardam a partir de certa hora da noite. Tanto para assegurar a integridade do motoqueiro, como para preservar o patrimônio (no caso, a moto). Em alguns pontos desses bairros é perigoso circular à noite, porque a gente acaba sendo confundido com cliente à procura de droga. Se conhecemos a pessoa e o lugar onde vamos, é mais sossegado, mas o melhor é não ficar se arriscando, disse F.* (o nome do entrevistado foi preservado), mototaxista e sócio-proprietário de um dos pontos da região central.

O mesmo cuidado também é tomado por taxistas, mas estes não são tão requisitados por conta do preço da corrida. Eu quase nunca atendo cliente que vai para o Jaraguá, Santa Edwirges, Ferradura Mirim, esses bairros mais pobres. Não é todo mundo que pode pagar a corrida de táxi, ainda mais à noite, quando a bandeirada é mais cara. Quando aparece, eu atendo, sim, porque não dá para ficar escolhendo cliente, mas antes eu pergunto se é morador, porque assim o respeito com a gente é maior. Não gosto de levar pessoas para fazer função (comprar drogas). Quando a cara do sujeito também deixa suspeita, eu prefiro dizer que não trabalho na área, confessou um antigo motorista que atua em uma das transversais da avenida Rodrigues Alves. Tenho colega que já foi assaltado, informou depois para justificar a atitude.

Apesar de solicitarem o anonimato, taxistas e mototaxistas confirmaram o zelo ao prestarem serviços a clientes residentes em bairros vinculados à violência, o que já não aconteceu com atendentes de algumas pizzarias consultadas pelo JC nos Bairros. Segundo afirmaram, não há qualquer restrição à área de entrega domiciliar, informação esta prontamente contestada por clientes não atendidos. Eu estou cansado de ligar para as pizzarias do Centro, que funcionam todos os dias até tarde da noite. Quando a gente dá o endereço, eles logo vão falando que a pizzaria está fechando, mas isso acontece às 10 da noite. Ou seja, eles discriminam a gente por causa do bairro. Às vezes, a gente chega a fazer o pedido, o que confirma que a casa está aberta, mas é vetado na hora que eles pedem o endereço, testemunhou um morador da avenida Gabriel Rabelo de Andrade, uma das principais e de mais fácil acesso do Parque Jaraguá.

Os moradores do Fortunato Rocha Lima, núcleo que se formou há seis anos da união das favelas então existentes na cidade, também alegam enfrentar problemas discriminatórios. No caso deles, porém, onde a pobreza é uma das mais evidentes no município, a questão que mais incomoda são as portas fechadas para o emprego. A associação de moradores do núcleo estima que 40% das pessoas ali residentes estejam hoje desempregadas e com rendas informais abaixo de um salário mínimo por mês. Por concentrar ex-favelados, migrantes com sonhos frustrados de progresso pessoal e familiares de presidiários, o local vive o completo abandono do poder público e seus habitantes chegam a enfrentar o que vem se convencionando de apartação social. Uma injustiça que abala profundamente a imensa maioria de seus moradores que sempre lutou honestamente para melhorar de vida.

E é dessa imensa maioria de pessoas honestas que os bairros negativamente taxados pela sociedade são formados. A constatação é da 3.ª Companhia da Polícia Militar, responsável pelo policiamento das regiões mais pobres de Bauru. Estatisticamente, aliás, a criminalidade nesses pontos é menor do que a verificada em locais tradicionais e, em tese, mais estruturados socialmente.