08 de julho de 2026
Geral

Réquiem por ACM

(*) Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Morreu o último remanescente do coronelato político brasileiro - Antônio Carlos Magalhães. Figura plural e poliédrica, com matizes variados, mas acima de tudo essencialmente um político e como tal insondável. Desde 1964, avizinhou-se do Poder e nele agarrou-se como a perereca do brejo na última ramada disponível em noite de tempestade. Conseguiu aproveitar as benesses dos tempos de ditadura ao atravessar na barca de grande boca e pouco calado os períodos Castelo Branco, Costa e Silva, Três Patetas, Garrastazu Médici, Geisel, .... (aquele que pediu para que o esquecessem, e eu esqueci), Sarney, Collor e o primeiro governo FHC. Que grande artista o mundo vai perder!

Dizia Mirabeau, figura exponencial da Revolução Francesa, que os políticos seriam magníficos animais, dotados de esplêndida fisiologia. Mirabeau exaltava as virtudes dos defeitos - um falso paradoxo em se tratando de política - pois entendia que sem eles não se poderia exercer o poder com alguma eficiência. Deus precisa do Diabo tanto como o Diabo precisa de Deus. Se o Diabo não existisse, Deus seria dispensável. E se Deus não existisse, o que seria do Diabo?

Assim ACM é visto. Ora Malvadeza, ora Ternura. O mito ACM é teologicamente dilemático: uma forma híbrida de anjo e demônio, de herói e bandido, capaz de atrair amores sem fim e ódios eternos. Em seu luminoso ensaio sobre os arquétipos políticos, Ortega y Gasset desfaz equívocos freqüentes por parte daqueles que fazem uma leitura simplista de Maquiavel e acham que político ideal seria um homem que, além de grande estadista, fosse também uma boa pessoa. Ledo engano. Para o filósofo espanhol só seriam grandes políticos os que têm missão criadora e grandes defeitos.

Volto a ACM. Seu ato de renúncia foi menos patético e contundente do que se esperava. Mesmo em momentos tensos e dramáticos, prevaleceu a modulação do político. Uma no cravo, outra na ferradura, como recomendam os exus assimilados nos ritos afro-baianos.

Eu não nasci César e nem em César os Brutos (brutos) vão conseguir me transformar. Deixo-os antes da traiçoeira punhalada final - foi a figura de retórica de ACM em seu discurso de renúncia. Chinfrim. O clichê sequer serve como paródia. Brutus salvou a República romana daquele que queria ser ditador. Colocou o Estado grego acima dos seus deveres de filho adotivo. Assim morrem os tiranos. ACM junta-se aos poderosos de ontem que, por se acreditarem acima do bem e do mal, acabaram enterrados vivos pela indignação da consciência coletiva. Zumbis da vida pública nacional. Estão sempre prometendo voltar para assombrar o povo. Misturas insossas de prepotências obsoletas, confissões tardias e falsos arrependimentos. E são tantos no Brasil de hoje. A legião aumenta a cada dia: Collors, Ibsens, Genebaldos, Joões, Luízes, Nicolaus, Izzos. A estes vão fazer companhia agora, resmungando, os senhores Arruda e ACM. Esperem pelo Jáder e por outros varões da nossa elite política.

Mas é preciso cuidado. Eles podem de fato ressurgir numa sociedade inorgânica como a nossa. Na Idade Média, passavam uma pena no nariz do morto; friccionavam as gengivas com alho; ou untavam os corpos com sucos de cebola e raízes fortes que levassem os mortos presuntivos a espirrar. Era a forma de ter certeza de que não mais se levantariam do pinho derradeiro.

Alguém mais radical poderia propor a volta do atiçador flamejante inventado por Antoine Louis, cientista francês do século XVIII. Na prática uma engrenagem complicada que funcionava com um fole para impulsionar fumaça de tabaco vinda de um braseiro e conduzida por cânulas para o reto do cadáver. Não havia morto-vivo capaz de resistir. Nada disso é preciso. O verdadeiro clister de ACM haverá de ser o próprio povo baiano a partir das urnas quando tentar o retorno. Até lá, mangalô três vezes.