Em um dos bairros da cidade de Munique, uma igreja católica e uma igreja luterana não somente estão bem próximas, mas suas comunidades caminham juntas.
Uma vez por mês é realizada uma celebração ecumênica, na qual as duas comunidades reúnem-se para rezarem juntas. Esta celebração é feita na igreja católica e na igreja luterana alternadamente. O padre católico e o pastor evangélico fazem juntos, todos os anos, um retiro espiritual, e as duas comunidades utilizam o mesmo centro comunitário para catequese, encontro de jovens e outras reuniões. No ano passado, celebrei algumas missas em uma paróquia nos arredores de Stuttgart. A paróquia possui em seu território três pequenas cidades. Em uma delas, porém, não existe uma igreja católica, portanto a comunidade luterana empresta sua igreja à comunidade católica para que esta possa celebrar a missa. Assim, eu celebrava, aos sábados, uma missa católica na igreja luterana daquela cidade. Todos os domingos, é transmitida pela televisão estatal alemã ZDF, uma celebração religiosa.
O programa é financiado, em conjunto, pela igreja católica e pela igreja evangélica. A transmissão é sempre alternada. Se em domingo é transmitida uma missa católica, no próximo domingo é apresentado um culto evangélico. Em um dos mosteiro da Baviera, o mosteiro de St. Otilien, os monges beneditinos mantém um diálogo com monges budistas de diversos países da Ásia. Neste mosteiro a meditação Zen faz parte da caminhada espiritual dos monges beneditinos. Além disso, o mosteiro recebe regularmente a visita de monges budistas que desejam conhecer melhor a espiritualidade cristã e a regra de São Bento. Na semana passada, na catedral católica de Freising, foi rezada Vésperas ecumênicas. Uma hora de oração onde estiveram presentes católicos, evangélicos e ortodoxos. O bispo católico, o patriarca ortodoxo e o bispo evangélico presidiram este momento de oração. Em um outro bairro de Munique, o padre católico e o pastor luterano trocam, uma vez por mês, de igreja. Ou seja, o padre católico faz, para a comunidade evangélica, a pregação no culto dominical, e o pastor evangélico faz, para a comunidade católica, a homília na missa do domingo. Um amigo indiano explicou-me, certa vez, que na Índia, a igreja católica utiliza, em sua liturgia, vários elementos do hinduísmo, e que os hindus simpatizam-se tanto com os cristãos que chegam até mesmo a festejar com eles o Natal.
O pluralismo caracteriza a sociedade moderna em sua diversidade de grupos sociais, forças políticas e religiosas. As sociedades antigas possuíam um universo social fechado. Nelas, os valores eram limitados e não ofereciam possibilidades de escolha. Caso alguém não os seguisse deveria ser morto ou expulso do universo social. Com o desenvolvimento tecnológico as fronteiras culturais foram derrubadas e os povos iniciaram um processo de encontro e de conhecimento mútuo. Hoje vivemos em um mundo globalizado onde o encontro das diferentes culturas é inevitável. A objetividade de diversas tradições culturais foi destruída e o relativismo tornou-se a tendência mais forte. Assim, o homem encontra-se em uma liberdade que exige maturidade para escolher o que deseja, pois a sociedade moderna não oferece mais a segurança infantil de um autoritarismo. Nesta liberdade cada ser humano possui o direito sagrado de pensar e entender a realidade conforme suas convicções, desde que estas não coloquem em risco o único critério que podemos denominar de absoluto: a vida e a dignidade humana.
Nesta diversidade cultural, a sociedade moderna oferece-nos também o pluralismo religioso. Ao mesmo tempo que podemos aprender com outras culturas, o encontro entre as diversas religiões torna-se uma chance de aproximarmo-nos deste ser Transcendente que chamamos de Deus. Se Deus existe mesmo, Ele é infinito e não pode ser esgotado pela razão humana. Por outro lado, as religiões não são somente a busca do homem a Deus, mas a revelação de Deus para o homem. Deus está presente em cada religião (deste que esta não signifique exploração ou sofrimento do ser humano!) agindo, assim, nas diferentes culturas. Todas as religiões são caminhos para Deus, e não há nenhum caminho que possa ser absoluto. Por possuirmos confissões diferentes, não é razão para vivermos separados ou em uma competição absurda que contradiz o princípio básico de todas as religiões: o amor a Deus e ao próximo. Muitas vezes, exigimos de Deus, que Ele esteja presente e atue, onde queremos ou que Ele seja exatamente como achamos que deve ser. Eu tenho a impressão que, quando morrermos, teremos uma grande surpresa. Como afirma Inácio de Loyola: Deus sempre é maior.
Deus é sempre maior do que podemos imaginar.
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(*) Especial para o JC Cultura