08 de julho de 2026
Geral

Namoro no escurinho

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 7 min

Comecei a namorar uma menina, numa época em que o, hoje comum, ficar, ainda não era muito praticado. A gente se sentava num banco que havia na garagem da casa dela e fechava a porta da sala, para não incomodar com a nossa conversa a mãe dela, que lá dentro via televisão. A luz era estrategicamente apagada para criar um clima mais aconchegante mas, mesmo assim, havia um facho que vinha de um poste que, para o meu azar, ficava bem na frente da casa, do outro lado da rua. Eu odiava aquele poste. Um dia, de madrugada, saí com uns amigos e paramos na frente da casa. Havíamos passado em uma construção antes e tínhamos um estoque de pedras portuguesas, daquelas quadradinhas, no carro. Quando a rua ficou deserta, começamos a disparar contra o poste e não saímos enquanto a lâmpada não se espatifou. Demorou uma semana para a companhia consertar o poste de novo. Enquanto isso, o namoro no banco da garagem nunca foi tão bom. Ninguém vai precisar bancar o vândalo e depredar os postes para namorar sossegado como fez o programador Gabriel *. Com a iminência dos apagões que podem começar ainda este mês, o namoro no escurinho é um dos maiores beneficiados. Opções para o que fazer é o que não faltam. Como diz a artista plástica Carla Motta, já que o apagão é inevitável, vamos aproveitar para ser românticos!

11 entre dez casais gostam de namorar à meia-luz. É muito mais gostoso, tem um clima mais misterioso, mais romântico, diz a estudante Susana Cantarelli. Para o também estudante e tímido confesso Carlos Henrique Tralli dos Santos, o escuro deixa o ambiente mais aconchegante, íntimo e traz até uma certa segurança, no seu caso. É mais fácil se aproximar de uma pessoa no escuro, é como se a falta de luminosidade funcionasse como uma proteção, explica.

Quem acha que a falta de luz tem tudo a ver com romance não pode reclamar da necessidade de poupar energia elétrica pela qual a população brasileira vem passando, nem do anúncio de que o País pode sofrer apagões controlados. Acho que pode ser difícil agüentar ou pode até mesmo ser perigoso mas, com certeza, para namorar vai ser bom, acredita a telefonista Kathleen Soares. Quem não gosta de jantar à luz de velas, emenda. E não só o jantar pode ser aproveitado nessa época de pouca luz. Existem algumas opções de programas a dois que não requerem energia elétrica para ser bem aproveitados. E melhor, eles podem ser feitos juntos, um após o outro, ou não.

Sob a luz do luar

O racionamento de luz torna as estrelas mais visíveis a olho nu no céu das cidades. Segundo o gerente de marketing da Victorinox do Brasil, Roberto Freitas, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, nos últimos 20 dias aumentou muito a procura por binóculos e lunetas no País. Isso é sinal que muitas pessoas já perceberam que o apagão pode trazer um espetáculo gratuito do universo, que são os corpos celestes a todos, inclusive os namorados. É uma ótima pedida namorar à luz das estrelas e da Lua, é super-romântico, diz a balconista Alice M. Sanches que diz já fazer isso nos dias normais, quando as luzes dos postes ficam acesas. Se houver mesmo apagão eu vou gostar muito, afirma.

Uma boa dica é encontrar um local seguro para levar o par e esquecer o relógio. Um livro com mapas sobre constelações pode ser uma boa ajuda para quem deseja aprender um pouco, pelo menos por cinco minutos...

Show particular

Ouvir música no som do carro (de CD ou fita, já que as rádios também vão ficar sem energia) pode ser uma opção. Mas ouvir o namorado ou namorada cantando pode ser muito melhor. Quem tiver alguma habilidade musical pode criar um grande clima romântico de serenata particular escolhendo um repertório adequado (de preferência, que seja do gosto da cara metade).

Cardápio romântico

Na luz, a combinação queijo e vinho já é campeã nos encontros românticos. À meia-luz pode ser melhor ainda. A dica é comprar pelo menos seis tipos diferentes de queijos brancos (brie, camembert, gorgonzola, roquefort) e amarelos (gouda, emmenthal, provolene, parmesão) e montar uma tábua de queijos que podem ser acompanhados de vinho branco ou tinto, dependendo da preferência da pessoa (os cabernet e cabernet-sauvignon podem ser boas pedidas). O recomendado é experimentar os queijos suaves e mais moles primeiro, depois os mais duros e com o sabor mais acentuado. Para completar o cardápio, frutas secas ou maçãs e pêras também podem ser levadas para adoçar um pouco o paladar.

Outra opção gastronômica que combina com meia-luz é o fondue, uma mistura de queijos amarelos que é cozida em vinho e pode ser apreciada com torradas. Os aparelhos (aquela panelinha especial) de fondue podem ser usados em qualquer lugar, independente da energia, e, para facilitar, a mistura ideal de queijos pode ser comprada em qualquer supermercado, é só fazer.

Luz especial

Para criar um ambiente de meia-luz ideal durante o apagão, é claro que velas serão necessárias. Para não esquecer do clima romântico, as velas aromáticas são muito melhores do que aquelas brancas comuns que podem ser encontradas em qualquer mercado. Segundo a artista plástica Carla Motta, que faz velas artesanais, as cores e os aromas das velas são muito importantes influenciar o ambiente. Se a pessoa quer algo sensual, deve acender velas vermelhas, se quiser algo mais romântico, deve escolher as tonalidades rosas, ensina. Os aromas preferidos devem ser o jasmim, a canela e o ilangue-ilangue, que são tidas como afrodisíacos.

Caso não haja uma vela aromática por perto, os bons fluidos para o amor ainda podem ser invocados pelo uso dos incensos com os mesmos aromas afrodisíacos das velas citadas. Carla Motta ainda recomenda que pétalas de rosas brancas decorem o local onde o casal vai estar. Elas ajudam a perfumar o ambiente e ainda fazem bem para a auto-estima, garante.

Em outros tempos...

... não havia risco de apagão mas o escurinho era muito mais que bem-vindo, era necessário para que o namoro se desenrolasse bem. O único escurinho garantido era o do cinema, por isso essa era uma das diversões favoritas de quem namorava na minha época, conta o professor aposentado Luis Carlos Coelho. A época a qual ele se refere é a metade dos anos 50 até o início dos anos 60. Fora o cinema, só haviam os bailes, mas era no cinema que a gente podia abraçar, beijar a namorada sem que ninguém visse, relembra. Ou, pelo menos, quase ninguém. Tinha o lanterninha que atrapalhava e, às vezes, algum parente, irmão, primo, que ia ver o mesmo filme, conta. A tática usada pelo professor e pela então namorada, hoje esposa, era ver o mesmo filme repetidas vezes. Não sei quantas vezes vi Ben-Hur, no cinema, acho que umas quatro. Os meus filmes favoritos eram os épicos, porque tinham sempre quase três horas de duração, revela.

Aproveite o apagão para namorar

Como deixar o namoro mais romântico no apagão

Lua e estrelas - Existe programa mais romântico do que namorar à luz da lua e das estrelas? Com a cidade no escuro, o céu deve revelar mais estrelas do que se imagina. Quem quiser impressionar o (a) companheiro (a) pode até estudar alguma coisa sobre as constelações antes.

Umplugged - Como não vai ser possível ligar o som (a não ser o dos carros, claro!). Usar a habilidade com o violão pode ser uma opção interessante. Quem não gosta de um show acústico particular?

Queijo e vinho - Outra combinação para lá de romântica que não requer muita produção. O famoso fondue, que fica mais popular agora no frio também é uma boa pedida.

Luz perfumada - Uma vela aromática ou um incenso podem fazer do apagão de 2001 inesquecível. Além de iluminar o ambiente na medida certa, o perfume exalado pela vela pode trazer bons fluidos para o romance.