08 de julho de 2026
Geral

Mutirão Nacional de Limpeza

(*) Gaudêncio Torquato
| Tempo de leitura: 2 min

A violação do painel eletrônico do Senado não pode ser considerada um acidente imprevisível. Ao contrário, era perfeitamente previsível se levarmos em consideração a metástese que assola o sistema político em todos os níveis - nos municípios, nos Estados e na representação federal. Quem já não ouviu falar de violações de urnas, corrupção eleitoral, manobras eleitoreiras em praticamente todos os Estados da Federação? Quem não conhece a ladroagem que ronda os espaços políticos em todos os quadrantes do País? O assombro com o episódio do Senado se dá porque figuras de alto coturno estão sendo objeto de investigação. Quem diria que um dos mais poderosos políticos da República, o ex-líder do PSDB no Senado e o próprio presidente da instituição poderiam ser alvo de acusações, que implicam ameaça de perda dos próprios mandatos? Esse é o motivo de tanta estupefação.

Fosse um zé-ninguém, um vereador de Riacho de Santana, a violar a urna dos votos para cassação do adversário Chico das Onças, os alicerces políticos continuariam sólidos. Ocorre que o edifício político tem as bases fincadas nos tijolos das representações municipais e estaduais, para alcançar, em cima, o topo da representação federal. Esta é a diferença.

Antes de qualquer avaliação precipitada, vamos logo afirmando que não é intenção subavaliar a violação do painel do Senado. Trata-se, inegavelmente, de um dos mais graves eventos da história do Parlamento. Mas não pode ser considerado um episódio isolado da cultura política. O comportamento aético, ilegítimo e ilegal de autoridades públicas, que violam as normas a fim de satisfazer interesses particulares, é uma prática generalizada. Faz-se presente em todos os níveis da administração.

Se o episódio de Brasília, pelo perfil e força dos atores envolvidos, provoca tanta estupefação, que se aproveite a deixa para passar o Brasil a limpo. Como? Mobilizando-se as entidades da sociedade civil, criando-se uma articulação entre elas, nos vários Estados, abrindo-se a locução de denúncias, ampliando-se os raios de observação, multiplicando-se os pólos de irradiação de idéias e de consciência crítica, semeando-se a planta da indignação. O poder da opinião pública e a pressão sobre o sistema político serão fundamentais para a consolidação de uma cultura ética, que já vem se enraizando na sociedade, desde o impeachment de Collor. Uma formidável esfera privada, com sólidas ramificações no universo das entidades intermediárias, funciona como paredão de pressão sobre a esfera pública.

O evento senatorial abrirá um novo tempo para o Congresso. Se não cortar a própria carne, o Senado terá fatalmente seu corpo fatiado, nas próximas eleições, pela lâmina afiada de um eleitor cada vez mais enojado. Se não chegar à verdade, o Senado estará produzindo um ato tão maléfico quanto o ilícito cometido. No Espírito das Leis, Montesquieu alertava: quando uma República está corrompida, não se pode remediar nenhum dos males que nascem, a não ser eliminando a corrupção e voltando aos princípios; qualquer outra correção ou é inútil, ou é um novo mal.

(*) Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político. E-mail: gautorq@dialdata.com.br