08 de julho de 2026
Geral

Lula vê vários candidatos de esquerda

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

A indicação da candidatura de Anthony Garotinho (PSB) surge como confirmação de que a esquerda terá vários presidenciáveis

Os teoricamente de esquerda podem fazer quatro candidatos a Presidente da República no Brasil. A avaliação de que dificilmente será possível uma candidatura única de esquerda no Brasil é do presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva. afirmação do presidenciável combina com a indicação feita pelo governador do Rio de Janeiro (RJ), Anthony Garotinho (PSB), de que também ele poderá participar da eleição de 2002. Vendo que a possibilidade do bloco de esquerda ter um único candidato está cada vez mais distante, Lula já está ensaiando um acordo para o segundo turno. Ele diz que se os candidatos teoricamente de esquerda tiverem responsabilidade e juízo deixam uma porta aberta para o apoio a quem for para o segundo turno. Leia os principais pontos da entrevista coletiva concedida por Lula em visita a Botucatu (SP), ontem:

JC - A candidatura única de esquerda parece cada vez mais distante agora, com o discurso do Garotinho?Lula - É muito difícil imaginar um único candidato de esquerda. Até porque, o mais importante partido de esquerda no Brasil hoje é o Partido dos Trabalhadores e certamente é um partido que terá candidatura própria. O PT não discorda e não se imporá aos partidos que tenham candidatos. Afinal, o PT se constituiu pela sua teimosia, ousadia em lançar candidaturas próprias quando muitos achavam que não era o momento. Acho um direito o PPS, o PSB ter candidato, o Itamar ser candidato. Isso é democrático e é importante para consolidar a participação política da nossa sociedade. Como político vejo que o governo não tem candidato, com todo seu bloco de sustentação, e que existem teoricamente quatro candidatos de esquerda. Se tivermos cuidado, se tivermos juízo, se não der para fazer aliança no primeiro turno, temos que deixar uma porta aberta para que isso ocorra no segundo turno. A oposição tem condições de ganhar as eleições. Os quatro candidatos têm hoje mais de 67% das intenções de voto. O PT, dentro da oposição, tem toda a condição de fazer o vencedor. Mas nós temos que ter cautela para não permitir que a direita ganhe de novo.

JC - Qual será o tom da campanha em 2002?Lula - Nós queremos fazer uma campanha em que a ética não seja uma questão secundária. O combate à corrupção se faz necessário porque nós precisamos colocar o fim da impunidade deste País, para que o povo recupere a auto-estima. Ao mesmo tempo nós temos agora uma crise que não estávamos esperando na gravidade em que ela veio, até porque em 1995 nós denunciávamos a tentativa de vender as energéticas. Isso não é culpa de São Pedro. É culpa da equipe econômica que preferiu mandar dinheiro para fora do que investir na transmissão de energia, em nova geração. Ao mesmo tempo precisamos de um programa que leve em conta a política industrial, a política de desenvolvimento, a regionalização. Estamos carregando as baterias neste momento.

JC - O senhor falou em quatro candidatos teoricamente de esquerda. Quem é só teórico nesse grupo?Lula - Veja, eu não gosto de fazer julgamento. Você tem candidaturas hoje que são de dissidentes. O Itamar é um dissidente do grupo que apoiou o FHC, o Ciro Gomes também. Isso não implica que eles não possam fazer uma campanha efetivamente de oposição. Mas o que me assusta é alguém estender a mão ao Antonio Carlos Magalhães. Agora ele virou oposição, então?

Imprensa - Ele tirou o chapéu para você em um programa de TV?Lula - E tinha que tirar, porque, modéstia à parte, ele deve ler jornal todo dia e nesses 20 anos eu tenho tentado ser coerente com aquilo que são os princípios do meu partido. Agora ele tirar o chapéu não aumenta uma vírgula no meu currículo. Eu já ganho dele sem precisar tirar o chapéu, desde 1989. Ele sabe disso. Agora, você veja que mesmo batendo muito no FHC ele não perde a possibilidade de voltar se precisar do governo. É esse tipo de gente que eu dúvida do comportamento político ideológico deles. Ganha a eleição aquele que se apresentar com mais objetividade à sociedade, porque os problemas do Brasil não são de fáceis soluções.

JC - O deputado José Genoíno vê risco se houver prévia no PT?Lula - A prévia é um instrumento aprovado pelo PT em um congresso em São Bernardo do Campo (SP), em 1991. É proposta minha. Fizemos isso porque estávamos cansados de convocar os delegados ou militantes do partido para fazer uma convenção onde muitas vezes saía briga e metade dos filiados não participavam. A prévia é um instrumento onde mais pessoas participam da decisão. O problema que estamos vivendo hoje é que eu não sou candidato de mim mesmo. Não quero e não posso ser candidato sozinho. Eu só posso ser candidato se o partido estiver convencido que isso é melhor neste momento. Se o partido não entender assim serei cabo eleitoral de quem for escolhido com a mesma força. A diferença é que qualquer militante do PT pode pleitear candidatura.

JC - Então, como o senhor viu a crítica do Brizola a uma quarta candidatura do senhor à presidente?Lula - Acho que o Brizola tem razão de nos criticar. Ele chegou aqui em 1980 achando que era o futuro Presidente da República. Porque passaram-se 20 anos e o PT é o maior partido de oposição e o dele acabou. Porque nós somos coerente, fazemos política justa. O importante é que muitas pessoas desaparecem da política sem se manter. O PT, embora tenha perdido três eleições nacionais, continua sendo o partido que mais cresce em São Paulo e no Brasil. E ninguém pode se incomodar, porque não é mérito pessoal. O partido provou sua competência para administrar e tem os melhores quadros políticos desse País. Ele se incomoda. É por isso que chegou a vez do PT, porque vamos continuar incomodando. Mas as pessoas de bem não ficarão incomodadas.

JC - Como você viu a posição do Itamar Franco de não aceitar o racionamento?Lula - Em Minas Gerais o povo está participando do racionamento como em qualquer ponto do País. O que o Itamar disse é que ele não vai sobretaxar os consumidores que não atingirem as metas do racionamento. E ele está respaldado em algumas liminares do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele disse que se o STF reconhecer que deve fazer ele aplica. Eu prefiro a política do Olívio Dutra, governador do Rio Grande do Sul (RS). Em janeiro de 1999 ele sofreu 30 dias de falta de energia no Estado, porque herdou um governo falido na questão energética. Se gastou R$ 200 milhões para recuperar as transmissões, para se fazer novas linhas e para produzir outro tipo de energia, como por exemplo a termoelétrica, a energia de casca de arroz. E hoje o Rio Grande do Sul é um dos três estados do País que não precisam fazer economia, entretanto o Olívio Dutra disse que vai fazer porque ele faz parte do Brasil e acha que o seu Estado precisa contribuir com o restante do País.