07 de julho de 2026
Geral

Coordenar os choques

(*) Antonio Delfim Netto
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O governo solicita a compreensão dos brasileiros e o presidente foi à TV pedir a cooperação da sociedade para evitar o apagão energético. Compreensão está meio difícil mas todos teremos que colaborar, porque não há alternativa. A realidade é a seguinte: não há energia disponível. Precisamos cortar 20% do consumo e devemos estar preparados para um novo tarifaço que parece inevitável. E contar com uma boa precipitação pluviométrica no final do ano para evitar apagões não-programados, que seriam uma tragédia para a economia brasileira.

Infelizmente, o corte de energia não é o único fator de instabilidade na economia. O setor produtivo está sendo apertado pela incompreensão da política do Banco Central, que aumentou os juros e não coíbe a especulação desenfreada dos bancos no mercado cambial. A acumulação desses três fatores o corte de energia, a alta dos juros e a elevação da taxa de câmbio está tornando inviável a produção industrial. Criou-se um clima de incerteza e cresce a insegurança no meio empresarial. Significa que estamos destruindo todo o esforço realizado nos últimos dois anos na recuperação da economia.

O governo continua prisioneiro de uma política dedicada exclusivamente a manter o superávit fiscal primário, na tentativa de impedir o crescimento da relação Dívida/PIB. Mas a dívida interna voltou a crescer pelo efeito combinado da elevação dos juros e do câmbio. A dívida externa também cresce e aumenta o passivo externo líquido. São fatos que nos levam de volta a uma situação muito delicada, diante da perspectiva de queda na taxa de crescimento do Produto e dos níveis de emprego .

A inquietação aumenta quando se percebe que persistem falhas de coordenação na administração federal, que tem uma grande dificuldade em atacar os problemas na sua origem. A crise energética é resultado dessa descoordenação, pois os setores que tinham as informações não foram capazes de sacudir a letargia dos altos comandos antes que ela se consumasse. Nos últimos quatro anos e até um pouco antes não faltaram estudos e advertências mostrando a disparidade entre o crescimento da capacidade instalada e o consumo de energia. Era evidente que tão logo o crescimento da economia se acelerasse iria faltar energia. Mas nada foi feito, a não ser a propaganda de projetos de construção de usinas, sem definição de recursos e sem delegar as responsabilidades por sua execução. Das 49 termelétricas prometidas há dois anos, apenas três foram construídas, uma já em funcionamento e outras duas que talvez sejam concluídas este ano. A Petrobras tem obras em andamento, mas com previsão de entrega no final de 2002. O atraso do programa de investimentos em termelétricas também se deve à falha do governo em não regulamentar até hoje a questão do custo dos insumos.

(*) Antonio Delfim Netto é deputadofederal pelo PPB-SP, professoremérito da USP - e-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br