09 de julho de 2026
Geral

Mulheres invadem clube do bolinha e compram "carrão"

André Tomazela
| Tempo de leitura: 5 min

As mulheres, que eram vistas como consumidoras de carros pequenos, estão invadindo o universo dos carros de grande porte, que ainda têm cerca de 70% de público masculino. A diferença é que elas escolhem o modelo pelo conforto, segurança e estabilidade que o carrão proporciona

De R$ 70 mil a R$ 100 mil. Quem pode desembolsar essa quantia para comprar um carro? Apenas os executivos. Observe a colocação do substantivo no masculino. Hoje em dia, no entanto, cada vez mais mulheres executivas e empresárias, contrariando as famosas pesquisas de que mulher gosta de carro pequeno, fazem questão de comprar um carrão, mas admitem que preferem os carros de grande porte mais discretos. Elas estão muito mais interessadas em carros que transbordem personalidade e conforto, do que naquele modelão esquisitóide que arranca olhares por onde passa. Já os homens executivos, quando vão comprar um carro, dão mais importância ao fator status/exibição e potência/competição, como apontam os revendedores.

O resultado disso é que modelos como o Volkswagen Passat, o Honda Accord, o Chevrolet Omega, o Chrysler Stratus, o Chrysler Caravan, entre outros, estão sendo muito requisitados pelas executivas e empresárias, que acabam invadindo o universo dos carros produzidos quase que exclusivamente para conquistar o público masculino, pinçando o seu ponto fraco: a megalomania. Mas a diferença está justamente no motivo pelo qual elas preferem um carro de grande porte. Com certeza não é para ficar exibindo por aí.

O motivo apontado pela maioria das mulheres que adquiriram esses carrões é o conforto acima de tudo, o espaço interno e a facilidade de manobra em função da direção hidráulica, a estabilidade e a independência na direção proporcionada pelo câmbio automático e os modernos autosticks: apenas um toque e a marcha muda automaticamente de acordo com a necessidade do carro. E como fazem parte da nova geração de mulheres independentes e auto-suficientes que, aliás, demorou para ser realidade na nossa sociedade machista por excelência, agora elas fazem questão de gastar bem o dinheiro que ganham em suas atividades profissionais.

É o caso da empresária bauruense e decoradora de interiores especializada em Feng Shui, Jacqueline Busch Duckur. Ela tem, atualmente, um Stratus V6 LX da Crhrysler. Eu sempre gostei de carro grande. O único carro pequeno que eu tive foi um Audi A3. Depois eu tive dois outros Stratus, antes desse atual, afirma Jacqueline.

O principal motivo apontado por ela para o gosto pelo carrão é a segurança e a estabilidade proporcionada pelo Stratus. Ele é confortável, tem segurança e tem uma estabilidade tremenda nas curvas. Você nem sente ele fazendo curva, comenta.

Jacqueline conta que escolheu o Stratus da Crhysler, primeiro pelo atendimento de qualidade oferecido na concessionária, e por achar que o modelo é uma mistura de esportivo com o clássico que combina com a sua idade e personalidade. Eu vou direto para São Paulo, pois o meu marido mora e trabalha lá. Na estrada eu exijo do carro e ele me responde bem e, quando eu quero viajar tranqüila, eu coloco no câmbio automático e vou despreocupada, comenta.

Os principais itens do carro que tornam Jacqueline uma consumidora satisfeita com o seu Stratus são o piloto automático, o câmbio hidramático e os air bags, que considera equipamento fundamental de segurança num carro. Hoje em dia, a Renault está vendo muito Clio em função de trazer o air bag como item de série, avalia.

Jacqueline revela também o que orienta uma consumidora na hora da compra. Segundo ela, comprar um carro só porque é bonito é bobagem. E coloca o test drive como indispensável na escolha do veículo, pois é o momento em que se avalia os benefícios em termos de conforto, estabilidade e segurança, itens que levam às consumidoras à decisão.

Jacqueline deixa bem claro, que mesmo gostando de carros grandes, não teria, por exemplo, um M 300, também da Crhysler por ser muito grande e chamativo. Eu acho o carro lindo, mas não tem nada a ver comigo, afirma.

A compra pelo conforto e pelo bom espaço é o que orientou a empresária do ramo de informática, Márcia Mesquita, que acha que o carro tem que refletir e agradar a pessoa e não aos outros. Esse negócio de ter carro por status não existe, afirma.

Ela e o marido cansaram-se de viajar apertados e decidiram pela compra de uma Chrysler Caravan. A van é perfeita para a família de Márcia, que possui três filhos ainda crianças e que necessitam de espaço no carro para uma viagem em família. É um carro confortável, ideal para as nossas viagens. Eu e meu marido decidimos juntos pela compra de um Crhysler porque ele já tinha tido outro carro da marca e gostou. E era um carro que a gente via e que tinha o desejo de comprar, comenta.

Apesar da escolha de uma van ter sido direcionada pela presença dos três filhos, Márcia revela que não concorda com a teoria de que mulher gosta de carro pequeno. Eu não gosto de carro pequeno, eu gosto de carro grande e não concordo com isso, comenta. E Márcia é o exemplo da mulher que toma conta do volante: quem mais usa o carro é ela e, nas viagens em conjunto com o marido, a direção é dela. Eu sou mais atirada no volante, gosto da velocidade, mas sou cuidadosa, comenta.

Concessionárias

As concessionárias bauruenses não estão preparadas para atender mulheres executivas, empresárias e, portanto, independentes na opinião de Jacqueline. Eu acho que ainda faltam concessionárias aqui na cidade, e as que estão aqui precisam se preparar mais. A cidade está defasada em termos de atendimento, afirma. Na opinião da empresária, quando a mulher chega numa concessionária para comprar um carro, o vendedor procura onde está o marido. A atitude, segundo ela, vem da concepção ultrapassada de que a mulher escolhe e quem compra é o marido, considerado como a fonte do capital. Hoje, as mulheres que já entraram no mercado de trabalho estão comprando carros com o dinheiro delas, independente de ter ou não um marido, afirma Jacqueline. Prova disso é a amiga da empresária, que é solteira, e comprou um Astra com sua própria fonte de renda. A mulher tem que passar a ser vista como público alvo e as concessionárias têm que descobrir isso, conclui.