08 de julho de 2026
Geral

INVERSÃO DE VALORES?

Luciano Jacon
| Tempo de leitura: 4 min

Deixar a mente vagar, devagar, divagar, livremente pelas tortuosas e doentias vizinhanças, trêmulas e tumultuadas que ladeiam nossas mentes desencorajadas! Essa quantidade de cérebros banais, fadados à ilusão, à transcendência, se satisfaz com muito pouco; porém, fedem, exalam horrores por intermédio da abençoada boca, criada por Deus para exaltarmos virtudes, propagarmos a fé, e que tem servido para o contrário, isto é, propagando vicissitudes, despreparos mentais, retardamento evolutivo...

Nossa mente abre pequenos orifícios em nossa cabeça, vai derrubando, fio a fio, todo nosso couro cabeludo e carcomido, ficamos carecas com o transcorrer do tempo, consumidos aos poucos, já que ela, semente de sabedoria, maniqueísta, ostentando o bem e o mal, garantindo o livre-arbítrio, não tem o domínio total sobre essa nossa cabeça animal, irracional, e saímos pelos arredores abrindo covas, perpetuando o mal, salvo momentos de êxtase, estopim de paixões, amizade, companheirismo, inseridos num grupo com picos de consciência! Através desses orifícios vão entrando fumaça, a escurecer nossa alma já enegrecida pelos vícios terrenos; sem intervalos temporais, sem obedecer às estações do ano, às estiagens, essa fumaça atira sujeira em nossos olhos e o que vemos nada mais é que uma realidade perturbada, tudo soa mal às nossas vistas, aquilo que tocamos parece desgraçar-se, aquilo que vivenciamos, então, parece corrompido, maculado, os membros de nossa comunidade nos aparecem como traidores, e então nossa boca antecipa-se aos fatos e troveja, envia tempestades de impurezas sobre aqueles que antes considerávamos irmãos.

Estamos sozinhos, atirados ao relento com escudos, canhões, bombas atômicas, mas sem cérebros. Aquele maldito cérebro com uma massa cinzenta, nebulosa, que nos diferencia dos animais, nos faz racionais, humanos; imensa hipocrisia essa, se ao menos essa massa fosse vermelha, de amor, branco paz, ou qualquer outro bom símbolo e respectiva cor que o capitalismo nos outorgou, mas não, ela é cinza, cor das trovoadas, do mau tempo, da depressão, do progresso imbecil, persuasivo, que foi unindo países, desunindo crenças, desunindo idéias, progresso imperialista, guerra, lágrimas, inocentes massacrados, bancarrota das relações pacíficas entre os homens, convívio extremamente heterogêneo, ausente de genialidade, criatividade, estático, fincado num buraco qualquer da nossa camada de ozônio!

Por que somos tão otários? Por que nos moldamos assim? Se ao invés de armas e pensamentos maldosos, possuíssemos sempre uma flor às mãos, um sorriso em nossas caras, uma palavra de afeto, uma palavra de respeito e honradez ao desafeto, se ao menos cultivássemos parcela de inocência que as crianças têm... Que difícil, impossível, utópico isso!

As bombas se anteciparam às flores, o sangue jorrou nos campos onde deveriam predominar florestas, rios, formigas e suas sociedades, abelhas e suas disciplinas, ervas e suas benesses, cheiro natural de empatia, de acolhimento, a natureza nos acolhe e nós a matamos, prendemos os pássaros e vendemos sua liberdade, por puro orgulho, vaidade, acabamos fedendo, tragando o veneno do progresso descontrolado, da desigualdade social...

A natureza nos concede a desgraça de chegarmos aos 80 anos como punição a essa nossa destruição; é a sapiência e a discrição, a sanção de carregarmos um corpo que vai se arrastando, em estado de putrefação, até a senilidade, e essas bestas, descobrindo remédios fúteis, frívolos, para doenças do corpo quando, na verdade, dever-se-ia descobrir remédios para a alma, falta de cortesia, de amizade, compreensão... de modo a chegarmos aos 80 anos e percebermos que fomos úteis, deixamos algo de bom aos descendentes, independente da espécie, humanos ou políticos, que haverão de crescer alegres, falantes, fiéis a princípios de evolução material e espiritual ambientalmente corretas, fato este que os tornará ansiosos de chegar aos 80 anos, não de morrer drogados aos 25, de acidente de carro aos 24, com um tiro acidental aos 23, se suicidar aos 22, virar bandido aos 21, tentar ser ouvido, escrevendo, aos 20, chorando pela morte do pai alcoólatra aos 19, pichando muros aos 18, saindo da escola sem perspectiva aos 17, transando, no mais tardar, aos 16... tendo paralisia infantil aos 2, apanhando da mãe, prostituta no primeiro ano de idade, sendo abortado antes do nascimento. A dúvida me apossa a alma, o sentimento de impotência me faz pequenino, contorce todos os meus neurônios numa jornada lúdica, sem mira de resultados materiais... é como se a língua impedisse minha boca de se manifestar, é como minha patética coragem de tentar publicar texto tão banal! (Luciano Jacon - RG. 32.689.639-9)