09 de julho de 2026
Geral

Bauru faz transplante de rins e córneas

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

O transplante de córnea é o que apresenta menores riscos de rejeição, porque os tecidos atingidos não contêm vasos sangüíneos

Os únicos transplantes realizados em Bauru são os de rins e córneas. Já houve casos de doação e captação de outros órgãos na cidade, mas que foram encaminhados às centrais e disponibilizados para pacientes de outros municípios. Nestes casos, a própria captação é feita por equipes que vêm de fora e que já estão treinadas para tais cirurgias.

A cirurgia de captação tem que ser feita por especialistas, porque o órgão tem que ser retirado com o mínimo de lesões possível. Para ser viável, um rim, por exemplo, não pode apresentar lesões em vasos sangüíneos, nem dissecações no ureter, para que ele seja devidamente implantado e ligado ao organismo do receptor. Sem esse cuidado, pode haver problemas no pós-operatório.

Quando a central determina a captação de outros órgãos, temos que manter, artificialmente, as condições hemodinâmicas do paciente doador enquanto aguardamos a chegada destas equipes. Com exceção da captação de córnea, as demais são feitas com todas as equipes juntas, trabalhando de maneira coordenada. Isso é muito difícil, comentaram as nefrologistas Tereza Faifer e Regina Pinheiro.

Segundo elas, quando uma família autoriza a doação, inicia-se uma verdadeira maratona. Só para a captação e o transplante de um rim, são mobilizadas entre 30 e 40 pessoas, incluindo médicos, enfermeiros, auxiliares, secretários e laboratoristas, que têm que alterar radicalmente sua rotina de trabalho, desmarcar consultas, agilizar procedimentos e ficar à disposição. Além desses, o sistema ainda conta com o apoio da Polícia Rodoviária e companhias de aviação e rodoviária, que transportam as amostras para exame e os órgãos captados, gratuitamente.

Córneas

A doação e o transplante de córneas têm particularidades que facilitam os procedimentos. A primeira delas, segundo os oftamologistas André Hamada e Raul Gonçalves de Paula, é que a retirada das córneas pode ser feita até seis horas depois da morte do doador, ou seja, se forem captador outros órgãos, as córneas ficam por último. Outra diferença é que elas podem ser guardadas por aproximadamente dez dias, quando armazenadas em produto adequado, sem qualquer prejuízo.

A terceira particularidade é que o transplante de córneas é o que oferece menores riscos de rejeição, por não envolver tecido vascularizado, ou seja, por não ter um contato direto do sangue do doador com o do receptor. Por isso, na maioria dos casos, não é preciso fazer os testes de HLA. A maioria das pessoas pensa que o transplante troca toda a córnea e isso não é verdade. Nós trocamos apenas a parte central da córnea, com cerca de 7 a 8 milímetros de diâmetro. A periferia da córnea do receptor é mantida, explicaram os oftalmologistas.

Segundo Hamada,, mesmo que haja uma rejeição, se esta for identificada logo no início, dependendo da patologia, há 90% de chance de que esta rejeição seja controlada por medicamentos, um índice que é bem mais baixo nos transplantes de outros órgãos.

Rejeição

Para todos os transplantes, o receptor de órgãos vai ser submetido a um tratamento com remédios imunossupressores. São drogas usadas para diminuir a eficácia do sistema de defesa do organismo. Essa redução tem que seguir limites muito bem definidos - de um lado, o sistema imunológico tem que estar enfraquecido para que não ataque o órgão estranho e, de outro, ele não pode estar fraco demais, para que não permita a manifestação de outras infecções oportunistas. O paciente vai conviver com uma situação parecida com a do aidético: ele tem um organismo tão frágil que a um simples sapinho, doença comum em bebês, poderia matá-lo.

Modelo Spit

De acordo com as nefrologistas Tereza Faifer e Regina Pinheiro, a nova lei de doação e transplantes, aprovada em fevereiro de 1997, criou a lista única de espera por órgãos com base na experiência do São Paulo Interior Transplantes (Spit). O Spit foi criado na década de 80, quando médicos do interior paulista resolveram criar uma lista única de pacientes, de modo a democratizar a distribuição de órgãos.

Na época, foi uma proposta arrojada e a primeira do País em se fazer uma lista única. Hoje, o Spit ainda existe, Bauru é vinculado a ele, mas ele foi incorporado à Coordenação Geral do Transplante do Estado de São Paulo, afirmaram.

Para Hamada, o sistema adotado atualmente é o ideal. Hoje, ninguém pode estar inscrito em mais que uma lista. E todos os pacientes podem acompanhar sua posição na espera pela Internet, digitando o número do seu CPF. Ficou bem mais democrático, completou.