08 de julho de 2026
Geral

Compatibilidade genética é essencial

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 6 min

A retirada dos órgãos e tecidos só é feita depois da realização de vários exames laboratoriais e isso pode demorar horas ou até dias

O transplante de órgãos e tecidos só pode ser feito quando há compatibilidade genética entre os tecidos de quem doa e de quem recebe. Isso quer dizer que os tecidos têm que ser parecidos, o que só pode ser determinado através de exames de laboratório. Como são procedimentos muito complexos, a cirurgia de captação de um órgão só é feita depois que os médicos já encontraram o melhor receptor - aquele que terá mais chances de sucesso no transplante.

De acordo com as nefrologistas Tereza Maria Speranza Faifer e Maria Regina Trotta Pinheiro, confirmada a morte cerebral e autorizada a doação, são retiradas amostras de sangue, baço e gânglios do doador para a realização de exames de tipagem. Nestes exames, é verificado o tipo sangüíneo do doador e algumas de suas características genéticas.

Os itens importantes para o transplante vão sendo pontuados. Esses dados são cruzados com os dados dos pacientes que estão na fila de espera por um órgão. Quanto mais coincidências houver, maior a pontuação e aquele que é mais compatível é escolhido para receber o órgão, explicaram as médicas.

Sistema ABO

A primeira característica que é avaliada para um transplante é o chamado sistema ABO, que nada mais é do que o tipo sangüíneo dos pacientes. Nesse sentido, valem as mesmas regras para a transfusão de sangue:

O paciente que tem tipo sangüíneo O pode doar órgãos para qualquer pessoa, mas só recebe tipo O;

O paciente tipo A pode doar para A e AB, mas só recebe de A e O;

O paciente tipo B pode doar para B e AB, mas só recebe de B e O;

O paciente tipo AB recebe de todos, mas só pode doar para AB.

Evidentemente, a tipagem sangüínea já vai selecionar alguns possíveis receptores para aqueles órgãos.

Identidade HLA

Depois, é feito outro exame muito importante - o de compatibilidade para Antígenos Leucocitários Humanos (HLA). As células humanas contêm proteínas capazes de identificar um corpo estranho no organismo e acionar o sistema imunológico para se defender dele. Estas proteínas são chamadas HLA e podem ser divididas em três grupos, cada grupo abrangendo dezenas dessas proteínas. Então, existem 59 proteínas HLA-A, 118 proteínas HLA-B e 124 proteínas HLA-DR. Cada uma dessas proteínas é designada por um número (HLA-A1, HLA-A34, etc.).

Essas proteínas - os anticorpos - são capazes de identificar qualquer corpo estranho no organismo. Quando isso acontece, elas travam uma batalha contra o invasor e reagem até expulsá-lo ou matá-lo. Por isso, para que um transplante seja possível, é preciso garantir que haja grandes semelhanças entre os HLA do doador e do receptor. Senão, um HLA do receptor pode perceber que há um invasor ali e rejeitá-lo.

Considerando tudo isso, pode-se afirmar que o melhor doador, certamente, é o gêmeo idêntico, mas estes são casos raríssimos. Em seguida, vêm os outros irmãos, com uma chance de 25% de compatibilidade, acompanhados pelos pais, tios e primos-irmãos.

Escolha

Atualmente, os pacientes que precisam de um órgão ou tecido para transplante são inscritos numa lista única de espera. Quando surge um possível doador num hospital, a instituição tem que comunicar a central à qual está vinculado. Essa central é que vai selecionar, entre os primeiros pacientes da lista, aquele que é mais compatível com os órgãos do doador. Para Bauru, a central de referência é a de Ribeirão Preto.

Quando o receptor ideal é encontrado, a central comunica o médico, que chama o paciente. Este ainda pode aceitar ou não a doação. Já houve casos do paciente desistir porque estava com medo, contaram as médicas. Se o paciente aceita, iniciam-se os procedimentos para o transplante. Se ele não aceita, inicia-se nova seleção.

Faifer e Pinheiro explicaram que tudo isso tem que ser muito bem monitorado: Um paciente que apresenta febre ou uma infecção qualquer não pode receber um transplante. Então, o médico tem que entrar em contato com a central e pedir que este paciente seja retirado da lista ativa. Ele só voltará para a lista ativa quando sua infecção ou alteração já estiverem totalmente controladas.

Como a durabilidade de um órgão é relativamente pequena após a captação, tudo isso tem que ser feito o mais rápido possível. Ainda assim, todo esse processo é extremamente complicado e pode demorar horas ou até mesmo dias. É um período de grande sofrimento, principalmente, para a família do doador, que já sabe da morte daquele ente, mas não tem a posse do corpo, não pode velá-lo, nem enterrá-lo. Ao mesmo tempo, é um período em que os médicos precisam da cooperação desta família, porque a pressão pela liberação do corpo só dificulta um trabalho que já é massacrante.

A dor que alivia outra

A professora Valentina Lima Martinello passou pelo sofrimento de perder um filho em fevereiro deste ano. No meio da dor, ela decidiu, sozinha, que doaria as córneas do filho - eram as únicas coisas que poderia doar.

Doar é você dar uma coisa que é sua. No momento em que eu vi meu filho - ele tinha acabado de falecer - e fui abraçá-lo, me perguntei o que tinha nele que eu pudesse doar. Fiquei muito feliz quando lembrei que poderia doar suas córneas. Foi vital para mim naquele momento e eu nem consultei o pai dele, estava sozinha, pedi que chamasse o médico, porque eu queria doar (...) Acho muito lindo doar e saber que outra pessoa vai viver com esse órgão. Foi muito importante para mim. Fiquei muito feliz em poder doar alguma coisa do meu filho e gostaria muito que outras pessoas fizessem isso também. Por isso, mãe, deixem o resto de lado - doem, doem, doem. A dor é muito grande, muito forte, mas aquela pessoa que fica (aguardando um órgão) sofre também, sofre à espera de um pedacinho que essa mãe poderia ter dado. Então, mãe, doe. Sua dor é muito forte, mas é muito importante lembrar do outro nessa hora.

Victor Augusto faleceu em fevereiro deste ano, uma semana antes de completar 15 anos. Ele era portador de distrofia muscular de gene, uma doença em que a musculatura não consegue sustentar o próprio corpo. O garoto dependia de uma cadeira de rodas para se locomover e tinha a mãe ao seu lado o tempo todo. Em junho do ano passado, ele teve uma trombose, sinalizando que a doença estava afetando o coração. Em fevereiro deste ano, ele sofreu uma parada cardíaca, foi medicado, voltou para casa, mas não resistiu.

As duas córneas extraídas foram transplantadas com sucesso, beneficiando duas pessoas que não poderiam enxergar sem a doação desta mãe.