O filme não é somente um dos mais completos meios de comunicação, mas constitui-se em uma síntese de diversas expressões artísticas: pintura, literatura, música, teatro, ópera. No espaço audiovisual da sétima arte encontramos entretenimento, nossas emoções são estimuladas, realidades e informações são mediadas. Resumindo, ao assistirmos um filme fazemos uma verdadeira experiência de vida. Através de um processo de identificação com um personagem, praticamente vivemos sua história e trazemos algum aspecto de sua vida para a nossa realidade. Assim, ao assistirmos um filme, o nosso ser e a nossa vida são modificados de alguma forma. Esta transformação pode ser, muitas vezes, radical. Eu me lembro que o filme do diretor australiano Peter Weir, Sociedade dos Poetas Mortos (1989) ajudou-me a tomar a decisão de deixar o magistério e partir para o sacerdócio. Mais tarde, outros dois filmes do mesmo diretor, Sem Medo de Viver (1993) e O Show de Truman (1998), auxiliaram-me a formar a postura de vida que tenho hoje. Na verdade, a sétima arte é um instrumento moderno de interação com nossa realidade. Através dela realizamos, muitas vezes de forma inconsciente, a antiga prática da contemplação.
A vida humana é marcada por dois pólos: recepção e ação. Estas duas dimensões antropológicas constituem a relação comunicativa do ser humano com o universo. Nós possuímos um corpo animado, ou seja, um corpo vivificado por uma anima, por uma alma. Através deste corpo, descobrimos o mundo e mantemo-nos como agentes transformadores de nosso meio ambiente. Desde o nosso surgimento como pessoa, estamos a observar o que acontece ao nosso redor. Constantemente estamos vendo, olhando, sentindo e experimentando o prazer e a dor de viver. O ser humano é por natureza um voyeur. Independente das experiências desagradáveis, os sentidos nos dão o prazer de experimentar o mundo. Não é por menos que o universo virtual oferecido pela Internet tornou-se rapidamente parte de nosso cotidiano. Mas, ao mesmo tempo que observamos o universo, sentimos também a necessidade natural de participarmos dele ativamente. Não somente a necessidade de ver, mas também a necessidade de ser parte integrante do mundo, ou seja, a necessidade de agir está tão enraizada em nosso ser, que basta a nossa presença em algum lugar, para sermos causa de sua mudança. O fato de vivermos significa a modificação, a transformação da realidade.
Sem dúvida alguma, o ser humano vê mais do que ele pode alcançar. Nós observamos mais do que realizamos. Nós tocamos o mundo muito mais com os olhos do que com as próprias mãos. Nós sentimos nosso universo muito mais do que o transformamos. Neste sentido somos mais público do que atores. E, cada vez mais, é necessário desenvolvermos a potencialidade da observação pois muitas vezes deixamos passar despercebido aspectos fundamentais da vida. O ser humano deve encontrar sempre tempo para observar a sua vida e sentir seu universo.
Uma grande falha, porém, é vivermos praticamente como observadores. Muitas pessoas vivem suas emoções e fantasias observando personagens das telenovelas ou dos filmes; outras ocupam-se na observação da vida de vizinhos e amigos.
Desta forma vivem, em uma dimensão virtual e platônica, o universo dos outros como se fossem o seu. Viver significa desenvolver a síntese entre olhar e agir, ou seja, a partir da observação deve nascer a ação concreta. O agir deve ser a conseqüência perfeita da assimilação da realidade. É na ação que minha experiência virtual e sensitiva torna-se uma realidade mais concreta e perceptiva. A ação é assumir de forma consciente um ato inevitável. Se não sou agente em meu universo, outra pessoa o será por mim. Se não vivo como sujeito de minha história, esta será construída por outra pessoa. Outra grande falha é o simples ativismo, a ação sem a necessária observação do universo. Sem uma visão critica da realidade, o agir torna-se negligência ou sucesso do acaso. A unidade entre o observar e o agir é a forma perfeita de inter-agirmos com a realidade. À esta relação de receber e dar, ser transformado e transformar damos o nome de contemplação. A palavra contemplação nos traz em si duas situações que se completam: conteúdo e ação. A contemplação é na verdade um processo simultâneo de conhecimento e de transformação da realidade. Através desta postura o universo torna-se não somente um conteúdo de meu conhecimento, mas também objeto do meu agir. Ser contemplativo é ser receptivo aos acontecimentos da realidade e ao mesmo tempo participar destes sem ter medo de transforma-los. Ser contemplativo é não permitir que terceiros vivam por você.
Como diz uma das minhas canções preferidas: Quem perdeu o trem da história por querer é mais um covarde a se esconder diante de um novo mundo.
Padre Beto / Especial para o JC CulturaFale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com