08 de julho de 2026
Geral

Apagões, assombrações e luzes

Frei Lourenço M. Papin
| Tempo de leitura: 3 min

Fruto de uma lamentável e falha política energética de nossos governos, estamos entrando na era do apagão. Simpático neologismo que se lê, porém, com pessimismo e triste realismo! Antigamente, na era dos lampiões de gás ou querosene e quando era precária a iluminação elétrica, falava-se muito em assombração, particularmente em lugares ermos. O imaginário popular estava povoado das mais fantasiosas e eletrizantes assombrações que não deixavam de espantar as crianças e os adultos também! Em razão sobretudo da difusão da luz elétrica, essas assombrações foram desaparecendo.

Agora que o apagão vem chegando, outros tipos de assombrações estão aparecendo, sem o encanto, a ingenuidade e a inocuidade das antigas, mas para nos espantar de verdade. Infelizmente elas são reais. Há assombrações que vêm dos apagões éticos na política, nas administrações públicas, nos poderes Executivo, Judiciário e Legislativo; assombrações que vêm dos apagões morais que geram a exploração econômica, a exploração da mulher, dos menores, dos pobres e marginalizados, a banalização do sexo e tantos outros males. E a assombração assusta mais quando se constatam certos apagões éticos de ordem internacional, como a globalização econômica que, concentrando os bens nas mãos de poucos, apaga a esperança de bem-estar e vida digna da maioria do povo.

Felizmente, não existem só esses apagões e assombrações. Há luzes e lampejos cintilando por toda parte. A biologia está decifrando o código genético da espécie humana, projetando novas luzes em favor da vida; a informática, como ápice da moderna tecnologia, chega facilitando o progresso em geral, os meios de comunicação social, vão promovendo a comunhão dos povos; o movimento ecológico desperta a humanidade para preservar a vida da mãe terra; uma nuvem de religiosidade e espiritualismo paira sobre multidões sedentas de Deus, contrapondo-se ao materialismo e ao edonismo; cresce a consciência ética nas pessoas e nas instituições em defesa da dignidade humana, multiplicam-se movimentos e organizações como centelhas de solidariedade, altruísmo, fraternidade, justiça e paz; os sinais de vida começam a predominar sobre os sinais de morte; vislumbra-se no horizonte da história a aurora de dias melhores. Muitos outros lampejos e luzes, é claro, poderiam aqui ser enumerados.

Numa perspectiva de fé, vamos detectar uma Luz que se projetou definitivamente na história dos homens para vencer as trevas do mal: O Verbo, a Luz verdadeira que ilumina todo homem... se fez carne e habitou entre nós (Jó 1, 9 e 14). Luz para iluminar as nações, como exclama o justo e venerando Simeão segurando nos braços o Messias recém-nascido (Lc 2, 32). Pela sua Vida e sua Palavra, Cristo é a Luz que não ofusca mas norteia o homem, que ilumina, explica e dá sentido pleno a toda realidade humana; é a Luz que jamais se extinguirá. Sua presença no coração da história é Luz que suscita a esperança e o otimismo contra todo fatalismo e derrotismo. Luz que tem a força de nos transformar em miríades de luzes que, se unidas na fé e no amor-solidário, poderão formar um maravilhoso e transformador clarão que não conhecerá a decepção de nenhum apagão. (Frei Lourenço M. Papin)