08 de julho de 2026
Geral

Não mexa com o jabuti

(*) Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Estamos vivendo uma época em que se fala muito em reduzir custos e melhorar a eficiência. Não é um assunto novo. Sempre houve pessoas com essa preocupação, tanto nas empresas como no serviço público e na economia doméstica. Há registros de 1688 a 1723, na França, mas o movimento mais significativo na economia das empresas ocorreu a partir de 1893, com os experimentos do engenheiro americano Frederic Winslow Taylor, que deu origem à administração científica, que teve grande influência no desenvolvimento industrial da primeira metade do século passado e ainda tem a sua importância nos dias de hoje, apesar de todas as novas teorias e do desenvolvimento tecnológico. Só para ter uma idéia das experiências revolucionárias de Taylor, vejamos este exemplo: em uma siderúrgica onde trabalhou, cerca de 600 operários trabalhavam com pás carregando vagonetes com minério de ferro ou com carvão. Como o pagamento era feito por tonelada, os operários se esforçavam bastante e terminavam o dia muito cansados. Observando que todos usavam o mesmo tipo de pá, Taylor quis saber se o peso que eles manejavam era um peso adequado para um operário agüentar durante uma jornada de trabalho. Mandando medir as pás carregadas verificou que com o minério pesavam cerca de 15 quilos e com carvão, apenas 2 quilos. Mas qual seria o peso adequado? Somente experimentando. Escolheu um grupo de trabalhadores e submeteu-os a trabalhos com pazadas a partir de 2 quilos, durante alguns dias, e foi aumentando e anotando a produção diária e a situação física deles. Até 10,25 quilos a produção foi aumentando e a partir daí começou a diminuir e a provocar mais fadiga nos trabalhadores. Concluiu que o peso ideal seria de 10,25 quilos. Mandou destruir todas as centenas de pás do mesmo tamanho e substituí-las por pás menores para o minério e maiores para o carvão, de modo que o operário manejasse um peso aproximado desse valor trabalhando tanto com minério como com carvão. O resultado foi o seguinte: a produção passou de 16 toneladas/homem por dia para 59; a remuneração diária de cada trabalhador passou de $ 1,15 para $ 1,94 e o custo por tonelada de $ 0,072 para $0,033. Houve, portando, um aumento na produtividade de 268,75% e de 68,69% no salário e uma diminuição de custo de 54,16%. E mais ainda, no final do dia os operários estavam menos cansados que no sistema anterior. Todos saíram ganhando.

Acontece que a tendência natural tem sido o desperdício e quando ele chega a um ponto insuportável vem a reação como a que estamos vivendo agora. O movimento da qualidade total, iniciado no Japão depois de sua recuperação dos estragos da grande guerra, fundamentou-se no taylorismo e aproveitou o desenvolvimento científico ocorrido posteriormente. A preocupação é constante mas a ênfase é cíclica, isto é, há períodos em que é menor, quando tudo vai bem, e período em que é maior, quando as coisas ficam mais difíceis. Mas o nó da questão está sempre nas pessoas. Elas é que determinam a eficiência ou a ineficiência. Se não forem colocadas no lugar certo, de acordo com a sua qualificação, certamente serão pouco produtivas. E é comum que por erros de administração ou por outros motivos, haja pessoas fora de lugar nas organizações. Esse fato originou a historieta do jabuti, uma pequena tartaruga. Diz-se que um dia um homem viu um jabuti no galho de uma árvore. Como esse animal é incapaz de subir em árvore, só podia estar lá porque alguém o colocou. Quis tirá-lo de lá sem saber quem o havia colocado e se deu mal. Moral da história: não mexa com os jabutis das empresas ou do serviço público sem consentimento de quem os colocou lá porque você pode perder o emprego.

(*) Pedro Grava Zanotelli é professor e diretor da Faculdade de Ciências Econômicas de Bauru, da ITEE-mail: pegrazan@techno.com.br