Tenho insistido nesses meus comentários do que não adianta procurar os culpados pela crise energética porque, obviamente, eles não podem ser transformados em quilowatts. O que precisamos é acelerar os projetos que permitam aumentar a oferta de energia a médio e longo prazos, de origem hidráulica, termelétrica, solar, eólica e da biomassa, sejam de cunho estatal ou privado. No curto prazo, resta-nos administrar com inteligência os programas de conservação para reduzir os danos da crise. Isso vai exigir a mudança de atitude em relação aos critérios de mensuração do déficit público, estabelecidos nos acordos com o FMI.
Nos últimos oito ou nove anos, investiu-se muito menos do que era necessário na ampliação da capacidade de geração de energia, particularmente de energia hidráulica. Projetos de construção de hidrelétricas foram desnecessariamente alongados e abandonados os complementos de transmissão da energia já disponível nas regiões Sul e Norte do País. O atual governo cometeu todos os equívocos imagináveis nesse capítulo da energia, dentre os quais o mais recente foi a compra do supertransformador que nunca funcionou e que está emperrando a transferência da energia que iria socorrer a zona do apagão.
Os investimentos em energia foram abandonados porque aceitamos uma proposição absurda do FMI, segundo a qual os gastos das estatais energéticas, ainda que financiados por elas, constituem déficit público. O aumento do endividamento das estatais passou a ser contado como déficit nas contas públicas . O objetivo dessa proposição era, obviamente, o de forçar a venda das empresas. Mas era função do governo não aceitar essa imposição do FMI . Não soubemos resistir e passamos os últimos seis anos investindo muito pouco no setor. Por coincidência, nesse período veio se acentuando a queda do nível de água nos reservatórios das hidrelétricas. A combinação desses dois fatos produziu o problema que estamos vivendo.
É preciso, portanto, reverter essa situação. O governo anunciou um programa de investimentos da ordem de R$ 15 bilhões até 2003, a maior parte destinada à construção de termelétricas, cujas obras tem maturação mais rápida. É um caminho para sair da emergência, mas é preciso considerar que os custos da eletricidade vão aumentar. No momento em que crescerem esses custos, estaremos atirando fora uma das maiores vantagens comparativas da economia brasileira, que era exatamente o fornecimento de uma energia mais barata que a dos nossos competidores em várias partes do mundo. Isso vai exigir uma nova orientação de nossa política econômica, visando dar condições isonômicas ao setor produtivo brasileiro. Nossa indústria e nossa agricultura ainda não se restabeleceram dos efeitos da destrutiva política de altas taxas de juros e câmbio sobrevalorizado que vigorou até janeiro de 1999. O setor produtivo continua sufocado por um controle de crédito absurdo: o Brasil é um dos países de menor volume de crédito em relação ao PIB. São problemas que não podem ser ignorados no momento em que perdemos a vantagem comparativa proporcionada pelo preço da energia.
(*) Antonio Delfim Netto é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USP E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br