07 de julho de 2026
Geral

Fome e desperdício

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 4 min

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que uma em cada quatro crianças brasileiras é pobre e vive sob o risco da fome. Dos bauruenses que vivem na linha da pobreza ou abaixo dela, 30 mil são crianças e adolescentes, sendo o índice de desnutrição na faixa dos 16%.

Enquanto a comida falta na mesa de milhões de brasileiros, o desperdício agrícola chega a 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, segundo pesquisa da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento. Em valores, seriam R$ 10 bilhões que, transformados em cestas básicas de R$ 120,00 cada, dariam para alimentar oito milhões de famílias durante um ano inteiro.

O desperdício também é verificado em Bauru, onde a regional da Associação Paulista de Supermercados (Apas) calcula uma perda mensal de 10% das 1.200 toneladas de produtos hortifrútis consumidos. Esses números, vale registrar, podem ser ainda maiores, uma vez que o levantamento da Apas só considera dados dos estabelecimentos cadastrados.

A perda indiscriminada de alimentos não é coisa que se vê apenas nas residências de famílias abastadas. Entre os humildes, incluindo os que pouco têm a comer, muitos produtos aproveitáveis do ponto de vista nutricional vão para o lixo. A culinária alternativa, conhecida por utilizar parte dos alimentos comumente descartados, é incipiente no município, assim como no País como um todo. Alguns a entendem como a reciclagem de alimentos em fase de deterioração e poucos são os programas que existem para corrigir essa visão errônea.

É bem verdade que soam estranhas ao ouvido receitas que têm a casca de banana ou de melancia como os ingredientes principais. Um hambúrguer de fígado de boi ou um manjar de beterraba também não parecem nada atraente, mas figuram como pratos altamente nutritivos e baratos. O paladar aguçado por nomenclaturas, aliás, demonstra que o uso integral dos alimentos ou, como preferir, o fim do desperdício doméstico, está mais associado a questões de educação e cultura do que ao sabor do prato propriamente dito. Precisamos derrubar tabus e experimentar mais. Só assim vamos conseguir reeducar o nosso paladar. Aquele negócio de eu não como porque é esquisito tem que parar, sentencia Maria Cecília Rocha Lima, professora de Técnicas Dietéticas e Culinárias do curso de Nutrição na Universidade do Sagrado Coração (USC).

Ser econômico e criativo no comando do fogão, entretanto, não seria por si só suficiente para erradicar as grandes perdas e resolver o problema da fome. Supermercados, restaurantes, centrais de abastecimento, feiras-livres e lixo doméstico: todos têm lá suas cotas de desperdício. Nos supermercados, estimar as perdas é difícil, uma vez que o prejuízo é dos produtores e fornecedores, que bancam (ou repõem) as mercadorias que estragam ou avançam o prazo de validade. Com os hortifrútis, também não é fácil precisar números, mas dos produtos que são despejados no aterro sanitário de Bauru, cerca de 40% ainda teriam condições de servir o consumo humano.

O desperdício de alimentos existe, mas não sabemos quanto, porque, ao entrar no aterro sanitário, tudo vira lixo. Seria preciso fazer uma avaliação do que é aproveitável antes da entrada, mas vemos que a quantidade de verduras boas jogadas fora é enorme. Se houvesse um setor para selecionar o estragado do bom, acredito que seria possível salvar 40%. Se fosse levado para os animais, então, o aproveito seria de 100%. Já com os produtos industrializados, fica difícil calcular. São produtos com prazo de validade vencido e não podemos dizer se seria possível consumi-los, observou Everaldo Crivelari, gerente de Limpeza Pública da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb).

Segundo ele, toneladas de alimentos embutidos, como salsichas, presuntos, lingüiças, etc., são jogadas periodicamente no aterro da cidade. Por conta do prazo de validade vencido ou prestes a vencer, as firmas os retiram da área de vendas dos supermercados para posterior destruição. Eles são despejados em valas especialmente abertas para evitar o mau-cheiro, o assédio de urubus e eventuais tentativas de reaproveitamento.

O problema social da fome, por sua vez, vai além de providências caseiras, industriais ou de economia de produção. Programas envolvendo a sociedade, poder público, entidades civis, iniciativa privada e voluntários precisam ser adotados com urgência. Propostas existem. Em Bauru, por exemplo, por exemplo, a Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento (Sagra) vem tentando viabilizar parcerias para combater permanentemente o desperdício e minimizar a carência básica de expressiva parcela da população. Seria um passo importante rumo à justiça social, abrindo aos colaboradores uma oportunidade de exercitar a cidadania voltada ao próximo.