08 de julho de 2026
Geral

O efeito Felipão

Kleber Boelter
| Tempo de leitura: 2 min

Nenhum episódio capaz de mobilizar uma nação tem seu significado resumido a si mesmo. Ele reflete, em várias dimensões, valores e anseios que se materializam em determinados episódios. Ayrton Senna foi e Guga Kuerten ainda é capaz de mobilizar multidões em torno de seu perfil carismático e vencedor. Com características pessoais diferentes, há entre eles um aspecto comum que é, na verdade, o ponto principal de sua ascensão a seres idolatrados: a capacidade de vencer.

Pois um fenômeno exatamente inverso estava atingindo nossa já não muito amada Seleção Brasileira, mesmo que o futebol ainda seja a grande paixão nacional. Miseravelmente, a seleção havia chegado a tal ponto de decepção e humilhação que seu prestígio havia escorrido para o ralo. E não apenas no Exterior, onde a equipe da França há muito nos ultrapassou em futebol e no ranking da Fifa, mas no próprio território brasileiro. Vocês, eu não sei, mas ultimamente eu estava mais interessado em assistir aos jogos da Argentina do que o ridículo escrete de bailarinas nacionais.

Pois bastou o anúncio de Felipão como o novo técnico para que uma onda de otimismo invadisse o País e a Seleção Brasileira voltasse a ser notícia não apenas em todos os jornais, rádios e televisão, mas nas fábricas, nos escritórios e, claro, nas mesas de bar. Num País onde a mídia estava dominada por escândalos políticos e incompetências governamentais, um grito crescente pela ética passou a ofuscar as demais características desejáveis e necessárias a um governante. Foram tantas as acusações de roubo e desvio de dinheiro público que se passou a vender para o pobre eleitor a noção de que a principal característica de um administrador público deve ser a honestidade. Por esse caminho, chega-se facilmente a conclusão de que se pode eleger qualquer semi-analfabeto para dirigir um estado ou uma nação apenas por sua honestidade, mesmo que ele afunde o país fazendo asneiras de toda espécie por causa de seu despreparo técnico e incompetência administrativa.

Essa é a grande novidade do nome de Felipão, que conseguiu se transformar numa quase unanimidade nacional: um grito pela competência. Ele não tem os ternos italianos de Luxemburgo nem a fantasia futebol-arte incorporada nas desastradas bailarinas de Leão. Ele tem, isso sim, competência e seriedade na sua profissão e resultados que provam isso. E é isso o que, efetivamente, nós queremos e precisamos. Longe de mim fazer apologia ao velho chavão caudilhesco rouba, mas faz. Lugar de ladrão é na cadeia e o cumprimento das leis deve ser uma obsessão das instituições democráticas. A deterioração moral aniquila, mesmo que a médio prazo, qualquer ganho de eficiência. Mas não venham querer vender a idéia de que o bom é uma besta, desde que honesta. (Kleber Boelter é escritor, graduado em engenharia).