08 de julho de 2026
Geral

Participação social de indústrias é pequena

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 7 min

Das 34 indústrias que participaram de uma pesquisa sobre participação social, realizada pelo Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e pela Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (ITE), 85,3% delas realizam algum tipo de investimento social em Bauru e região. A maior parte desses investimentos refere-se a doações, com 79,31% do total. Apenas 10,34% das empresas desenvolvem projetos sociais.

De acordo com José Luiz Miranda (Zeca) Simonelli, diretor regional do Ciesp, e Egli Muniz, diretora da Faculdade de Serviço Social da ITE, a idéia de levantar dados sobre o grau de responsabilidade social das indústrias de Bauru e região surgiu a partir dos resultados de um estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica (Ipea), de 1998, na região Sudeste do Brasil. Das 445 mil empresas consultadas, 300 mil promovem algum tipo de ação social em favor da comunidade, segundo o estudo. Essas ações vão desde pequenas doações eventuais até projetos de grande porte.

Na pesquisa de Bauru, foi enviado um questionário, contendo 24 perguntas, a 154 empresas cadastradas no Ciesp, sendo 44 microempresas, 80 de pequeno porte, 25 de médio porte e cinco grandes empresas. Desse total, apenas 34 questionários foram devolvidos, correspondendo a uma amostra de 22,07%, dos quais 23,52% de microempresas, 41,17% de empresas de pequeno porte, 26,47% de médio porte e 8,82% de empresas de grande porte.

De acordo com Egli Muniz, os resultados do estudo feito pelo Ciesp e ITE evidenciaram que, do total de 85,3% das indústrias que devolveram o questionário dizendo que realizam algum tipo de investimento social, 100% das empresas de médio e grande porte responderam afirmativamente. No entanto, a maioria das micro e pequenas empresas que responderam também contribuem socialmente, sendo 75% e 78,5%, respectivamente.

Entre as empresas que adotam as doações como o principal alvo dos investimentos sociais, 71,4% têm como alvo diferentes entidades e mais 3,6% para entidades e um determinado projeto. Apenas 3,6% destinam as doações a uma entidade específica e 10,7% investem em um determinado projeto, facilitando a relação da imagem da empresa com o mesmo. Segundo Egli, das cinco empresas que admitiram desenvolver projetos sociais - sendo três de pequeno porte, uma de médio e duas de grande porte -, quatro delas os realizam em parceria com clubes de serviço ou esportivo, Prefeitura Municipal e Senai. Uma delas, filial de uma companhia nacional, estabelece parceria com o Ministério da Previdência e Assistência Social e com uma organização não-governamental.

De acordo com a diretora da Faculdade de Serviço Social da ITE, o principal foco do investimento social tem sido a assistência social. O investimento social está focalizado prioritariamente na assistência social, a exemplo do que ocorre no Sudeste brasileiro, onde 57% das empresas investem nesse campo. Ele aparece como o único foco do investimento em 27,6% dos casos, aliado ao esporte, meio ambiente, segurança pública e outros, em 48,3% das respostas. Isso significa que 75,9% das empresas investem em assistência social. Depois vem a saúde, com apenas 10,34%, e educação, com 6,9%, bem abaixo da média regional, que é de 14%, observa Egli.

Crianças lideram

Entre os segmentos beneficiados, as crianças lideram o ranking, com 27,6%. Por outro lado, uma boa parte das indústrias (31,03%) preferem investir em diversos segmentos, sendo que 17,24% delas incluem, também, os funcionários da própria empresa como beneficiários do investimento social. Comprovando a dispersão ou a fragmentação do investimento, 82,75% das unidades afirmam que suas ações sociais abrangem a cidade como um todo. Apenas duas das que responderam ao questionário beneficiam um bairro ou uma região específica. Nenhuma concentra o investimento no entorno da empresa, tendência que vem se observando entre as companhias com mais tradição na área, acrescenta Egli.

Como a motivação que levou as empresas a investirem em ações sociais, a maioria das que participaram da pesquisa (51,72%) apontou o desejo de contribuir socialmente. Por outro lado, 20,7% já admitem a necessidade de aliar a imagem da empresa a uma ação social e 17,24% afirmaram tratar-se de política empresarial. Segundo Egli Muniz, aliar a imagem da empresa a um investimento social é uma performance que está sendo esperada das empresas, atualmente.

De acordo com a diretora da Faculdade de Serviço Social da ITE, a maior parte das empresas não faz uso dos incentivos fiscais. Segundo dados da pesquisa, apenas 23,8% utilizam os incentivos do Imposto de Renda (IR) para investir em ações sociais. Os incentivos municipais praticamente não são utilizados. Para Simonelli, isso se explica pelo hábito do empresariado brasileiro de direcionar o foco das atenções para problemas internos. A baixa utilização dos incentivos fiscais tem uma causa. No geral, os empresários brasileiros são muito voltados para problemas internos, da própria companhia, e muitos nem sabem que podem destinar parte do Imposto de Renda para projetos sociais. Na minha opinião, a atitude introvertida das empresas tem que acabar urgentemente. Quem permanecer com esse tipo de perfil e continuar insistindo em não se comunicar com o mundo lá fora, está fadado a fechar as portas, diz Simonelli.

Conforme os resultados da pesquisa, o principal motivo alegado para a não utilização desses incentivos é o desconhecimento (39,13%), seguido pelo desinteresse (26,08%) e pelo regime tributário adotado pela empresa (8,7%). Os resultados são confirmados quando se observa que apenas 17,24% destinam parte do IR para o Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente.

De acordo com Egli, as empresas que investem socialmente têm suas ações sobrevalorizadas nos Estados Unidos. Até pouco tempo atrás, o sucesso comercial exigia qualidade do produto, do atendimento e preço. Atualmente, as empresas de maior sucesso transformaram a responsabilidade social como parte da estratégia de atuação, observa. Para Simonelli, agir com responsabilidade social é tomar decisões que gerem lucros e riquezas para a empresa.

A pesquisa também demonstrou que as micro e pequenas empresas fazem mais doações em dinheiro do que em produtos. Já as empresas de médio e grande porte, contribuem significativamente com seus próprios produtos. De todas as empresas que responderam o questionário da pesquisa, apenas 10,34% delas não indicaram o valor das contribuições anuais que realizam. Segundo Egli, a maior incidência (13 empresas, ao todo), seja em numerário, em produtos ou ambos, recai em valores de até R$ 1 mil por ano. Quatro empresas declararam investir entre R$ 10 mil e R$ 50 mil anuais, sendo duas de pequeno porte e duas de médio porte. Apenas uma companhia de pequeno porte declarou investir acima de R$ 100 mil por ano. Trata-se de uma empresa local que pertence a uma cadeia nacional. Esse valor é referente ao total dos investimentos feitos em todo o País.

Ainda segundo mostrou a pesquisa, 44,83% das empresas declararam que suas contribuições são sistemáticas, isto é, constam do planejamento. Outros 44,83% das companhias pesquisadas disseram que o investimento é eventual e 6,9% disseram que realizam investimentos sistemáticos e eventuais. Isso reforça a constatação de que, na realidade, as empresas da região têm o desejo de contribuir socialmente, mas não o incorporam totalmente como estratégia empresarial, observa.

Demandas urgentes

De acordo com Egli Muniz, entre as principais constatações decorrentes de todo esse estudo está a de que o investimento social das empresas é feito aleatoriamente, de forma pulverizada. Isso limitaria maiores dividendos para o município do ponto de vista do impacto social das contribuições e para a própria empresa, em termos de vantagem competitiva aliada a valores éticos.

Entre as sugestões feitas pela Faculdade de Serviço Social da ITE sobre as principais demandas de Bauru, relacionadas à assistência social, estão firmar uma parceria com a Secretaria do Bem Estar Social (Sebes) para a criação de mais núcleos de apoio sócio-familiar nas regiões dos bairros Pousada da Esperança e adjacências, e na Vila Zillo - projeto que se propõe a diminuir o índice de pobreza nas regiões em que está mais concentrada; criação de creches-berçários e de centros de apoio sócio-educativo a crianças e adolescentes de 7 a 14 anos de idade nas regiões periféricas da cidade, atendendo em período complementar à escola, objetivando oportunizar o pleno desenvolvimento dessas crianças; projetos destinados a retirar crianças e adolescentes das ruas, incentivando a freqüência e o sucesso escolar.

Existem outras demandas, mas, acreditamos que essas sejam prioritárias no momento. Elas exigem uma ação corajosa e efetiva da sociedade bauruense e do Poder Público, para que Bauru seja uma cidade mais igualitária, conclui Egli Muniz. Segundo Zeca Simonelli, os resultados da pesquisa, bem como uma série de sugestões de projetos, serão apresentados ao empresariado local em breve.