08 de julho de 2026
Geral

Vasectomia é feita em 20 minutos

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 5 min

Especialistas explicam que a reversão da cirurgia é possível, mas utiliza uma técnica bem mais complexa, delicada e demorada que o procedimento de esterilização

A vasectomia é um procedimento simples, que não exige centro cirúrgico de alta complexidade, realizado com anestesia local, em que o paciente é liberado quase imediatamente após a cirurgia. Nós simplesmente desligamos o canal deferente, impedindo que os espermatozóides produzidos nos testículos cheguem até a vesícula seminal, explicou o urologista Aguinaldo Nardi.

Como funciona o aparelho reprodutor masculino: os espermatozóides são produzidos nos testículos. Dali, eles seguem, pelo canal deferente, até a vesícula seminal, onde é produzido o líquido seminal (é este líquido que vai permitir aos espermatuzóides nadarem em direção ao óvulo no organismo feminino). Desta vesícula, sai outro canal, que atravessa a próstata e vai até o pênis. Na ejaculação, os espermatozóides são eliminados juntamente com este líquido.

A vasectomia vai promover um corte no canal deferente, impedindo que os espermatozóides cheguem à vesícula seminal. Desta forma, ao ejacular, o homem vasectomizado só vai liberar o líquido, mas sem os bichinhos que poderiam fazer a fecundação.

Como os espermatozóides são microscópicos, o homem fértil, quando ejacula, só enxerga o líquido. Quando nós desligamos o canal, a única coisa que muda é que não há mais espermatozóides, quer dizer, o que ele enxerga da ejaculação, que é o líquido, não sofre nenhuma alteração aparente, informou o médico.

Ereção

De acordo com Nardi, um grande mito que cerca da vasectomia é o da impotência. A falta de esclarecimento leva muitos homens a pensar que, ao fazer a esterilização, eles deixariam de ter a ereção peniana. Isso não é verdade. A ereção acontece quando o pênis se enche de sangue e não tem nada a ver com esse canal por onde passam os espermatozóides, disse. Por isso, quando um homem apresenta algum grau de impotência depois da vasectomia, ou é porque ele já apresentava a disfunção e o problema se agravou (o que aconteceira de qualquer maneira) ou ele está tendo uma impotência de fundo psicológico.

História

Nardi contou que a vasectomia foi idealizada por volta de 1700. Naquela época, autópsias feitas em homens casados, aparentemente normais, mas que não tiveram filhos, mostraram que eles tinham o canal deferente entupido ou que nasceram sem o canal. E todos tinham os espermatozóides nos testículos.

Se ele tinha relações sexuais normalmente, se ele produzia os espermatozóides e o canal estava entupido, então era preciso descobrir uma forma de entupir o canal para que ele não tivesse mais filhos. Foi, portanto, a partir desta constatação, que se iniciaram os estudos em busca de uma técnica que bloqueasse este canal, idealizando-se a vasectomia. Foram feitas várias experiências em animais, até chegarmos à cirurgia de hoje, que é o método contraceptivo mais difundido nos Estados Unidos e Europa, afirmou. Entre as mulheres, de acordo com Carla Bonjorno, a opção mais comum nestas regiões é o diafragma.

Técnica

A cirurgia de vasectomia é feita com anestesia local. São abertos dois pequenos cortes (cerca de 5 milímetros cada) no escroto. Com a ajuda de uma pinça, os canais direito e esquedo são puxados e cortados. As extremidades são cauterizadas, amarradas e colocadas de volta ao seu lugar. Nos cortes da pele, a sutura é feita com pontos absorvíveis, que não precisam ser retirados posteriormente. Todo o procedimento demora aproximadamente 20 minutos.

O paciente é liberado logo após a cirurgia e pode retomar suas atividades habituais no dia seguinte. Ele fica proibido apenas de fazer esforços físicos, pegar peso e manter relações sexuais nos primeiros sete dias. Depois deste prazo, o paciente pode retomar sua vida sexual, mas o casal deverá usar algum método contraceptivo por mais três meses, em média.

Isso porque pode haver espermatozóides remanescentes na vesícula seminal e demora algum tempo para que eles sejam completamente eliminados. Por isso, nós pedimos que o paciente aguarde 12 a 15 ejaculações após a cirurgia (30-40 dias depois da vasectomia) e faça um espermograma (exame para a contagem de espermatozóides). O exame vai mostrar se a esterilização foi bem sucedida, explicou Nardi.

Reversão é delicada e complexa

Ao mesmo passo que a vasectomia é extremamente simples e rápida, com a reversão é exatamente o contrário. É uma cirurgia delicada, feita com microscópio ou lupa, usando materiais muito finos. Um procedimento que demora 3 a 5 horas, comentou Aguinaldo Nardi.

Segundo ele, a parede do canal deferente é grossa, de modo que o canal, propriamente dito, é muito estreito - tem menos de um milímetro de diâmetro. Para se ter uma idéia, o espaço seria suficiente para se introduzir apenas uma agulha bem fina. É exatamente esta canal que tem quer ser emendado e os buraquinhos das duas extremidades precisam coincidir perfeitamente, senão não haverá passagem para os espermatozóides e a reversão estará fracassada.

A olho nu, você não consegue enxergar o lugar onde é preciso costurar. Então, é uma cirurgia demorada, que requer anestesia, tem custo alto e com chances de sucesso em torno de 50% quando realizada nos primeiros cinco anos após a vasectomia. Depois, esse percentual vai diminuindo progressivamente, salientou o urologista.

Fertilização

O médico comentou que, hoje em dia, mesmo depois da vasectomia, se o casal quiser ter filhos, é possível optar pelos vários métodos de fertilização in vitro. Mesmo após a esterilização, o homem continua tendo produção de espermatozóides, que podem ser coletados através de punção - uma perfuração da pele com agulha e extração do material com seringa. Nestes casos, o médico pode extrair óvulos da mulher e fertilizá-los, implantando-os diretamente no útero.

Vai depender da análise caso a caso, considerando vários critérios. Por exemplo, a idade da mulher: quando ela tem mais idade e uma gravidez natural é mais difícil, nós optamos pela reprodução assistida, mas, se a mulher é jovem, preferimos fazer a reversão da vasectomia. Depende da situação, completou.

Mas, de acordo com o presidente da seccional paulista a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), Paulo César Rodrigues Palma, o índice de satisfação da vasectomia é muito alto. Ele afirma que apenas 1% dos pacientes vasectomizados procura a reversão e que a principal alegação deles é um novo casamento. São homens que se casam de novo, com mulheres mais novas, sem filhos e que querem filhos, completou.