08 de julho de 2026
Geral

A luz na escuridão

Jorge Boaventura
| Tempo de leitura: 3 min

Neste momento em que amargamos todos, os resultados da incrível, inacreditável incúria dos que, ao menos nominalmente, exercem o poder entre nós, haveria razões, e muitas e de variadas naturezas, para nos desalentarmos e desesperarmos. Preferimos hoje, entretanto, oferecer à consideração dos que nos honram e estimulam com a sua leitura, motivos reais e concretos de esperança, para que reflitamos sobre eles. Assim, parece-nos caber uma primeira indagação: seremos nós, realmente, um país pobre? Ou serão, de fato pobres, os países tidos como ricos, do tão decantado 1.º Mundo? Serão eles que possuem a extensão continental que possuímos? As imensas riquezas minerais que jazem em nosso território? A incomensurável biodiversidade dos nossos ecossistemas, possivelmente a maior do mundo? Serão eles que possuem a maior área insolada, por mais tempo do ano, dentre todos os países deste Planeta? Serão eles que possuem o formidável sistema potamográfico que possuímos, e ao qual devemos a quantidade estimada em 16% do total de água potável disponível no mundo, recurso cuja escassez já se delineia preocupantemente, em futuro próximo? As respostas às perguntas formuladas nos são, em todos os casos, com raras exceções relacionadas à extensão territorial, inteiramente negativas em relação ao 1.º Mundo e favoráveis à nossa terra. De onde nos vem, então, a pobreza? E a riqueza deles, de onde vem? A riqueza deles é de natureza financeira, criminosamente fraudulenta - caso do dólar americano -, moeda sem lastro algum, emitida por doze bancos particulares e imposta como padrão monetário referencial para o mundo inteiro, e do saque praticado sob mil disfarces e pretextos mas, sobretudo, pelas ventosas das dívidas cujo principal, já na verdade pago várias vezes, cresce sem cessar, dificultando e impedindo em muitos casos investimentos indispensáveis ao progresso.

A esta altura, o leitor, com razão, haverá de se perguntar: mas por que os do 1.º Mundo se tornaram ricos e dominantes e nos espoliam? A resposta é a seguinte na maioria dos casos: a base científico-tecnológica da civilização moderna começou neles. A Inglaterra, país rico em hulha que, além de combustível para acionar as primeiras máquinas a vapor que deram partida à revolução industrial, ainda é o redutor capaz de transformar o minério de ferro no ferro de que é feito o aço e são feitas as máquinas. A França e a Alemanha, compartindo o carvão e o minério de ferro da bacia do Ruhr, possuindo a Alemanha, além disso as jazidas de sais minerais de Stassfurt - o que explica a pujança da indústria química germânica. E foram esses os principais países no início do progresso a que se incorporaram mais tarde os EUA que, além do carvão e do ferro da região de Pittisburg, ainda acrescentaram o petróleo, o famoso ouro negro da economia industrial. E eles foram, em certo sentido, competentes, os do 1.º Mundo, na exploração das riquezas de que dispunham, mas, cúpidos, as devastaram e liquidaram as florestas que possuíam. Entretanto, desenvolveram a ciência e a tecnologia, armaram-se e, quando começaram a escassear os recursos que possuíam, lançaram-se ao imperialismo explícito, hoje substituído por outro mais sutil, no momento denominado globalização, de sucesso dependente de Estados fracos, políticos demagogos, incompetentes ou amigos, tudo assente em um regime que quando lhes convém, deve ser democrático - mas no sentido de permissivo, corruptor e desagregador. Em outros casos, já tal simulacro de democracia não é exigido v.g. Arábia Saudita, China continental, que acaba de fazer o honesto e perplexo cidadão comum americano engolir o seu patriotismo, no episódio do avião de espionagem, certos emirados árabes, etc. A nós, então, o que nos falta se, em matéria de riqueza real, de riqueza física e de energias limpas para o futuro, como a solar, somos tão ricos?

Falta-nos, em 1.º lugar, tomar consciência das realidades a que nos estamos referindo e, a partir daí, formularmos um projeto nacional capaz de suscitar entusiasmo e esperança, libertados da maconha da desbragada licenciosidade que rotulam como democracia, e pretendem, é claro, que se eternize. Voltaremos ao assunto, se Deus quiser.