Teólogo defende que a busca pelo Deus e pelo sagrado é essencial ao ser humano e que isso independe da igreja escolhida
A extinção da banda musical Raimundos, na semana passada, deu início a uma ampla discussão sobre a influência da religião no estilo de vida do ser humano. A separação do grupo foi inevitável depois que o vocalista e líder Rodolfo Abrantes anunciou sua saída. A atitude gerou especulações de que ele abandonava os Raimundos porque havia se convertido à Igreja Sara Nossa Terra, que é evangélica. Os princípios defendidos pela Igreja não seriam condizentes com o tipo de música tocado pela banda.
Nos dias que se seguiram, Abrantes negou veementemente as especulações, dizendo que saía do grupo porque sentia-se insatisfeito com o rumo ideológico que a banda vinha tomando, nos últimos anos. Seja como for, o fato acabou despertando o País para a influência que as diferentes religiões têm sobre o estilo de vida do homem.
Para o professor de Introdução à Teologia da Universidade do Sagrado Coração (USC), Antônio Carlos da Silva Barros, esta influência é incontestável. Ele lembra que toda conversão exige que o indivíduo aceite novos conceitos e que isso o obriga a uma readaptação. Confira trechos da entrevista.
Jornal da Cidade: Na opinião do senhor, essa prática de mudar de vida porque mudou de religião tem sido comum?
Barros: Sim. Nós notamos que, no mundo pós-moderno, as pessoas começam a se utilizar da religião como se fosse um shopping center. Você usa uma religião enquanto ela serve para você. Se você não se sente mais bem, muda para outra e vai se adaptando. Inicialmente, é a religião que se adapta à sua vida.
JC: De alguma forma a religião vai se adequando ao mundo capitalista, tornando-se mais um produto...
Barros: É. A religião não pode ficar fora do mundo em que nós vivemos. É como o namoro, você tenta com um, depois com outro. O importante - e isso aparece no depoimento do próprio Rodolfo (ex-Raimundos) - é que a idéia de Deus não muda. O músico diz que freqüenta várias Igrejas e que Deus é um só, que a Bíblia é uma só. Algumas pessoas misturam isso, freqüentam o catolicismo, depois o protestantismo, o espiritismo, cultos afro-brasileiros, porque elas estão em busca do seu bem-estar e vão consumindo essas religiões.
JC: O senhor acha que isso se deve a uma indefinição ou a uma busca?
Barros: Eu acho que é mais uma busca. Antigamente, dizia-se que a religião iria acabar, que a idéia de um Deus iria acabar e não é assim. Hoje, você encontra 40 mil pessoas em torno do padre Marcelo Rossi, reuniões evangélicas reúnem milhares num estádio, a Internet reúne vários sites religiosos, a televisão exibe vários programas religiosos. Isso mostra a busca por Deus. Só que algumas pessoas não aceitam seguir uma instituição determinada.
JC: Diante deste cenário, o senhor acredita que a Igreja Católica tende a perder seus fiéis, considerando-se a rigidez de seus princípios?
Barros: Não acredito nisso. O que eu vejo é que as pessoas estão se adaptando. Elas migram de uma instituição à outra, mas as instituições tradicionais mantêm seus participantes. Agora mesmo, acompanhei uma missa de Santo Antônio com a igreja lotada e gente do lado de fora porque não cabia mais ninguém. Não vejo um esvaziamento (...)
JC: Mas o senhor acredita que isso possa acontecer, considerando-se essa rigidez, como a exigência do celibato, a negação ao uso do preservativo?
Barros: Não creio. Acho que o que existe é uma adaptação. No caso do preservativo, por exemplo, não é uma defesa só da Igreja Católica, mas de várias Igrejas cristãs e mesmo do budismo, que defendem a relação sexual apenas para a multiplicação, não para o prazer. A instituição diz o que deve ser feito, mas as pessoas continuam vivendo suas vidas e usando o preservativo, mesmo sabendo que a Igreja tem outros princípios.
JC: E como o senhor vê o ecumenismo?
Barros: Isso é muito forte hoje. As Igrejas estão tendo que aprender a conviver umas com as outras. Em questões importantes, como a luta contra a fome, pela paz, contra o preconceito, você vê várias instituições que se unem na busca do bem maior, que é o ser humano. E não só o ecumenismo, mas existe um diálogo inter-religioso. Em alguns lugares do mundo, você vê encontros de líderes religiosos, cristãos, budistas, judeus, todos em busca de uma forma de vida melhor.
JC: Esta é a meta das religiões...
Barros: Exatamente. Agora, quando as pessoas aderem a um sistema religioso, isso não quer dizer que ela vai aderir totalmente. Ela já traz algumas coisas consigo, assimila novos conceitos e vai se adaptando.
JC: Uma adaptação pessoal...
Barros: Isso, uma adaptação da vida dela, não da instituição. Esta continua pregando o que deve pregar. Então, você vê uma pessoa adepta a determinada expressão religiosa, mas que sai nua na Playboy. Pode? Não pode, mas ela está lá. O que não quer dizer que ela quebrou seu sistema de vida. Ela continua buscando a Deus. Se você perguntar, ela vai dizer que precisa de Deus, como realmente precisa, como qualquer outro ser humano. Mas precisar de Deus não coloca essa pessoa na situação de ter que obedecer ao que a instituição está dizendo.
JC: E o senhor acha que esse posicionamento - adotar uma religião sem seguir as imposições - isso é positivo ou negativo?
Barros: Aí você tem dois lados. Um é o da instituição: quando você faz uma opção religiosa, você o faz livremente, então, já sabe o que ela vai exigir e você deveria seguir o que ela determina. Por outro lado, se a pessoa quer a presença de Deus, se ela se sente bem naquela expressão religiosa ou se ela mistura várias, como se realmente estivesse num shopping center - se isso a satisfaz, existe um aspecto positivo no fato desta pessoa se encontrar. Ou seja, institucionalmente está errado, mas a busca de Deus vai sendo atendida (...) É preciso respeitar a busca do sagrado, que é presente em todo ser humano.
JC: O senhor comentou que existe, atualmente, um diálogo inter-religioso. Por outro lado, no entanto, temos guerras que são iniciadas e que se mantêm por questões religiosas. Isso seria um atraso?
Barros: Não um atraso, mas uma cultura (...) Os judeus querem a terra (Jerusalém) que foi prometida a eles, mas a mesma terra sagrada também foi prometida para o outro e para o outro. De quem é a terra? Ali, todos querem tomar posse da mesma terra sagrada que foi prometida a todos, em momentos históricos diferentes. Então, você diz mas a guerra é contra a ordem, porque o mandamento principal de todas as religiões é amar a Deus e ao próximo e eles estão se matando. Aparentemente, há um contra-senso, mas estes povos estão lutando para cumprir uma outra norma divida, que diz que a terra é sua e é seu dever zelar por ela. Nesse sentido, todos os lados estão certos.
JC: Eles têm que lutar, mesmo que, para isso, tenham que quebrar outro mandamento...
Barros: Para eles, eles não estão quebrando um mandamento. Estão cumprindo um mandamento (...) Eles brigam por uma terra sagrada que não é de um só, mas de vários. Para nós, no Brasil, é difícil entender, parece absurdo, mas é a busca pelo espaço sagrado que lhes foi prometido.
JC: Na opinião do senhor, essas guerras devem ser vistas mais como um fanatismo religioso ou uma questão política?
Barros: Você tem os dois aspectos. Eu vejo mais como político. Você observa que os líderes religiosos estão tentando uma trégua, um diálogo. Mas, dentro esse espaço, também está o fanático. Nem toda a população religiosa é fanática, mas você tem um percentual que é e que vai continuar agindo com fanatismo. Eles entendem que a Lei (bíblica) tem que ser cumprida a todo custo e não permitem o diálogo. Esses conflitos religiosos também existem por aqui, só que não são conflitos armados (...) Alguns anos atrás, presenciamos um momento tenso, quando houve aquele chute na imagem de Nossa Senhora Aparecida. Aquele episódio mostrou a existência de uma guerra religiosa no Brasil, sem mortes, mas com agressões (...) Lá, eles matam. E, se morrem, morrem em nome da religião, acreditando que isso lhes garantirá glória no pós-vida, ele será recompensado.
JC: O conceito verdadeiro de religião é a religação do ser humano com o espiritual. Nesse sentido, qual é o melhor caminho para buscar a própria religião?
Barros: Primeiro, penso que você tem que verificar se, naquela expressão religiosa que você está buscando, você se sente bem. A busca é estar de bem consigo, com os outros, com Deus, com o universo. Depois, você deve buscar, ao máximo possível, viver aquilo que aquela expressão religiosa pede (...) Porque é um acordo que você faz com Deus, junto da religião. Então, se você está lá, busque viver o máximo ali dentro. E sem perder Deus, em qualquer situação.
JC: Independentemente do nome que ele tenha...
Barros: Você não pode perder o sagrado. O cristianismo tem um Deus, o hinduísmo tem deuses, o budismo busca um encontro do ser consigo mesmo. O ser humano tem um sagrado interior que ele não pode perder por nada. Quando vejo as pessoas misturando religiões, compreendo que elas estão buscando esse sagrado.
JC: Nesse sentido, qual o prejuízo do ateu ?
Barros: O prejuízo pode ser a falta desse apoio que você tem quando compreende que tem o sagrado dentro de você. Eu acho que essa pode ser uma vida de solidão. Quando você tem Deus, você não ser sente sozinho ou sozinha em nenhum instante (...) Mas eu acredito que haverá momentos na vida dele em que ele vai relembrar esse sagrado e vai se encontrar com o sagrado (...) Porque todos nós precisamos ser entregues para alguém (na hora da morte), que vai receber você de braços abertos.
JC: Algum outro aspecto da religião deve ser ressaltado?
Barros: A volta do Cristo. Nós vivemos uma experiência, no ano passado, de desilusão. Todos esperavam que o mundo iria mudar totalmente no ano 2000. Sonhamos com isso desde 1960, mas o ano passou e o mundo continua o mesmo. Penso que o ser humano vive à espera de mudanças. As religiões cristãs pregam que Cristo retornará, mas isso não tem uma data e não importa quando. O que importa é que vamos encontrá-lo e ele nos receberá com carinho e amor. Só que, agora, não existe mais essa expectativa sobre uma data, porque se alguma religião disser que vai ser em 2100, 2500, 5010, ninguém vai acreditar mais. Esqueça os números. O importante é saber que vamos ser bem acolhidos, seja em que momento for.