A chuva de reclamações, culminada com a denúncia de suspeita de negligência - posteriormente descartada - no tratamento dispensado a um estudante universitário, fizeram eclodir, no final do ano passado, uma crise no sistema municipal de Saúde de Bauru. A situação de caos, que já não era novidade para ninguém, foi exposta publicamente, revelando detalhes sobre as condições precárias dos Prontos-Socorros, atitudes repreensíveis de médicos e atendentes, ineficácia da rede básica de atendimento e falta de retaguarda laboratorial e hospitalar por parte do Estado. Não havia mais como esconder o diagnóstico da Saúde do município. O caso era gravíssimo. Como em qualquer outro quadro de natureza grave, vislumbrava-se apenas duas saídas: o fim ou a recuperação paulatina. Felizmente, prevaleceu o empenho em prol do restabelecimento, que hoje começa dar seus primeiros sinais.
Qualidade dos PSs dá sinais de avanço
A Secretaria Municipal de Saúde vem agindo dentro do que pode, providenciando contratações e estreitando relações com o Estado para garantir menor tempo de espera por vagas no Hospital de Base
Embora longe do ideal, os atendimentos oferecidos pelos Prontos-Socorros de Bauru melhoraram de qualidade. Nada - pelo menos por enquanto - que esteja além do mínimo que se espera de um serviço público, mas muito se comparado à situação das unidades há coisa de seis meses. A contratação de mais médicos e profissionais de enfermagem, a aquisição de materiais básicos que estavam em falta e a conquista de uma melhor retaguarda hospitalar e de procedimentos (exames), sem dúvida, minimizaram os problemas enfrentados pelas unidades de urgência e emergência.
No que tange aos equipamentos, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) já lançou mão de quase todos os recursos disponíveis para suprir aparelhos que estavam em falta. Segundo o cronograma de metas estabelecido no início deste ano, era prioridade imediata a compra de esfignomanômetros (medidores de pressão), laringoscópio, otoscópios, respirador pneumático e pinças para uso infantis e adulto. A aquisição de materiais permanentes (mobiliários como macas e cadeiras de rodas) também já foi providenciada - a licitação está na fase final. Compramos tudo aquilo que era possível, como fizemos e continuamos fazendo tudo aquilo que está ao nosso alcance, frisou o diretor do Departamento de Urgência e Emergência (DUE), Felinto dos Santos Neto.
A defasagem do corpo clínico era outro grave problema que foi minimizado por conta da realização de concurso - a seleção teve de aguardar o início deste ano em virtude do período eleitoral. Doze clínicos-gerais já assumiram e outros dois devem se apresentar nos próximos dias, completando o quadro do PS Central e das unidades descentralizadas. A escala de ginecologistas também está completa, mas a solução ainda emperra quando se trata de pediatras.
Segundo relatório da própria SMS, o déficit de pediatras era de 26, com possibilidade de reduzi-lo em 57% - a disponibilidade é para apenas 15 vagas - depois do concurso. O problema é que cinco dos que foram aprovados no concurso já estavam prestando serviço através de contratos de emergência, ou seja, com o concurso, eles serão simplesmente efetivados. Dos dez restantes, somente quatro se apresentaram até o momento - os outros lançaram mão do prazo legal de 90 dias concedidos por lei e podem desistir na véspera da data de apresentação. Como se não bastassem essas dificuldades, seis profissionais que cumprem contratos de emergência não passaram no concurso e podem sair quando a vigência deles terminar - no momento, a Secretaria estuda a possibilidade de renovar os contratos.
Na hipótese mais positiva, quer dizer, se todos os que estão sendo esperados se apresentarem e se os contratos forem renovados, o quadro continuará deficitário em 11 pediatras. Para solucionar o problema, o Executivo encaminhou à Câmara um projeto de lei que dispõe sobre a ampliação do quadro, mas a proposta ainda nem entrou em discussão. Enquanto isso, a política do jeitinho continua prevalecendo, sendo a prioridade dada ao Pronto-Socorro Central. Quando o quadro de pediatras está incompleto na unidade, o DUE providencia o remanejamento de profissionais dos PSs descentralizados, que, por sua vez, ficam descobertos.
A realidade justifica as reclamações recebidas nos últimos tempos pelo JC nos Bairros. Invariavelmente, usuários ligam para a Redação reclamando da falta de médicos pediatras. Esta semana, por exemplo, um pai levou o filho no PS da Vila Ipiranga, mas não conseguiu atendimento. Eles alegam que o médico foi atender no PS Central. Por que nós é que somos os prejudicados, esbravejou, com razão reconhecida por Felinto Neto. Nós damos preferência ao Central, porque é o Pronto-Socorro de referência da cidade, porque se algo grave acontece, ninguém procura as unidades descentralizadas. Mesmo assim, entendemos como legítima esse tipo de reclamação, tanto que estamos fazendo de tudo para completar todos os quadros, disse.
Retaguarda hospitalar
A espera de pacientes por vagas no Hospital de Base, principal retaguarda do PS Central, continua ocorrendo, mas de uma forma muito mais tranqüila do que há seis meses. Se antes os pacientes chegavam a aguardar até dez dias por um leito, hoje não permanecem mais do que dois dias, ainda que nos corredores pouco acolhedores da unidade de emergência.
Ao contrário do que se imagina, a melhoria não se deu por conta da abertura de novos leitos no hospital, mas em razão de uma maior aproximação entre SMS, DIR-X e Associação Hospitalar de Bauru (AHB), mantenedora do HB. Felizmente, estamos conseguindo resolver nossas necessidades à base da conversa. Eles têm nos atendido com muito boa vontade e o mérito dessa boa relação cabe à doutora Eliane (ex-secretária da Saúde). Parece que todos se deram conta de que têm o mesmo público para atender e que trabalhar em conjunto é mais proveitoso, considerou Sônia Fiocchi, atual titular da pasta.
Os entendimentos possibilitaram outro benefício aos usuários: a agilidade nos exames. Hoje, o Pronto-Socorro possui uma cota de exames estabelecida diretamente pela DIR-X, o que, na prática, significa que tais procedimentos não dependem mais da autorização dos médicos do hospital para serem realizados. Antes, o paciente tinha que ser internado para poder ter a autorização, mas agora nós próprios podemos solicitar o exame quando julgamos necessário, explicou Santos Neto, lembrando, ainda, que o PS Central passou a ter plantonistas nas áreas de ortopedia e cirurgia, o que também agiliza bastante os serviços.
Boa vontade
Sorriso nos lábios e visível disposição para ajudar são atitudes que muito pouco lembram os atendentes das unidades públicas de saúde. A SMS, no entanto, quer que a regra vire exceção nos núcleos de atenção básica e Prontos-Socorros. Todos os funcionários estão passando por cursos que ensinam novos modos de tratamento. Trata-se da busca pela melhoria do acolhimento ao paciente, uma proposta que chega a soar como ficção num País onde a Saúde é preterida nas ações políticas.
Uma coisa é certa: usuários e atendentes tem predisposição para a cara feia. Os primeiros, porque já chegam à unidade com a certeza de que serão maltratados, os segundos, porque se armam contra as críticas e descontentamentos que normalmente absorvem.
A boa vontade, segundo Sônia Fiocchi, é o que faz a diferença. O usuário que procura o serviço público é quase sempre humilde, razão pela qual a atenção do atendente torna-se um motivo de satisfação. Queremos um atendente que saiba resolver os problemas, pessoas que orientem corretamente e não façam o usuário andar de lá para cá atrás de informações. Muitas vezes, é verdade, eles não sabem as respostas de pronto, mas têm plenas condições de saber onde obtê-las, salientou a secretária.
Melhorias também dependem de reformas
A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) vem revelando total empenho para levantar a qualidade dos serviços prestados pelos Prontos-Socorros e Núcleos de Saúde. Ofícios, materiais e o próprio movimento nas unidades não deixam pairar dúvidas sobre isso, mas nem tudo pode ser resolvido apenas com boa vontade.
A garantia mais certa de bons atendimentos no PS Central e nas unidades mistas (PSs descentralizados em conjunto com os núcleos), entretanto, dependem de verbas estaduais. Os recursos são fundamentais para as reformas físicas dos prédios, necessárias tanto para viabilizar adequações quanto para proporcionar atendimentos dentro das normas estabelecidas pelo Conselho Federal de Medicina.
A situação mais problemática é a do PS Central, onde as instalações há anos já não suportam mais a demanda. Construído há 15 anos, numa época em que a população de Bauru era estimada em pouco mais de 200 mil habitantes, o prédio é hoje ocupado de forma precária. As enfermarias são insuficientes para a mais mínima demanda, ou seja, não há como evitar a cena diária de pacientes tomando soro em cadeiras improvisadas ou deitados pelos corredores. Não bastasse isso, as adaptações precárias ferem as normas médicas, não atendendo exigências básicas, como espaço adequado para sanitários.
A reforma e ampliação dos PSs estão previstas no cronograma de ações da SMS, mas não vão sair do papel se o Estado não liberar recursos. Projetos e pedidos formais de verbas já foram encaminhados, mas todos continuam apreensivos no aguardo de uma resposta. Dinheiro o Estado tem, tanto que anunciou a retomada da milionária obra do Hospital Regional. Basta saber se as unidades de urgência e emergência da cidade também figuram na lista de prioridades.
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As mudanças no sistema municipal de Saúde começaram nos bastidores, com a troca do corpo diretor de departamentos. Para o público, são alterações que ainda passam despercebidas, mas prometem melhoras a médio e longo prazos, porque atingiram a filosofia de trabalho. Hoje, diretores do Departamento de Urgência e Emergência (DUE), por exemplo, não têm mais mesas e salas individuais para serviços burocráticos. O escritório passou a ser coletivo, subtraindo os espaços para acomodação. A idéia não é mais ficar atrás de um mesa, distante dos problemas. A ordem agora é circular durante todo o tempo e ver de perto tudo o que está se passando na unidade. Quando você próprio identifica os problemas, fica mais fácil resolvê-los, explicou o médico Felinto dos Santos Neto, que há dois meses responde como diretor do DUE.
A recuperação do sistema foi traçada pela ex-secretária municipal da Saúde, Eliane Fetter Telles Nunes, que se afastou sob a justificativa de uma licença - comenta-se que ela saiu vítima de uma estafa provocada por pressões -, e continua sendo respeitada pela sucessora, Sônia Fiocchi.
Um cronograma de ações foi estabelecido para cumprimento imediato e a curto e médio prazo. O que pôde ser feito sem a ajuda de recursos externos, já está viabilizado, como a aquisição de equipamentos básicos, encaminhamento de pedidos formais de verbas, complementação do quadro de profissionais e correção de várias falhas apontadas pelo Conselho Regional de Medicina (CRM). Em inspeção pelas unidades de urgência e emergência, o órgão detectou problemas simples, mas inconcebíveis do ponto de vista médico-higiênico-operacional. A necessidade de colocação de torneiras e observância de alguns cuidados (utilização de toalhas e outros objetos de uso higiênico) foi atendida.
A importante questão do atendimento humanizado também vem recebendo atenção e, ainda que de natureza comportamental, talvez seja a principal melhoria. Está mais do que na hora de as pessoas que necessitam do sistema público de Saúde se sentirem bem ao procurar o serviço. Chega de caras feias e informações desencontradas. O respeito ao ser humano, esteja ele verdadeiramente doente ou sugestionado, é o primeiro caminho rumo ao atendimento público de qualidade. Usuário satisfeito indica que a Saúde vai bem.
Os profissionais médicos - a sugestão não é para todos -, assim como os colegas de atendimento, também deveriam repensar suas atitudes. É sabido que muitos dedicam a vida aos tensos corredores das unidades de urgência e emergência, mas outros sem-número parecem mais preocupados com o adicional de 125% que recebem do que com a saúde da população.
Apesar de amparadas por lei, as licenças médicas de um dia pipocam entre o corpo clínico dos PSs. Não há como contestá-las, obviamente, mas elas costumam aparecer nos fins-de-semana prolongados ou próximas a feriados. No último Corpus Christi, por exemplo, mais uma vez houve desfalque na equipe, o que exigiu remanejamentos de última hora e causou transtornos a usuários. Esse tipo de expediente chega a ser levado ao conhecimento do Conselho Regional de Medicina, mas nunca acarreta maiores conseqüências. Conseqüência mesmo é o usuário que sente. Uma visão mais humanista não faria mal a essa parcela dos profissionais.