09 de julho de 2026
Geral

O rumo incerto da América Latina

(*) Mário Soares
| Tempo de leitura: 3 min

Ao longo de uma estadia no Brasil, conversando com algumas das personalidades políticas mais importantes - desde o presidente Fernando Henrique Cardoso até o líder da oposição, Luís Inácio Lula da Silva; desde o ex-presidente e governador de Minas Gerais Itamar Franco, até o velho líder trabalhista Leonel Brizola; desde o vice-presidente Marco Maciel até o jovem e promissor prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro - pude notar uma indissimulável preocupação (derivada do risco de contágio) pela crise que assola a Argentina e que começa a afetar seriamente a estabilidade do Mercosul. Esse quadro de incerteza - de natureza econômica, mas talvez também, e sobretudo, política caracteriza ainda o comportamento da União Européia e se esboça no momento em que a administração Bush parece decidida a reativar o antigo projeto da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e a criar um espaço único de livre comércio liderado pela superpotência norte-americana, dentro do qual o Mercosul tenderá - muito provavelmente - a dissolver-se.

E tudo isso acontece num momento em que a economia brasileira vive uma franca recuperação, depois da grande crise de 1999: a inflação parece controlada, as privatizações de grandes empresas acontecem com apreciável êxito, o PIB cresce, o desemprego diminui e nota-se uma grande atração do investimento estrangeiro (depois dos Estados Unidos, Espanha e Portugal são, respectivamente, o segundo e terceiro países investidores nesse país continente que é o Brasil). A política de estabilização de Fernando Henrique Cardoso, líder latino-americano cujo preparo e prestígio não têm igual na região, e que conta com a assessoria de Pedro Malan, ministro da Fazenda, e de Armínio Fraga, presidente do Banco Central, tem colhido resultados apreciáveis, apesar das inevitáveis turbulências políticas, tanto no contexto macroeconômico quanto em relação a políticas concretas como saúde pública, o significativo volume de distribuição de terra aos sem-terra e a generalização da luta contra o analfabetismo, fator que é essencial para a construção de uma sociedade instruída.

Apesar desses êxitos indiscutíveis, a política politiqueira - como dizem os franceses - do Brasil vai se tornando mais agressiva, o que complica o quadro geral, na medida em que o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso caminha para seu final (2002) e começa a se discutir abertamente a sucessão. José Serra, ministro da Saúde; Lula, líder operário do muito ativo e organizado Partido dos Trabalhadores - várias vezes candidato - Itamar Franco e Ciro Gomes são os candidatos mais mencionados.

Por sua vez, a Argentina, que se debate numa crise econômica estrutural, teve de chamar com urgência, dando-lhe plenos poderes, o ministro Domingo Cavallo, neoliberal da escola de Harvard, solicitado pelo presidente Fernando de la Rúa. Assim, para onde vai a Argentina, país vulnerável à recessão que se anuncia nos Estados Unidos e que se confirma de maneira duradoura no Japão? Resistirá às pressões da Alca (e dos Estados Unidos) para distanciar-se do Mercosul e deixar o Brasil entregue à sua sorte, isto é, isolado, frente à pressão dos EUA?

O panorama da região resulta, desse modo, muito diferente da desejável estabilização democrática. Para onde caminha? Diante da incerteza, dói a passividade da União Européia onde, pelo menos os países latinos - e especialmente os ibéricos, Espanha e Portugal - deveriam entrar em acordo sobre um plano de apoio à América Latina, dadas as relações de parentesco cultural e lingüístico e à coincidência de interesses que nos unem.

(*) Mário Soares, presidente de Portugal entre 1986 e 1996