09 de julho de 2026
Geral

Globalização auxilia combate à aids

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 8 min

Para especialista, a luta contra a doença pode ser reforçada se os países compartilharem os modelos de programas adotados

O acordo anunciado esta semana, entre Brasil e Estados Unidos, que quebrou a lei de patentes para medicamentos antiaids, permitindo a fabricação de genéricos para estes remédios, e a inclusão, pela primeira vez, do assunto aids entre os temas discutidos pela assembléia geral da Organização das Nações Unidas (ONU), sinalizam para a globalização dos trabalhos de combate à epidemia.

Identificada na década de 80, a aids (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida - Sida) já matou 22 milhões de pessoas no mundo - 150 mil só no Brasil e 583 em Bauru. Nesta semana, a ONU considerou a doença como a pior moléstia desde a Idade Média, quando a peste bubônica matou mais de 30 milhões de pessoas. Foram três dias de discussão dedicados ao assunto, o que indica que deverão haver ações conjuntas de combate à doença nos próximos anos.

Para falar sobre estes acontecimentos, o Jornal da Cidade conversou com a médica infectologista Denise Arakaki, que é responsável pelo Programa DST/Aids na Direção Regional de Saúde (DIR-10), órgão que responde pela saúde pública de Bauru e outros 40 municípios da região.

Jornal da Cidade: Nesta semana, o Brasil assinou um acordo com os Estados Unidos de quebra de patente para a fabricação de medicamentos antiaids genéricos. Questionado sobre este assunto, o co-descobridor do vírus HIV, Luc Montagnier, afirmou que as pessoas não devem apedrejar os laboratórios, porque eles passam anos investindo em pesquisas antes de colocar um remédio no mercado. Evidentemente, eles precisam recuperar o que investiram. Para Montagnier, a quebra de patentes só deveria valer para remédios mais antigos, os primeiros medicamentos. O que a senhora pensa sobre isso? Denise Arakaki: É preciso considerar duas questões: uma é que o Brasil é um país miserável em termos de tratamento para a aids, já que o tratamento é muito caro. A segunda questão é que esses laboratórios estão inseridos em países ricos, cuja verba disponível é muito alta. Então, eu acho que nem tanto ao céu, nem tanto à terra. O laboratório tem que ganhar sim, mas a população precisa ter acesso aos remédios. Quanto às pesquisas, acho que os laboratórios têm um mérito muito grande, pois impulsionaram os avanços no combate ao HIV, mas talvez estas pesquisas devam ter coordenação institucional. Talvez elas não devam ser feitas por instituições comerciais, mas por laboratórios de pesquisa e universidades.

JC: Que benefícios a senhora acredita que a inclusão da aids como tema da assembléia geral da ONU pode trazer no combate à epidemia? Arakaki: Acho que o ponto mais positivo da discussão é falar sobre distribuição de renda sob o aspecto global. Porque nós estamos vendo a globalização acontecer, as indústrias se associarem, as ações do Mercado Comum Europeu. Esse evento da ONU chama a atenção do mundo para o fato de que a renda está concentrada em poucos lugares e que a maioria da população vive em condições muito ruins (...) Se a gente melhorar essa qualidade de vida do mundo, com certeza, a questão da aids também passa a ser melhor trabalhada e eu acho que a ONU está abrindo esse canal de discussão (...) Por que não falar em globalização para atender as populações acometidas pela aids?

JC: A senhora acredita que isso possa aumentar, também, os investimentos em pesquisas? Arakaki: Eu acho que sim. Como existem fundos para pesquisa contra o câncer, existem os de combate à aids. Excluindo-se as diferenças locais, o diagnóstico, tratamento e prevenção são iguais para todo o mundo. E podemos trocar experiências. Algumas atitudes brasileiras podem ser úteis aos africanos, como o nosso modelo é muito parecido com o modelo europeu. Hoje, o Brasil é uma referência para o tratamento da aids.

JC: O Brasil é o único a fornecer o coquetel de medicamentos gratuitamente, não é? Arakaki: É o único País que fornece integralmente e é universal, ou seja, todos têm acesso ao medicamento, independente da condição social. Isso funciona no Brasil inteiro e em nenhum outro País. Só que isso tem um preço para o Governo e para o cidadão, que paga impostos. Então, a discussão sobre patentes não é só governamental, mas é de todos os cidadãos. Por isso que a gente tem que baratear esses remédios.

JC: No Brasil, que tipo de estudos são realizados para combater a aids?Arakaki: O Brasil serve de campo. Estamos testando vacinas e remédios em alguns pólos universitários. Mas acho que o que o Brasil pode exportar são as atitudes, os programas de combate ao HIV/aids. Nós temos iniciativas locais que deram certo, como o programa de Santos, em que um ônibus vai até as pessoas que tinham mais vulnerabilidade. No Nordeste, há um ônibus que percorre as cidades do sertão levando informações sobre a aids e sobre outras questões importantes (...) Algumas iniciativas desse porte podem servir de modelo e eu acho que o Brasil é muito rico nisso, por ser tão diferente no Sul, Sudeste, Nordeste e demais regiões. Você vai ver que o modelo que eu aplico em São Paulo não serve para Nordeste, mas pode servir ao modelo europeu e norte-americano. E o modelo nordestino poderia ajudar, por exemplo, um país africano (...)

JC: Qual é o perfil atual da aids em Bauru? Arakaki: A DIR-10, que atende Bauru e outros 40 municípios, registrou 1.096 pacientes portadores de HIV entre 1984 e junho de 2001.

JC: Neste período, foram quantos óbitos?Arakaki: Tivemos 591 óbitos.

JC: E quantos recebem o coquetel antiaids? Arakaki: A rigor, os outros 500 pacientes registrados deveriam estar tomando coquetel na região, mas não é assim, porque tem pacientes que não vêm, que abandonam o tratamento e que mudam de cidade. Na verdade, eu acho que a epidemia de aids em Bauru, como no Brasil, está tendo um comportamento de desaceleração desde 1997. Em Bauru, isso coincide com o período em que implantamos o coquetel. Mas essa desaceleração só foi observada entre os homens, porque, entre as mulheres, os números continuam crescendo. Tanto que um dos principais focos de atenção do programa é a mulher, com a distribuição de preservativo feminino e controle da transmissão materno-infantil junto às gestantes. Uma das ações do programa é incentivar as gestantes a fazer o teste de HIV no pré-natal. Nós temos o AZT injetável (remédio contra a aids que pode ser aplicado antes do parto para reduzir os riscos de contaminação do bebê quando a mãe é HIV-positivo) em todas as maternidades. Também temos o teste rápido, porque calcula-se que 15% das gestantes paulistas não fazem o pré-natal. Enfim, não há grandes alterações nos índices da epidemia. A novidade é no comportamento, em como a epidemia se alastra. Hoje, as informações básicas já estão disseminadas, todo mundo sabe o que é a aids e o que fazer para não ser contaminado. Agora, precisamos voltar nossa atenção para as populações específicas, como travestis, usuários de drogas e menores de rua, que ficaram a desejar ultimamente.

JC: Como está a sobrevida hoje do portador e do paciente que já manifestou a doença? Arakaki: Como a questão do HIV/aids já está bastante difundida, aumentou o conhecimento da doença, então, as pessoas que querem sobreviver procuram o serviço. Aqueles que usam o coquetel corretamente sobrevivem mais tempo. O coquetel prolongou a sobrevida em 5 a 15 anos. Alguns estudos falam até em 20 anos de sobrevida. O problema é que as pessoas não usam e o tratamento acaba não correndo como gostaríamos. De um modo geral, a adesão é baixa - menor que 60% - e isso é um grande entrave para o tratamento, por aumentar a resistência do vírus (...)

JC: E a tão esperada vacina contra a aids?Arakaki: As vacinas estão em fase de testes em humanos já. As vacinas terapêuticas, que são aplicadas em pacientes que já têm o HIV, têm mostrado resultados muito bons. Mas a vacina preventiva, que é o que todo o mundo quer, que é o grande sonho da humanidade neste assunto, esta ainda está um pouco longe de ser alcançada.

JC: Quais são os principais entraves? Arakaki: É a mutação do vírus, porque a multiplicação é muito rápida e aumenta as chances de mutação viral (o vírus muda sua forma de entrar no organismo e os locais em que se instala, impedindo que se descubram meios de barrar sua instalação e multiplicação). Esse o maior desafio.

JC: A terapia genética pode ajudar?Arakaki: Até que os cientistas descubram quais são os fatores genéticos que permitem ou não a contaminação, não ajuda. Quando estes fatores forem identificados, com certeza, vai ajudar.

JC: Quais são as perspectivas para o tratamento da aids e o controle da epidemia daqui para a frente? Arakaki: Sabemos que não existe um fim previsto para a aids - pelo menos, não a curto prazo. Ao contrário, em algumas regiões do Planeta, ela tende a aumentar. E eu sempre acho que é preciso fazer essa associação do aspecto sócio-econômico com a propagação. Não dá para trabalhar com a aids sozinha. Em alguns lugares, a situação é tão ruim, que falamos que o país está com aids social. Então, a epidemia não tem um fim previsto, mas ela melhorou muito, porque investiu-se muito em campanhas de prevenção, em tratamento e em diagnóstico. Hoje, o diagnóstico de HIV é barato e de fácil acesso. Qualquer pessoa pode chegar numa unidade de saúde qualquer e fazer o teste de aids. O que eu acho que está faltando é retomar a discussão de HIV como um problema de primeira ordem. Porque, nos últimos anos, até por causa de coquetel, isso acabou caindo no descuido, as pessoas se descuidaram, abandonaram o uso da camisinha, a camisinha feminina não teve o impacto que nós gostaríamos... Se considerarmos tudo o que a gente já avançou, a abordagem da epidemia melhorou, mas é uma epidemia que não tem fim previsto.