Arquitetura exótica traz referência a fatos históricos e até a sentimentos e fantasias de quem encomendou o projeto
Construções arquitetônicas exóticas costumam chamar a atenção de transeuntes, principalmente quando tratam-se de residências. Em Bauru, é possível encontrar algumas casas cujas características remetem a castelos medievais ou edificações tipicamente européias, como chalés, por exemplo. Com freqüência, projetos assim adaptam aspectos históricos aos recursos técnicos e finalidades atuais, de acordo com o arquiteto Nilson Ghirardello, que é professor de Urbanismo e História da Arquitetura do Departamento de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo do câmpus de Bauru da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
As casas que lembram templos gregos ou castelos medievais, por exemplo, muitas vezes misturam elementos de diversos períodos arquitetônicos, podendo ser mais fiéis a algum deles, segundo Ghirardello. A arquitetura que pega aspectos históricos, copiando-os sob outros pressupostos, começa a ser mais comum a partir do século XIX, e é chamada de arquitetura eclética. Ela faz remeter aquele período, mas com técnicas novas, materiais novos. Por exemplo, os castelos medievais eram escuros e não ofereciam muito conforto. Hoje em dia, esses projetos são feitos com essas adaptações, esclareceu.
Ghirardello salienta que os gostos variam muito de épocas em épocas. A arquitetura eclética, por exemplo, era considerada de má qualidade até 1960. Um gênio da arquitetura como Gaudi já foi também considerado de mau gosto. O movimento Moderno foi muito racionalista e achava que a arquitetura deveria ser limpa, sem elementos decorativos. Já o Pós-Modernismo alterou essa visão, retomando a ornamentação, abolida no século XIX. Hoje, não se é tão rígido com isso, garantiu.
Na opinião do professor, projetos residenciais excêntricos demonstram uma atitude corajosa do proprietário da casa. É uma arquitetura corajosa que corre o risco de ser chamada de mau gosto. Os proprietários tentam fugir do que as pessoas não percebem. Parece que querem dizer alguma coisa. As construções querem mostrar que estão presentes e fugir do anonimato. Eles são corajosos porque se colocam sob o crivo da população, enquanto a maioria prefere se misturar à multidão, sem comprometer-se, opinou.
Por outro lado, tais obras podem demonstrar fantasias ou sentimentos de perda e saudade, na concepção do arquiteto. Em geral, a casa é muito o sonho das pessoas. Às vezes, ela quer concretizar neste sonho uma série de fantasias. Isso pode se expressar num banheiro de 50 metros quadrados ou numa fachada estrambólica. As pessoas depositam muito as fantasias em suas casas, expôs.
Casas
A casa de Neide de Paula, que fica na rua Rubens Arruda, é uma das que costumam despertar a curiosidade das pessoas, por remeter ao formato de um castelo. A proprietária vive há 19 anos na residência e afirma que, com freqüência, transeuntes pedem para conhecê-la. As pessoas da rua pedem para entrar e conhecer a casa. Alguns japoneses pedem para tirar fotos. As crianças imaginam que há uma escada que leva à torre, onde vão encontrar Cinderelas e Brancas de Neve, como numa ficção de desenho animado, contou.
Apesar das características pouco usuais da residência, Neide afirma que o que a motivou a adquirir o imóvel foi seu espaço interno. Eu entrei e gostei. Não teve nada a ver com o formato, apesar de meu marido ser português, disse.
A residência de José Teixeira da Luz, que fica no Parque Vista Alegre, é outra que também chama a atenção dos bauruenses, por ser um chalé.
De acordo com o professor Ghirardello, os chalés são característicos de países do Norte da Europa. O formato diferente, em que as duas águas do telhado estendem-se até o solo, sendo também a neve escorra. Por isso as pessoas dizem que o chalé é pouco condizente com o nosso clima. É uma construção muito quente, explicou.
O chalé de Teixeira foi construído por ele mesmo e a idéia surgiu após ter foto publicada em uma revista. Eu vi numa revista e fiz igual. O dono de um outro chalé aqui na cidade me deu algumas coordenadas e eu construi, em quatro anos, disse.
O imóvel desperta o interesse de muitas pessoas, que vão até o local com o objetivo de comprar o chalé. É uma loucura! Todos querem comprar, perguntam se está à venda, quanto gastei para construir etc. Muitos casais de noivos vêm conhecer, afirmou.
Apesar disso, a grande quantidade de curiosos não incomoda o dono da casa. É uma delícia bater papo, contar a história da casa, enfatizou.