10 de julho de 2026
Geral

História de Pescador - Homenagem ao povo matogrossense

(*) Jovercy Bergamaschi
| Tempo de leitura: 3 min

Há mais ou menos seis anos, como habitualmente fazemos, programamos nossa pescaria. Dessa vez, como de várias outras, íamos a Miranda, pescar no rio do mesmo nome. No grupo, estavam o Vilson, o Zorzi, o Osmani, o Franchin e eu (Berga). Acompanhava-nos também o sr. Ambrózio, que não faz parte do time.

Tudo pronto, saímos às cinco da manhã. A Rondon estava sendo duplicada e o Zorzi, certamente por uma cochilada que até hoje nega, saiu para o acostamento irregular com sua F-1000 e o Franchin, que com uma perna machucada viajava deitado na carroceria, sentiu-se em um liqüidificador, em meio a tralhas de pesca e cozinha, tomates, molinetes e toda sorte de objetos que se pode imaginar num grupo bem organizado. Felizmente, passado o susto, só ficaram as gozações. Íamos acampar em uma fazenda próxima à cidade, um local privilegiado. Mas chegando a Miranda, lá pelas cinco da tarde, horário de São Paulo, veio a decepção: não poderíamos ficar na tal fazenda, pois o dono receberia visitas e o local não comportaria os dois grupos. Vagamos de fazenda em fazenda pelo resto da tarde, sempre recebendo resposta negativa. Quando nossa paciência e o dia estavam acabando, encontramos um simpático português que depois de mil recomendações nos permitiu ficar em suas terras.

A pesca estava escassa e o tempo desabou em chuva. Só quem é do ramo sabe o que é ficar acampado na beira do rio debaixo de chuva!

Depois de três ou quatro dias, tivemos notícia que estavam pegando pacus bem acima de onde estávamos, num local chamado Aldeia. Programamos partir para lá no dia seguinte. Compraríamos as iscas do Ludivan, na foz do rio Chapena. Iríamos o Zorzi, o Osmani e eu.

Gasolina extra, lanche reforçado, tralha revisada, partimos ainda escuro para nosso destino. Eu ia pilotando e depois de uma hora de motor alguém perguntou se alguém havia levado dinheiro para as iscas. Surpresa geral, ninguém havia pensado em tão insignificante detalhe. Então o Zorzi disse: "Vamos pedir emprestado a alguém". E foi uma risada só, pois quem nos emprestaria dinheiro naquele lugar? Mas o amigo não se deu por vencido: ao passarmos por uma minúscula chalana amarrada a uma árvore, pediu que eu parasse e com a maior cara-de-pau contou nosso problema ao pescador que ali estava com a mulher e um filho rapazola. Ele disse-nos que estava sem dinheiro, mas perguntou à mulher se ela tinha algum e a resposta também foi negativa. Depois perguntou o pescador a seu filho e este, até demonstrando satisfação, disse que tinha um pouco e enfiando a mão no bolso de um paletó pendurado no barco, tirou o que parecia ser sua fortuna, duas notas de dez reais e, sem a menor preocupação, passou-as às nossas mãos. Agradecidos, partimos, compramos as iscas, tentamos de tudo, mas nada dos tais pacus. Voltamos ainda com o sol alto para o acampamento, pegamos o que sobrou das iscas, vários gêneros alimentícios, já que viríamos embora no dia seguinte, e, é claro, os vinte reais e fomos pagar nossos benfeitores. Perguntando como entregaram tudo o que tinham a pessoas que nunca haviam visto e que poderiam não voltar a ver, deram a resposta tão simples quanto eles: vocês têm cara de boa gente!

Nossa homenagem e nossa gratidão àquele povo simples, puro e acolhedor, qualidades que já pudemos comprovar em outras ocasiões e que talvez sejam objeto de outras Histórias de Pescador.

(*) O autor, Jovercy Bergamaschi, não é grande pescador, mora em Bauru e às vezes mente um pouco, mas não desta vez.

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